Poucas franquias conseguiram mudar tanto a indústria dos videogames quanto Grand Theft Auto. O que começou em 1997 como um jogo visto de cima, relativamente simples e focado em espalhar caos pelas ruas, acabou se transformando em uma das marcas mais influentes — e lucrativas — da cultura pop moderna.
Ao longo de quase três décadas, a série atravessou gerações de consoles, reinventou o conceito de mundo aberto várias vezes e virou referência para praticamente qualquer jogo urbano de mundo aberto lançado desde então. Não só isso, o estúdio por trás da franquia também se reinventou com o tempo, tornando-se referência em desenvolvimento.
Mas GTA nunca foi apenas sobre roubar carros ou fugir da polícia com cinco estrelas piscando na tela enquanto um helicóptero tenta transformar seu carro em peneira. A franquia sempre funcionou como um retrato exagerado da sociedade estadunidense, misturando sátira, humor ácido, violência estilizada, crítica social e personagens moralmente questionáveis.
Entre polêmicas, recordes de vendas e momentos históricos para a indústria, a Rockstar construiu uma série que transcendeu os games e virou um verdadeiro evento cultural. Agora, com Grand Theft Auto VI marcado para chegar em 19 de novembro de 2026 no PS5 e Xbox Series X/S, a expectativa atingiu níveis quase absurdos.
Afinal, já são mais de dez anos desde o lançamento de Grand Theft Auto V, um jogo que simplesmente se recusou a morrer graças ao fenômeno GTA Online. Enquanto o novo capítulo não chega para transformar timelines, fóruns e grupos de WhatsApp em um grande surto coletivo, vamos revisitar agora toda a evolução da franquia — desde os tempos do caos em 2D até a ambição gigantesca de GTA 6.
Todos os jogos da franquia GTA
Contando com o futuro GTA 6, a franquia já teve mais de 15 lançamentos em sua história — isso sem contar as inúmeras atualizações que chegaram em GTA Online. Desde sua estreia, a franquia é dividida em três universos diferentes:
Universo 2D
Grand Theft Auto (1997)
Grand Theft Auto: London 1969 (1999)
Grand Theft Auto: London 1961 (1999)
Grand Theft Auto 2 (1999)
Universo 3D
Grand Theft Auto III (2001)
Grand Theft Auto: Vice City (2002)
Grand Theft Auto: San Andreas (2004)
Grand Theft Auto Advance (2004)
Grand Theft Auto: Liberty City Stories (2005)
Grand Theft Auto: Vice City Stories (2006)
Universo HD
Grand Theft Auto IV (2008)
Grand Theft Auto IV: The Lost and Damned (2009)
Grand Theft Auto: Chinatown Wars (2009)
Grand Theft Auto IV: The Ballad of Gay Tony (2009)
Grand Theft Auto V (2013)
Grand Theft Auto Online (2013)
Grand Theft Auto VI (2026)
GTA começou como um jogo 2D e visto de cima
Quando o primeiro GTA foi lançado em 1997 pela então DMA Design — estúdio que depois se tornaria a Rockstar North — ninguém imaginava que aquela bagunça criminosa em 2D se transformaria em uma das franquias mais importantes da história. O jogo usava câmera aérea, gráficos simples e uma estrutura muito mais próxima de um arcade caótico do que de uma experiência cinematográfica.
Ainda assim, vários pilares da série já estavam presentes ali. O jogador podia ignorar missões, roubar carros aleatórios, causar acidentes, fugir da polícia e simplesmente transformar a cidade em um festival de buzina, explosão e atropelamento. O “espírito GTA” já existia, mesmo antes da franquia virar referência técnica.
Outro detalhe curioso é que o jogo já apresentava versões iniciais de Liberty City, San Andreas e Vice City, cidades fictícias inspiradas em Nova York, São Francisco e Miami. A Rockstar ainda não tinha o gigantismo narrativo que viria depois, mas já demonstrava interesse em criar versões satíricas dos Estados Unidos.
As expansões Grand Theft Auto: London 1969 e Grand Theft Auto: London 1961 foram importantes porque mostraram que a franquia também podia brincar com outras épocas e cenários. Curiosamente, até hoje são os únicos jogos principais da série ambientados fora dos Estados Unidos.
Já Grand Theft Auto 2 começou a adicionar sistemas mais elaborados, incluindo facções criminosas diferentes e reputação dinâmica. Era uma prévia tímida do que a série faria anos depois em escala gigantesca.
GTA 3 redefiniu o conceito de mundo aberto em 3D
Se existe um jogo que mudou completamente a trajetória da franquia — e da indústria — esse jogo foi Grand Theft Auto III. Lançado em 2001 para PlayStation 2, o game pegou a estrutura caótica dos títulos anteriores e a transportou para um ambiente totalmente tridimensional.
Parece comum hoje, mas na época aquilo era quase absurdo. Liberty City parecia viva, cheia de trânsito, pedestres, rádios tocando músicas licenciadas e pequenos detalhes que faziam o jogador acreditar que existia um mundo funcionando além das missões.
GTA 3 praticamente estabeleceu o manual moderno dos jogos de mundo aberto urbanos. Missões livres, exploração sem barreiras, rádios com humor satírico, perseguições policiais dinâmicas e cidades cheias de atividades paralelas passaram a influenciar toda a indústria. Não à toa, durante anos qualquer jogo parecido recebia automaticamente o apelido de “clone de GTA”.
Outro ponto importante foi o tom cinematográfico. Mesmo com um protagonista silencioso, o jogo apostava em cenas dirigidas, narrativa mais estruturada e personagens marcantes ligados ao submundo do crime.
Vice City transformou nostalgia em identidade
Grand Theft Auto: Vice City, que chegou em outubro de 2022 na geração PS2, não foi apenas uma continuação. O game marcou o momento em que a Rockstar percebeu que ambientação podia ser tão importante quanto gameplay.
Inspirado fortemente em filmes como Scarface e séries policiais dos anos 1980, o jogo mergulhou sem vergonha na estética neon de Miami. Camisas floridas, carros esportivos extravagantes, pôr do sol laranja, cabelos duvidosos e trilhas sonoras recheadas de synth-pop ajudaram Vice City a criar uma personalidade única.
A cidade deixou de ser apenas pano de fundo e passou a funcionar como personagem. Tudo tinha identidade: as rádios, os comerciais absurdos, os figurinos, os diálogos e até a iluminação. Foi ali que GTA consolidou sua obsessão por cultura pop e sátira social.
Outro marco importante foi Tommy Vercetti, protagonista interpretado por Ray Liotta. Pela primeira vez, o personagem principal tinha voz própria e presença forte na narrativa, algo que virou referência no futuro de Grand Theft Auto.
Nos anos seguintes, a empresa lançou spin-offs como Liberty City e Vice City Stories, reforçando pontos que começaram a dar certo na série e pavimentando o caminho para um dos títulos mais grandiosos da franquia.
GTA San Andreas elevou a ambição da franquia
Se GTA 3 reinventou a fórmula e Vice City deu personalidade à série, Grand Theft Auto: San Andreas foi o momento em que a Rockstar decidiu simplesmente enlouquecer na escala. No ano de 2004, a companhia mostrou todo o seu poder de fogo na geração PS2.
O jogo entregava um estado inteiro inspirado na Califórnia e Nevada, com três cidades gigantes: Los Santos, San Fierro e Las Venturas. Além disso, existiam desertos, áreas rurais, florestas, estradas longas e pequenas cidades no meio do nada. Pela primeira vez, viajar em GTA parecia realmente uma viagem.
O game também expandiu absurdamente a quantidade de sistemas. CJ podia ganhar ou perder peso, melhorar habilidades físicas, aprender golpes, customizar carros, apostar em cassinos, comprar propriedades e até pilotar avião. Era quase um simulador de “vida criminosa caótica”.
Narrativamente, San Andreas mergulhava em temas como violência urbana, corrupção policial, disputas de gangues e racismo estrutural nos anos 1990. Tudo isso sem abandonar o humor absurdo típico da Rockstar. Era um jogo gigantesco, exagerado e completamente sem noção em vários momentos — justamente por isso virou um clássico.
Sucesso nas locadoras de videogame, o jogo se tornou referência por trazer suporte para cheats e uma ambientação noventista com gangues, o que garantia diversão logo de cara, sem fazer qualquer missão.
GTA também virou sinônimo de polêmica
Conforme a franquia crescia, as controvérsias cresceram junto. GTA virou alvo frequente de debates sobre violência nos videogames, liberdade criativa e influência da mídia.
O caso mais famoso aconteceu com o infame mod “Hot Coffee” de San Andreas, que revelou um minigame sexual escondido no código do jogo. A situação gerou processos, mudanças na classificação indicativa e uma dor de cabeça monumental para a Rockstar e a Take-Two.
Outros jogos também enfrentaram críticas envolvendo violência, tortura, consumo de drogas e representação social. Em Grand Theft Auto V, por exemplo, uma missão envolvendo tortura virou alvo de discussões pesadas na mídia.
Mas, gostando ou não, as polêmicas sempre fizeram parte da identidade da franquia. GTA frequentemente exagera situações justamente para satirizar comportamento humano, mídia sensacionalista e cultura americana.
GTA 4 trouxe realismo e um tom mais pesado
Depois do exagero colossal de San Andreas aproveitando todo o potencial do PS2, Grand Theft Auto IV mudou completamente a direção da série. O jogo inaugurou a era HD da Rockstar com uma nova direção.
A Rockstar apostou em uma Liberty City muito mais realista, inspirada diretamente em Nova York contemporânea. O foco passou a ser física avançada, detalhes urbanos, narrativa mais séria e personagens emocionalmente quebrados.
Niko Bellic rapidamente se tornou um dos protagonistas mais marcantes da franquia. Ex-soldado tentando fugir do passado, ele representava uma visão amarga do “sonho americano”, abordando imigração, trauma de guerra, violência e desilusão.
O jogo dividiu opiniões porque reduziu várias atividades de San Andreas em favor de uma experiência mais pé no chão. Ainda assim, GTA 4 foi essencial para consolidar a era HD da Rockstar.
Os DLCs Grand Theft Auto IV: The Lost and Damned e Grand Theft Auto IV: The Ballad of Gay Tony também ajudaram a expandir a ideia de múltiplas perspectivas dentro da mesma cidade.
GTA 5 virou um fenômeno impossível de ignorar
Em 2013, Grand Theft Auto V chegou redefinindo novamente o tamanho da franquia. A ideia dos três protagonistas — Michael, Franklin e Trevor — permitiu que a Rockstar explorasse diferentes classes sociais, estilos de vida e tipos de humor dentro da mesma narrativa.x
Los Santos virou uma caricatura gigantesca da cultura contemporânea americana: redes sociais superficiais, celebridades vazias, consumo exagerado, influencers oportunistas e milionários completamente surtados. Em outras palavras: a internet transformada em mapa jogável.
O jogo também marcou uma obsessão absurda por detalhes. A Rockstar fez pesquisas extensas em Los Angeles, registrando milhares de fotos e vídeos para recriar a cidade com enorme fidelidade. E claro: existe o fator Trevor, pois nenhuma análise de GTA 5 fica completa sem mencionar aquele homem que parece a manifestação física de um comentário tóxico de fórum em 2012.
Apesar de ter ficado datado em alguns aspectos, o jogo envelheceu muito bem, principalmente com as reformas que recebeu da Rockstar. O título ganhou uma versão aprimorada e melhorias para o PS5 e Xbox Series S/X, o que deixou a experiência tão atemporal quanto GTA San Andreas e outros clássicos da saga.
GTA Online mudou tudo para a Rockstar
Enquanto GTA V foi um sucesso, uma parte do jogo ficou ainda maior que Trevor, Michael e Franklin. O lançamento de Grand Theft Auto Online transformou completamente o modelo de negócios da franquia, trazendo um novo protagonista: o próprio jogador.
Inicialmente visto apenas como um complemento multiplayer, GTA Online virou uma plataforma gigantesca com atualizações constantes, novos golpes, veículos, propriedades e eventos especiais. O jogo permaneceu relevante durante mais de uma década, atravessando três gerações de consoles e sobrevivendo até mesmo ao lançamento de GTA 6.
GTA Online também conseguiu o feito milagroso de redefinir a si mesmo graças ao poder da comunidade. Além de seguir recebendo expansões oficiais, o título obteve uma sobrevida graças ao modo RP, que trouxe jogadores criando histórias mais realistas dentro do game — e obrigou até mesmo a Rockstar a comprar a Cfx.re, equipe por trás dos servidores modificados FiveM e RedM.
Esse efeito mudou diretamente a forma como a Rockstar produz seus jogos: fazendo GTA 5 atravessar gerações. O sucesso financeiro absurdo do online também aumentou a pressão sobre GTA 6, já que a empresa passou anos sustentando um dos maiores serviços live-service da indústria.
GTA 6 representa a maior transição da franquia em anos
Grand Theft Auto VI chega em 19 de novembro, primeiro ao PS5 e Xbox Series S/X, cercado por uma expectativa quase impossível de medir. O jogo representa não apenas uma nova sequência, mas a tentativa da Rockstar de atualizar a identidade da franquia para uma era dominada por redes sociais, cultura digital e hiperconectividade.
Vice City retorna em uma releitura moderna inspirada na Flórida contemporânea, com mais realismo e cinismo, como é possível ver no Olhar Estendido. A fórmula agora inclui influenciadores, viralização, crimes registrados em celulares e a lógica caótica da internet atual. Se Vice City nos anos 80 era exagerada, imagine Vice City em pleno TikTok.
Outro ponto histórico é a presença de Lucia, primeira protagonista feminina jogável da série principal. A mudança marca uma evolução importante para a franquia sem abandonar sua identidade narrativa focada no crime organizado, garantindo uma pegada de Bonnie e Clyde com a presença do coprotagonista Jason.
Com uma fórmula megalomaníaca, tudo indica que GTA 6 será mais do que um simples “GTA maior”. O jogo parece ser uma tentativa de redefinir novamente o que um mundo aberto pode oferecer — exatamente como GTA 3 fez em 2001.
GTA virou uma das franquias mais importantes da história
Hoje, a série Grand Theft Auto ultrapassa centenas de milhões de cópias vendidas e se consolidou como uma das propriedades mais lucrativas do entretenimento. Mas o impacto de GTA vai além dos números.
A franquia influenciou design de jogos, narrativa interativa, construção de mundos abertos, direção cinematográfica, uso de rádio dinâmica, IA urbana e até marketing na indústria dos games. Cada novo lançamento da série vira um evento global, e a chegada de GTA 6 prova isso a cada dia que passa.
Ao longo de quase 30 anos, GTA passou do caos pixelado em 2D para cidades absurdamente detalhadas e mundos que tentam simular sociedades inteiras. Poucas franquias conseguiram evoluir tanto sem perder completamente sua essência.
E talvez essa seja a maior força de Grand Theft Auto: independentemente da tecnologia, da geração ou da polêmica da vez, a série sempre encontra uma nova forma de transformar caos em espetáculo.
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