A mídia física como conhecemos está prestes a morrer — e Sony e Rockstar acabaram de confirmar isso
Se antes o padrão era comprar um jogo inteiro dentro da caixa, em breve você receberá apenas um código dentro da "mídia física"
Por muito tempo, comprar um jogo significava levar uma caixinha para casa, abrir o plástico, sentir aquele cheirinho de mídia nova e colocar o disco no console. Era um ritual que fez parte da vida de muitos gamers, mesmo que fosse com uma cópia pirata, comprada no camelô, na época do PS2. Agora, tudo indica que esse momento está entrando oficialmente para a história.
Em um intervalo de apenas uma semana, duas notícias deixaram claro para onde a indústria dos games está caminhando. Primeiro, a Rockstar revelou que a edição física de GTA 6 chegará às lojas apenas com um código para download dentro da caixa.
Agora, foi a vez da Sony anunciar que deixará de fabricar discos para novos jogos de PlayStation a partir de janeiro de 2028, adotando um formato similar ao visto no game da Rockstar. Com isso, se ainda existia alguma dúvida sobre o futuro da mídia física como a conhecemos, ela acabou de receber mais uma pá de terra.
Sony confirma o fim dos discos no PlayStation
Na quarta-feira (01), a Sony anunciou oficialmente que, a partir de janeiro de 2028, todos os novos jogos lançados para consoles PlayStation serão vendidos apenas em formato digital. Isso vale tanto para produções da própria empresa quanto para títulos de outras publishers.
Na prática, os jogos continuarão aparecendo nas prateleiras de lojas físicas, mas tudo indica que as tradicionais caixas passarão a trazer apenas um código de resgate. Ou seja: a embalagem permanece, mas o disco desaparece da equação.
Segundo a empresa, a decisão acompanha uma mudança no comportamento dos consumidores. Hoje, cerca de 80% das compras de jogos completos no PlayStation já acontecem em formato digital, tornando a fabricação de discos cada vez menos relevante para os negócios.
GTA 6 já mostrou que esse futuro começou
O curioso é que esse anúncio chega apenas alguns dias depois de outra bomba: a Rockstar confirmou que Grand Theft Auto 6 também terá uma edição física sem disco.
Na prática, quem comprar a versão em caixa levará para casa apenas uma embalagem com um código para baixar o jogo. É uma situação curiosa: você continua comprando um produto físico, mas o conteúdo dele já é totalmente digital.
Coincidência ou não, GTA 6 deve ser o maior lançamento desta geração e vai ditar tendências. E quando até um jogo desse porte abandona o disco, fica difícil acreditar que outros estúdios continuarão investindo pesado no formato por muito mais tempo.
A verdade é que os discos já vinham perdendo importância
Embora o anúncio da Sony pareça histórico, ele também era bastante previsível. Afinal, o mercado inteiro já vinha apontando nessa direção há anos — e as empresas têm muito a ganhar com essa mudança.
No PC, por exemplo, a mídia física praticamente desapareceu na última década graças ao crescimento de plataformas como Steam, Epic Games Store e GOG. Nesse ecossistema, no entanto, a mudança para o digital foi benéfica, já que temos múltiplas lojas e formas de preservar games.
Nos consoles, porém, o buraco é mais embaixo. Xbox e PlayStation já haviam lançado versões digitais de seus consoles ainda em 2020, enquanto a própria Microsoft vinha reduzindo gradualmente o foco em jogos físicos. Alguns fatores aceleraram esse movimento:
O crescimento das lojas digitais;
A popularização das assinaturas, como Game Pass e PlayStation Plus;
Custos cada vez maiores para fabricar, transportar e distribuir discos;
O aumento do tamanho dos jogos modernos.
Com esse movimento, naturalmente, comprar um jogo digital virou o padrão para a maior parte do público. O problema é que isso limita a competição dentro das plataformas.
Quando Microsoft e Sony impedem você de comprar um disco, você não tem escolha a não ser usar o jogo adquirido ou ativado na PS Store. Quer revender ou emprestar um game? Já era, só se você repassar a sua conta junto.
O disco já deixou de ser o jogo faz tempo
Existe outro detalhe importante nessa história: a preservação. Muitos discos atuais já não carregam o jogo completo e servem apenas como uma validação de key para a loja do PlayStation ou Xbox — o que torna a decisão de matar a mídia física menos dolorosa para as empresas.
Com produções ultrapassando facilmente os 100 GB — e algumas chegando perto dos 200 GB — ficou comum encontrar discos que armazenam apenas parte dos arquivos. Em diversos casos, é necessário baixar dezenas de gigabytes logo após inserir a mídia no console.
Em situações mais extremas, o disco funciona praticamente como uma chave de autenticação. Ele comprova que você possui aquela licença, mas quase todo o conteúdo precisa ser baixado da internet.
Isso muda completamente o significado da mídia física. Ela deixa de ser um armazenamento permanente e passa a funcionar apenas como um “comprovante” de que você pode acessar aquele software.
Comprar um jogo não significa mais ser dono dele
Essa discussão também levanta uma questão importante sobre propriedade digital. Ao adquirir um jogo nas lojas online — e, cada vez mais, também em versões físicas — o consumidor normalmente não compra o software em si. O que está sendo adquirido é uma licença de uso, sujeita aos termos definidos pela plataforma.
Na prática, isso significa que o acesso ao jogo depende da existência da loja digital, dos servidores da empresa e das regras impostas por ela. Não é por acaso que legislações recentes começaram a exigir mais transparência sobre esse tipo de licença digital.
Essa diferença pode parecer apenas jurídica, mas faz toda a diferença quando pensamos no futuro. E, agora, dá pra ver que esse futuro pode não ser tão distante.
Segundo a Sony, a nova regra não afeta o funcionamento de jogos atuais vendidos em mídia física. No entanto, quando você perde a possibilidade de vender ou emprestar jogos que já são só uma licença, quem acaba ganhando é a dona do ecossistema.
Os Game Key Cards da Nintendo podem ser uma saída para o mercado
Curiosamente, quem parece ter encontrado o modelo mais equilibrado nesse cenário foi a Nintendo. Com o Switch 2, a empresa apresentou os chamados Game Key Cards.
Os cartões também não armazenam o jogo completo, o que não é nada legal quando pensamos em liberdade e preservação de games. Os objetos funcionam como uma chave para download, mas possuem uma vantagem importante sobre os códigos tradicionais que virão nas caixas do PlayStation.
Como o cartão físico continua sendo o item que valida a licença, ele pode ser emprestado, vendido ou trocado entre jogadores exatamente como acontecia com os antigos cartuchos. Ou seja, mesmo sendo apenas uma chave, os Game Key Cards conseguem manter a melhor parte da mídia física além do colecionismo, que é a chance da revenda e do empréstimo.
Não é uma solução perfeita, mas ainda representa um meio-termo muito mais interessante do que simplesmente colocar um código descartável dentro de uma caixa. Felizmente, ainda temos um ano e meio até a Sony fazer a transição, o que dá tempo para a empresa melhorar sua abordagem.
Segundo rumores, a Microsoft está trabalhando em uma tecnologia capaz de digitalizar jogos em mídia física, mostrando que existem abordagens para o assunto que vão além de simplesmente colocar um código de ativação dentro de uma caixa. Logo, se o público fizer bastante barulho, quem sabe alguma coisa mude nas decisões da dona Sony.
O maior problema é a preservação dos games
E se você, assim como muitos gamers, nem usa mais mídia física, saiba que o desaparecimento dos discos vai muito além do colecionismo e essa briga também é sua. Afinal, quanto menos opções disponíveis, mais fortes ficam as corporações que comandam a sua diversão atualmente (nossa, isso foi muito Cyberpunk).
A preservação dos videogames sempre dependeu, em grande parte, da existência de cópias físicas. Elas permitem que jogos continuem acessíveis décadas depois, mesmo quando lojas digitais deixam de existir, e sem qualquer conexão com internet.
A própria Sony anunciou, junto dessa mudança, que encerrará futuramente as lojas digitais de PS3 e PS Vita em diversos países. Embora jogos já comprados continuem disponíveis por um tempo, o episódio mostra como conteúdos digitais permanecem totalmente dependentes da infraestrutura das empresas.
Se um título nunca recebeu uma versão física completa — ou sequer existe fora de uma loja digital — sua sobrevivência no longo prazo passa a depender exclusivamente da boa vontade da plataforma. E como é possível ver, as grandes empresas não contam com muita boa vontade ultimamente.
A mídia física vai desaparecer?
Com todo esse auê, fica impossível não pensar que a mídia física pode desaparecer nos próximos anos. Mesmo com os duros golpes, a tendência é que o formato ainda siga existindo, pelo menos por enquanto.
Ainda existe um público apaixonado por colecionar jogos, e empresas especializadas continuam produzindo edições limitadas para esse mercado. Da mesma forma, retro games seguem movimentando uma comunidade enorme ao redor do mundo.
Mas tudo indica que esse será um nicho cada vez menor, e com menos apoio das empresas que produzem games. O futuro da indústria aponta cada vez mais para downloads, assinaturas, streaming e licenças digitais. O disco, que durante décadas foi símbolo dos videogames modernos, caminha para se tornar uma lembrança de outra era.
E talvez essa seja a parte mais curiosa de toda essa história. Assim como muitas tecnologias, o fim da mídia física não rolou de uma vez, mas a “morte” vem acontecendo lentamente há anos. A diferença é que agora até as maiores empresas da indústria decidiram “abraçar” o futuro — e, como sempre, o consumidor pode sair prejudicado dessa inovação.
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