Anunciado no The Game Awards do ano passado, cercado de várias especulações — e alguns rituais — dos fãs, finalmente Ace Combat 8 está entre nós, chegando cerca de sete anos após Ace Combat 7, lançado em 2019. A espera foi longa, mas a expectativa também cresceu durante esse período, principalmente depois do enorme sucesso alcançado pelo jogo anterior.
A franquia, iniciada em 1995 com Air Combat, lançado exclusivamente para o primeiro PlayStation, passou por décadas de títulos marcantes, especialmente durante a geração do PlayStation 2, com Ace Combat 4: Shattered Skies, Ace Combat 5: The Unsung War e Ace Combat Zero: The Belkan War, considerados por muitos fãs como o ápice da série. Também houve períodos mais complicados no final da década de 2000 e durante a década de 2010, com jogos que tiveram desempenho comercial abaixo do esperado ou dividiram bastante a comunidade.
Foi somente com a chegada de Ace Combat 7 que a série voltou a encontrar um grande público, mesmo depois de um desenvolvimento conturbado e que quase levou o projeto ao cancelamento várias vezes. Apesar de todas as dificuldades, a Project Aces conseguiu perseverar, e Ace Combat 7 acabou se tornando o título mais vendido da história da franquia.
Com o desenvolvimento de Ace Combat 8 iniciado em 2019, a nova aventura chega carregando grandes expectativas e a responsabilidade de continuar o legado deixado pelo antecessor. Depois de acompanhar essa nova jornada pelos céus de Strangereal, confira a seguir como foi a experiência e se toda essa espera valeu a pena.
Ficha Técnica
Jogo: Ace Combat 8 Wings of Theve
Desenvolvedora: Project Aces
Distribuidora: Bandai Namco Enternainment
Lançamento: 2 de outubro de 2026
Onde jogar: PlayStation 5, Xbox Series X/S e PC
Plataforma de teste: PC
Preço: a partir de R$ 309,50 — R$ 278 em promoção na Nuuvem
A review foi produzida com uma chave cedida pela Bandai Namco Enterteinment para PC.
Retornando aos Céus
A gameplay de Wings of Theve mantém a essência da franquia, continuando sendo um jogo de voo arcade, mas logo de primeira é possível perceber uma grande diferença em relação aos títulos anteriores. Os caças deste capítulo são mais pesados e lentos, lembrando jogos como Ace Combat 3 e Joint Assault, que também são conhecidos por apresentarem aeronaves com uma sensação de controle mais pesada.
Essa mudança acontece por conta da implementação de físicas mais realistas e de um sistema de inércia que deixa os caças menos ágeis. Sendo bem honesto, achei a alteração um tanto estranha no começo.
Nas primeiras missões, os caças iniciais pareciam feitos de pedra pela dificuldade em realizar manobras de alta gravidade e pela velocidade mais baixa. Em certo ponto, eu chegar a acreditar que havia algum problema com o desempenho do jogo, especialmente depois de vir diretamente de Ace Combat 7, em que os caças apresentavam uma mobilidade muito maior.
É uma mudança que exige um certo tempo para ser assimilada, mas, depois que você se acostuma com a nova dinâmica, ela se torna extremamente viciante e passa a ser um dos melhores aspectos do jogo. Além disso, essa característica faz com que o jogador preste ainda mais atenção ao caça que pretende comprar, observando atributos como velocidade e mobilidade, que agora fazem uma diferença maior durante as missões.
Falando em caças, temos novamente a árvore de aeronaves presente em Ace Combat Infinity e Ace Combat 7, mas agora existe uma divisão importante entre os modelos disponíveis. As aeronaves com o símbolo de âncora podem ser lançadas a partir de porta-aviões, enquanto aquelas que não possuem o símbolo não podem, algo que precisa ser levado em consideração na hora de comprar um novo avião.
Outra grande mudança é a possibilidade de equipar duas armas especiais no mesmo caça, embora cada uma delas tenha uma quantidade reduzida de munição. A novidade inicialmente parece oferecer mais liberdade e versatilidade ao jogador, mas, na prática, acaba atrapalhando em alguns momentos justamente porque o estoque de munição se esgota rapidamente.
O título também marca o retorno do sistema de alas, presente pela última vez na franquia em Ace Combat 6, de 2007, funcionando de maneira semelhante ao que já vimos em jogos anteriores. É possível dar comandos específicos aos companheiros, como atacar, dispersar, utilizar armas especiais e oferecer cobertura, enquanto os próprios alas também podem utilizar caças comprados pelo jogador, desde que haja aeronaves suficientes para toda a equipe.
Assim como nos capítulos anteriores, o jogo é estruturado em missões acompanhadas de briefings, e vale a pena prestar atenção neles porque é por meio dessas informações que o jogador entende qual tipo de caça será mais adequado para cada situação. Algumas missões exigem aeronaves especializadas em combate ar-ar, enquanto outras favorecem modelos voltados para ataques ar-terra, tornando a escolha da aeronave uma parte importante da preparação.
As missões também apresentam uma variedade maior de objetivos, indo desde a eliminação de alvos até escoltas e as tradicionais missões de pontos, agora chamadas de batalhas de aniquilação. As missões de eliminação de alvos, que costumavam aparecer com bastante frequência nos jogos anteriores, estão em menor número, enquanto as escoltas assumem um protagonismo inesperado e, para minha surpresa, são algumas das atividades mais divertidas do jogo.
A surpresa acontece principalmente porque as missões de escolta sempre estiveram entre as partes mais cansativas da franquia, mas aqui elas receberam atenção especial para serem mais variadas e divertidas. Em vez de simplesmente colocar inimigos vindo de todos os lados e transformar a missão em uma sequência frustrante de ameaças, Ace Combat 8 consegue variar melhor os objetivos e fazer com que essas missões não pareçam repetitivas, enquanto as batalhas de aniquilação aparecem em menor quantidade do que em outros capítulos que possuem esse tipo de atividade.
Uma História impactante, mas que poderia ser melhor
A trama se passa em Strangereal, o universo fictício da franquia, no ano de 2029, quando a Federação da Usea Central (FCU) é invadida pela República de Sotoa, uma nação de origens nômades que passa a expandir suas ambições bélicas após enfrentar severas secas. O protagonista, Rex, está a bordo do porta-aviões obsoleto Endurance e assume o manto de Wings of Theve, uma figura ligada ao falecido piloto Jan Cope que passa a habitar sua mente na forma de um fantasma, enquanto a própria lenda de Wings se revela uma farsa criada como propaganda de guerra.
A franquia Ace Combat sempre se diferenciou de outras séries de combate aéreo pela forte ênfase que coloca em suas histórias, mas, neste capítulo, a narrativa acaba sendo justamente seu aspecto mais fraco. A trama é escrita por Sunao Katabuchi, roteirista de Ace Combat 5 e Ace Combat 7, e deixa clara a inspiração em Ace Combat 5, principalmente pelo foco nos personagens e pela tentativa de construir uma história mais humana.
A história se concentra em quatro personagens principais, começando pelo protagonista Rex, ou Ray para os íntimos, além de Baxter, o integrante mais velho do esquadrão conhecido pelo codinome Professor. Também temos Tasha, personagem que conquistou os corações de inúmeros jogadores e que é uma piloto civil de shows aéreos de Yuktobania antes de acabar integrando a força aérea durante a guerra. Por fim, temos Coster, mais calado e introspectivo, apaixonado por música e conhecido pelo codinome Noise.
A maior força da história está justamente nesses personagens cativantes e carismáticos, já que o jogo dedica tempo para conhecê-los e desenvolvê-los ao longo da campanha. A escrita de Katabuchi acerta principalmente quando explora a química entre eles e o lado humano da guerra, entregando momentos capazes de arrancar lágrimas mesmo quando a trama principal não acompanha a mesma qualidade.
O grande problema está justamente na falta de equilíbrio da narrativa e na maneira como ela se desenvolve ao longo da campanha. Enquanto o desenvolvimento dos personagens e os próprios personagens são muito fortes, a trama em si acaba sendo fraca em boa parte do jogo, principalmente por seguir uma estrutura bastante simples que, em grande parte, se resume a retomar territórios inimigos.
A história até apresenta algumas reviravoltas, mas elas são bastante previsíveis, principalmente para quem já jogou os capítulos anteriores e conhece a posição deste jogo na linha do tempo da franquia. Existe ainda um problema de ritmo, já que a narrativa só parece realmente engrenar na metade da campanha, que possui 30 missões e faz de Ace Combat 8 o título mais longo da série.
A forma como a história é apresentada também é inédita na franquia, já que, diferente de títulos anteriores, ela não é contada principalmente por um narrador externo. Aqui, acompanhamos os acontecimentos pelos olhos do próprio protagonista em cutscenes de primeira pessoa e em tempo real, trazendo elementos que lembram o controverso Assault Horizon, de 2011, que também utilizava cenas em primeira pessoa e quick time events durante momentos da campanha.
Esses elementos possuem uma função semelhante aqui, incluindo um quick time event que lembra o Dogfight Mode de Assault Horizon, sistema em que o jogador era automaticamente colocado atrás do inimigo. Em Ace Combat 8, porém, essa mecânica aparece de maneira mais scriptada e integrada à apresentação da campanha.
A novidade é interessante à primeira vista, mas durante boa parte da primeira metade do jogo ela acaba não tendo tanto propósito narrativo quanto poderia. Isso acontece porque a trama principal ainda está sendo desenvolvida de maneira bastante lenta, enquanto boa parte do desenvolvimento dos personagens acontece por meio dos diálogos durante as próprias missões.
Por outro lado, é impossível não destacar o excelente trabalho realizado nessas cenas, tanto na captura de movimento quanto na performance dos dubladores em inglês. Os personagens conseguem transmitir emoções de maneira convincente, e é justamente nesses momentos que Ace Combat 8 mostra o potencial que sua narrativa poderia ter explorado ainda mais.
Apesar desses problemas, a narrativa consegue se sustentar graças aos seus excelentes personagens e à capacidade de entregar momentos realmente impactantes durante as missões. Não é a história mais consistente da franquia, mas existe humanidade suficiente em seus protagonistas para fazer com que você queira continuar acompanhando a jornada até o fim.
Um modo online inédito para a franquia
Ace Combat 8 introduz um novo modo multiplayer chamado Ace Combat Online, representando uma grande evolução em relação ao multiplayer de Ace Combat 7, que era baseado principalmente em batalhas entre equipes e deathmatches. Aqui, a estrutura se aproxima mais de outros jogos online atuais, com um lobby no qual é possível criar um personagem e circular pelo hangar para interagir com outros jogadores, aceitar desafios, comprar caças e itens cosméticos e participar de diferentes missões.
As atividades disponíveis são divididas entre ataque cooperativo, no qual duas equipes competem por pontos contra inimigos controlados por inteligência artificial, e guerra cooperativa, que mistura batalhas PvP com unidades controladas pela IA espalhadas pelo mapa. Também existem o deathmatch, disponível como evento por tempo limitado, o Scramble, igualmente limitado, e as surtidas de emergência, eventos especiais que recriam momentos icônicos da franquia.
Entre as surtidas de emergência disponíveis estão o Arsenal Bird e o Alicorn, de Ace Combat 7, além do Chandelier, de Ace Combat 6. Durante meus testes, porém, não pude experimentar o modo multiplayer, então não seria justo tirar conclusões definitivas sobre como todas essas atividades funcionam na prática.
O multiplayer também conta com um passe de batalha que inclui o caça Morgan, de Ace Combat Zero, além de um sistema de microtransações para obter novas aeronaves. É possível conseguir os caças sem gastar dinheiro real, mas isso exige um longo período de grinding, o que acaba criando uma vantagem para quem está disposto a pagar, especialmente porque atributos como mobilidade e velocidade variam de acordo com o modelo utilizado.
Visuais e sons fazem bonito nos céus
Visualmente, Ace Combat 8: Wings of Theve é um jogo belíssimo, com modelos detalhados dos caças, cenários bem construídos, nuvens herdadas de Ace Combat 7, explosões e efeitos de disparos que demonstram bastante atenção aos detalhes. A direção de arte também consegue manter a identidade da franquia enquanto apresenta uma evolução natural em relação ao jogo anterior.
Um dos maiores destaques está nas novas cutscenes em tempo real, já que os títulos anteriores utilizavam principalmente cenas pré-renderizadas, com exceções como Ace Combat 3, que apostava em animações, e Ace Combat Zero, que utilizava live-action. Aqui, as cenas são apresentadas em primeira pessoa e deixam evidente o carinho que a Project Aces colocou na produção.
A equipe utilizou atores para realizar a captura de movimento dos personagens, proporcionando movimentos mais naturais e convincentes durante as cenas. Mesmo com a captura de movimentos, os personagens mantêm rostos originais e uma direção de arte própria, mostrando novamente o cuidado colocado na identidade visual do jogo.
No quesito desempenho, porém, a situação poderia ser melhor, pelo menos no PC utilizado para os testes. O jogo costuma ficar entre 35 e 45 fps, tendo dificuldade para alcançar os 60 fps e chegando a esse número basicamente quando a câmera está voltada para o céu sem nuvens.
Durante o gameplay, essa faixa de desempenho se mantém relativamente estável, mas o problema aparece com mais força durante algumas cutscenes. Em determinados momentos, o jogo chega a ter dificuldade para manter 30 fps, com algumas cenas caindo para aproximadamente 25 fps, embora isso aconteça em poucas ocasiões.
Parte desses problemas parece estar relacionada ao uso obrigatório de ray tracing, que acaba pesando ainda mais no desempenho. Além disso, o jogo não possui Frame Generation, recurso que se tornou bastante comum nos lançamentos atuais, e chegou a utilizar cerca de 99% da memória RAM disponível durante os testes, mesmo com 32 GB instalados.
No aspecto sonoro, o jogo também faz bonito, com uma sonoplastia completamente reformulada em relação aos títulos anteriores. Mísseis e metralhadoras agora possuem sons mais mecânicos, uma mudança que pode causar estranhamento no primeiro contato, mas que funciona bem dentro da proposta.
O alerta de mísseis também recebeu uma reformulação sonora, mas continua sendo reconhecível imediatamente por quem já passou horas jogando Ace Combat. E pode ter certeza de que você provavelmente continuará ouvindo aquele alerta na cabeça mesmo depois de terminar a campanha.
As explosões continuam satisfatórias e também evitam aquele som de implosão que aparece em tantos jogos modernos. São pequenos detalhes, mas ajudam bastante a construir a sensação de estar realmente no meio de um combate aéreo.
A canção de Wings
A música sempre foi um elemento importante de Ace Combat, e aqui não é diferente. Confesso que esse era um dos aspectos que mais me preocupavam antes de jogar, principalmente porque Keiki Kobayashi, compositor principal da franquia desde Ace Combat 5, não retornaria como compositor líder do projeto.
Kobayashi permaneceu envolvido com a série mesmo depois de deixar a Bandai Namco, inclusive trabalhando em Ace Combat 7, mas agora a função principal passou para Ryo Watanabe e Mitsuhiro Kitadani. Os dois já haviam trabalhado em títulos anteriores, embora não tivessem muitas faixas de destaque nesses jogos.
Minhas preocupações, porém, foram completamente infundadas, porque Ace Combat 8 possui uma excelente trilha sonora. Kobayashi retorna para compor o tema principal, Everflow, que traz elementos clássicos de seu trabalho, como os vocais em latim e a forte presença da orquestra, além de apresentar um motivo que retorna diversas vezes durante a campanha.
Outro destaque é Hortus Regis Alti, enquanto a trilha como um todo busca construir uma identidade própria em vez de simplesmente tentar repetir o que funcionou nos capítulos anteriores. Este também é o título da franquia com a maior presença de músicas vocais em inglês, enquanto os jogos anteriores costumavam utilizar o latim com mais frequência.
O rock também ganha bastante espaço e chega a fazer parte da própria história, funcionando como um elemento narrativo dentro da campanha. É uma maneira interessante de conectar a música ao universo do jogo e fazer com que a trilha não seja apenas um acompanhamento para as batalhas.
Apesar de, no geral, a trilha não alcançar o mesmo nível de Ace Combat 7, que parecia ter uma música memorável esperando em praticamente cada fase, ela continua sendo excelente e consegue criar momentos capazes de arrepiar e emocionar. Sinceramente, é uma das melhores trilhas sonoras que ouvi em um jogo lançado este ano.
Vale a Pena comprar Ace Combat 8 Wings Of Theve?
Depois de anos de espera por um novo capítulo, Ace Combat 8 chega com uma gameplay viciante, uma trilha sonora fenomenal, excelente qualidade visual e uma história que, apesar de deixar a desejar em alguns aspectos, consegue se sustentar graças aos seus ótimos personagens. O resultado é uma das narrativas mais humanas da franquia desde Ace Combat 5, mesmo que seu desenvolvimento irregular impeça que ela alcance todo o potencial apresentado pelos protagonistas.
Apesar de um modo online questionável em sua monetização e de uma otimização que poderia ser melhor no PC, Ace Combat 8: Wings of Theve é um grande retorno para a franquia e um dos títulos mais interessantes do ano. Depois de tantos anos de espera, a Project Aces mostra novamente que dedicação, perseverança e carinho podem construir um excelente jogo, e agora resta apenas começar a especular sobre quando os céus de Strangereal receberão Ace Combat 9.
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