Consume Me prova que você não precisa de gráficos realistas para fazer um jogo realista
Jogo indie esnobado nas premiações transforma a adolescência em um RPG cotidiano tão engraçado quanto desconfortavelmente familiar.
Todo mundo sabe que ser adolescente é horrível, e Consume Me não faz o menor esforço para discordar disso. Lançado em setembro de 2025, o jogo indie criado por Jenny Jiao Hsia usa a própria adolescência da desenvolvedora como ponto de partida para contar uma história que mistura humor ácido, autocrítica e reflexões bem reais sobre cobrança, aparência e expectativas.
E o mais curioso: faz tudo isso sem nunca perder o tom leve, quase bobo, que te faz rir enquanto o jogo cutuca feridas que você talvez nem lembrasse que existiam. Com essa premissa genial e autoral, o game até chegou a aparecer como indicado em algumas premiações como o TGA, mas foi esnobado por muita gente, o que é um crime tão grande quanto a chatice dos adolescentes.
Aqui no Jornal dos Jogos, contamos a seguir como foi nossa experiência com Consume Me, que é um daqueles jogos simples à primeira vista, mas que ficam marcados na cabeça — e no coração — muito depois dos créditos finais. Além disso, o título também é a prova de que você não precisa fazer um jogo realista para entregar muito realismo.
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Um RPG sobre sobreviver ao último ano do colégio
Em Consume Me, você assume o papel de Jenny, uma adolescente prestes a começar o último ano do ensino médio. A missão? Equilibrar absolutamente tudo: dieta, exercícios físicos, estudos, tarefas domésticas impostas pela mãe, vida social, namoro… tudo isso com tempo limitado e uma pressão constante para não “falhar”.
Mesmo não tendo sido uma adolescente particularmente preocupada com peso ou dieta, me vi em muitos momentos do jogo. A ansiedade pelas notas, o medo do futuro, a sensação de precisar atender às expectativas dos pais — tudo isso bateu forte.
Ainda assim, o jogo nunca se torna pesado demais. Pelo contrário: ele sabe rir de si mesmo, e isso faz toda a diferença. A contagem de calorias, por exemplo, vira uma contagem de “nhacs”. Comer salgadinho aumenta o ânimo, mas estoura a dieta. E se sobrar comida? Sempre dá pra dar umas coisinhas pra cachorrinha, que é facilmente uma das grandes estrelas do jogo.
Com essa premissa, o game consegue abordar conteúdos pesados e importantes, mas sem parecer forçado ou desrespeitoso. Esse equilíbrio, por si só, já faria do game o grande merecedor da estatueta de Jogo como Impacto do The Game Awards, o que não aconteceu este ano. No entanto, o título vai muito além da crítica social, sendo um ótimo jogo de RPG.
Gerenciar tempo, energia e sanidade (sem enlouquecer)
Misturando simulador de vida com elementos de RPG, o gameplay de Consume Me gira em torno de uma série de minigames e decisões estratégicas. Cada capítulo representa uma semana da vida de Jenny, com objetivos claros que precisam ser cumpridos — e falhar neles significa game over.
Assim como na vida real, a personagem possui três barras essenciais que não podem chegar a zero: ânimo, energia e fome. Cada atividade consome esses recursos de forma diferente, e o grande desafio está em equilibrar tudo. Às vezes, você vai precisar “errar” de propósito: comer besteira para recuperar o ânimo, mesmo sabendo que depois terá que compensar com exercícios.
Quer saber outra lição do game tirada direto da vida real? O tempo é o recurso mais valioso do jogo. Cada ação consome unidades preciosas do dia, então planejar mal pode significar não conseguir estudar o suficiente, deixar a mãe irritada ou simplesmente não ter energia para continuar. É angustiante — mas de um jeito muito bem pensado.
Dificuldade crescente e surpresas narrativas
Conforme os capítulos avançam, o jogo aumenta a dificuldade de forma natural. Mais tarefas, menos margem de erro e uma cobrança cada vez maior. Por outro lado, também surgem novidades: upgrades, melhorias que reduzem o tempo de certas ações e eventos surpresa durante o dia de Jenny.
Mesmo com objetivos bem definidos, a narrativa nunca é totalmente previsível. Jenny quer ser perfeita, quer agradar todo mundo, mas a vida real, como o jogo deixa claro, não funciona assim. Há reviravoltas, pequenas frustrações e momentos que fogem do controle do jogador, reforçando a sensação de que nem tudo depende apenas de planejamento.
Jenny quer ser perfeita, quer agradar todo mundo, mas a vida real, como o jogo deixa claro, não funciona assim.
O ritmo curto e bem cadenciado impede que o jogo se torne cansativo. Pelo contrário, é aquele tipo de experiência que te faz pensar: “ vou jogar só mais uma semana”, até perceber que já está emocionalmente investido demais.
Humor cartunesco para falar de coisas sérias
Visualmente, Consume Me aposta em um estilo 2D cartunesco, sem compromisso com anatomia realista. Os personagens são exagerados, expressivos e cheios de personalidade, o que combina perfeitamente com o tom do jogo.
A trilha sonora e a direção de arte remetem a jogos mais antigos e histórias em quadrinhos. Não há dublagem tradicional: os personagens se comunicam por onomatopeias e vozes engraçadinhas, com falas exibidas em balões de texto — tudo devidamente localizado em português brasileiro.
Essa escolha estética reforça o humor do jogo e ajuda a suavizar temas pesados, como distúrbios alimentares, pressão estética e expectativas irreais impostas especialmente às mulheres. É desconfortável em alguns momentos, mas sempre intencional.
Além disso, o estilo visual torna o jogo bem acessível. O título roda tranquilamente no Steam Deck e funciona sem esforço em notebooks ou PCs mais fracos.
Um espelho da vida adulta
Apesar de falar sobre adolescência, Consume Me também reflete algo que muita gente sente até hoje: a tentativa constante de equilibrar trabalho, estudos, família, relacionamentos e autocobrança. Jenny está tão focada em não decepcionar que mal percebe o quanto está desconfortável — e isso é dolorosamente familiar.
Mesmo sendo um jogo single player, a narrativa tem um quê de seriado: é difícil não querer contar para alguém as situações absurdas ou as decisões tortas que você tomou no meio do caminho. E com mais de 13 finais possíveis (a maioria deles nada animadora), há um incentivo real para rejogar e explorar o que ficou para trás.
Vale a pena?
Custando apenas R$ 50,00 (e até menos em promoções), Consume Me entrega uma experiência curta, mas extremamente marcante. Cada momento é pensado com carinho, humor e honestidade. Não é um jogo para quem busca ação frenética ou gráficos realistas, mas é uma escolha excelente para quem busca REALIDADE.
Altamente inspirado na história de sua criadora, o jogo é perfeito para quem busca narrativas criativas, sistemas bem amarrados e games que dizem algo além do óbvio. Tanto para quem é jogador como para quem é desenvolvedor, Consume Me prova que dá pra fazer coisas muito diferentes no mundo dos games.
Se você ainda não conhecia esta pérola, vale a pena jogar agora, sem medo. Consume Me é aquele tipo de indie que passa batido por muita gente, mas que merece ser descoberto, especialmente se você gosta de rir enquanto reflete sobre a bagunça que é crescer (e continuar tentando acertar).
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