Após muitos rumores, especulações e meses (no meu caso, anos) de espera, Diablo IV finalmente chegou ao Nintendo Switch 2 (NSW2) no dia 15/09 com Diablo IV: Age of Hatred Collection. A nova versão entrega um port honesto, com jogabilidade estável e, mesmo com os gráficos estando longe de serem os mais bonitos entre as demais plataformas, a Blizzard repetiu o feito de Diablo III: Eternal Collection, encontrando mais uma vez no Switch 2 a melhor experiência para se jogar a franquia.
Diablo IV para o Switch 2 foi anunciado durante a transmissão de abertura da Blizzcon 2026 e chegou oficialmente ao portátil apenas três dias depois. Como já era de se esperar, o lançamento foi simultâneo ao da Temporada 15: Legado Infernal, que serve como a cereja no bolo para os fãs da franquia, principalmente para os que precisaram trocar o drive de CD-ROM de 4x para 8x para conseguir jogar Diablo 1 sem engasgos.
Isso porque, assim como na Temporada 14 (que você confere a análise aqui), a Blizzard foi fundo na nostalgia, trazendo de volta itens únicos clássicos, os heróis Aidan, Moreina e Jazreth, do primeiro jogo, entre outros nomes, uns queridos, outros nem tanto. Além disso, a temporada ainda recriou os mapas e conteúdos mais emblemáticos da franquia, inclusive de Diablo: Hellfire, a expansão esquecida no churrasco por muitos, mas amada por fãs mais fervorosos da época.
Ficha Técnica
Jogo: Diablo IV: Age of Hatred Collection — Versão NSW2 + Temporada 15, Legado Infernal
Desenvolvedora: Blizzard
Lançamento: 15 de setembro de 2026
Onde jogar: PS5, Xbox Series X|S, PC e Nintendo Switch 2
Plataforma de teste: Nintendo Switch 2
Preço: a partir de R$ 299,00
O código do jogo para NSW2 e conteúdo do passe de temporada foram cedidos pela Blizzard.
Por que Diablo IV surpreende no Switch 2?
Trazendo um breve contexto, ao testar Diablo IV durante seu pré-lançamento em 2023, ao menos naquele momento, tive a falsa impressão de que seria perfeitamente possível um port para o Switch original, bastando algumas restrições gráficas. Isso porque eu estava rodando o jogo com configurações altas e 60 FPS estáveis em um notebook gamer intermediário e com hardware de 2019 (i7 de 9ª geração + GeForce GTX 1660 TI), e, para o que a Blizzard havia apresentado até então, nada ali justifica não haver um port travado a 30 FPS no console da Nintendo.
O problema é que aquilo representava apenas um recorte extremamente limitado e em um “ambiente controlado”, que ignorava conteúdos que eu só viria a explorar após o lançamento, como as Marés Infernais, com centenas de inimigos simultâneos na tela. Após jogar essas atividades, fica nítido que elas se aproximam quase de jogos de sobrevivência e bullet hell, como Vampire Survivors, do que de ARPGs tradicionais, sendo esse o maior desafio para o chip Tegra X1 do Switch 1.
Até certo ponto, este mesmo padrão de conteúdo já estava sendo explorado em concorrentes como Path of Exile, e a eventual incorporação e aprofundamento no jogo de 2023 eram tão esperados quanto inevitáveis. Tanto por isso, eu estava bastante cético quanto ao desempenho do game no NSW2, já que, mesmo com o hardware melhorado, sofre, justamente, em Vampire Survivors e seus gráficos 16-bit, simplesmente por não conseguir computar todos os elementos em algumas partidas mais longas e só desiste e fecha.
Fluidez e portabilidade compensam concessões gráficas
Considerando a distância dos elementos em tela e resolução das texturas, Diablo IV nunca foi exatamente um desafio para GPUs quando desconsideramos efeitos de Ray Tracing (que, aliás, não fazem muita falta). Já o mar de inimigos simultâneos, com ataques, projéteis, raios, fogo e luzes, este sim é um desafio para CPUs mais simples, e, na prática, o novo Tegra T239 do Switch 2 segue como um chip mobile, só mais bombado.
Por essa razão, chega a ser impressionante ver Diablo IV: Age of Hatred Collection rodando estável e com ótima fluidez no NSW2, mesmo durante Marés Infernais ou Hordas Infernais. As quedas de frame existem, mas são muito raras e, definitivamente, não afetam de forma alguma a experiência, nem no modo portátil, e tampouco quando conectado à TV.
A principal diferença fica nos elementos visuais e texturas, com bem menos efeitos e upscale via DLSS aparente no NSW2 em relação à versão do PS5 que utilizei como base de comparação. No entanto, ver o jogo rodando no modo portátil do Switch 2 e no PlayStation Portal ou mesmo via PS Remote Play em um tablet ou celular, até essas concessões passam despercebidas, ficando nítidas apenas jogando em uma tela grande.
Vale mencionar que até existe um modo com gráficos aprimorados que, de fato, entrega efeitos visuais e de iluminação levemente melhores, mas ativá-lo mira em taxas de quadro a 30 FPS, mas não garante estabilidade. Sendo assim, não faz muito sentido, já que a perda de fluidez é notável quando comparada ao incremento gráfico mínimo, não justificando seu uso.
Diablo IV é (quase) perfeito para sistemas portáteis, mas modo offline faz falta
Para quem, assim como eu, também ficou mal acostumado à praticidade de jogar tudo em modo portátil, essa é tranquilamente a maior vantagem do port para o Switch 2. Apesar de ter algumas lutas desafiadoras, o conteúdo endgame de Diablo IV é quase todo desenhado para atividades curtas. Isso permite partidas rápidas de 10 a 30 minutos cada e, mesmo em sessões longas, ainda estamos falando de masmorras ou lutas contra chefes em sequência, sem conteúdos que isolados duram horas, como raids em MMOs. Isso faz de Diablo IV o jogo ideal para passar o tempo na sala de espera do médico ou na pausa para o café, e ele encontrou no Switch 2 o match perfeito.
Para contexto, para ter a experiência portátil via PS Remote Play ou PS Portal, por exemplo, é preciso, obrigatoriamente, que o PS5 esteja conectado a uma rede cabeada com upstream de pelo menos 100 Mbps, e o Portal ou celular em um Wi-Fi estável e de qualidade. Isso sem mencionar que a experiência ainda está sujeita a lag, imagens borradas ou perda total de conexão se houver instabilidade em qualquer uma das pontas. Essa dependência de múltiplos fatores torna a experiência injogável se qualquer uma deles falhar.
Já jogar Diablo IV em trânsito no Switch 2 exige apenas um hotspot 5G ou um Wi-Fi público minimamente confiável (apenas por questões de segurança), só para ter acesso à internet, e a jogabilidade é excelente, mesmo em conexões relativamente lentas. Testei o jogo na academia, por exemplo, e sessões de meia hora via 5G na esteira consomem menos de 10 MB do plano de dados (menos que passar o mesmo tempo em redes sociais), valor perfeitamente aceitável para jogar durante o horário do almoço do trabalho, sem gastar o Wi-Fi da firma para evitar e-mails da equipe de TI.
Como nem tudo são flores, o ponto mais forte do jogo no Switch 2 também é sua maior crítica, quando lembramos que Diablo III: Eternal Collection dispõe de um modo 100% offline, bastando uma conexão inicial para autenticação nos servidores da Blizzard e acesso aos personagens. Uma vez que a sessão estiver criada, é possível até ativar o modo avião do Switch e seguir jogando tranquilamente, e todo o conteúdo fica salvo localmente, sendo sincronizado quando o console for reconectado à internet, e Diablo IV: Age Of Hatred Collection não traz essa opção.
Dessa forma, é preciso estar conectado 100% do tempo, lembrando que não se trata de uma limitação do Switch 2, mas imposta pela própria Blizzard no jogo desde seu lançamento. Até se criou a expectativa de que o novo modo Solo fosse um aceno para um possível modo offline, ideal para o Switch 2, mas, ao menos até o momento, o jogo segue sendo totalmente online, enfraquecendo um pouco o quesito portabilidade, maior destaque da nova versão.
Temporada 15 é viagem nostálgica por 30 anos de Santuário
Passando para o conteúdo da nova temporada, Legado Infernal é um grande gesto de amor da Blizzard para com a comunidade de fãs ao homenagear os 30 anos da franquia. Continuando o plot iniciado em “O Despertar da Morte”, as fendas seguem se abrindo, com ecos do passado retornando ao plano dos vivos, a começar pelo querido Deckard Cain, acompanhado dos próprios três males primordiais, Baal, Mephisto (antes de ser banido, retornar com Lilith e ser eliminado novamente) e Baal.
Esses portais com ecos dimensionais se abrem ao redor de todo o Santuário, dando acesso a versões refeitas de áreas e missões mais de todos os jogos anteriores. Quem teve experiência com todos os jogos, com certeza irá reconhecer missões como a Câmara dos Cegos (Halls of the Blind — Diablo), Covil do Mal (Diablo II), a Fazenda de Lester (Diablo: Hellfire) e O Expurgo de Caldeum (Diablo III).
Entre as áreas recriadas dos jogos anteriores, o destaque fica para as lutas contra os males primordiais: Diablo do primeiro jogo, Mephisto de Diablo II e Baal de Diablo II: Lord of Destruction. Inclusive as masmorras dessas lutas incluem trechos das missões originais reorganizados em sub-salas e andares, como a luta contra os Anciões no Pico de Arreat antes de enfrentar uma versão bastante fiel do final do Ato 5 de Diablo II: Lord of Destruction.
A própria luta contra Diablo original envolve uma quest para encontrar Aidan, Moreina e Jazreth, os três heróis do primeiro jogo, antes do embate final. Mais que uma homenagem, essas recriações apresentam eventos canônicos de 30 anos de histórias sobre o universo de Santuário, contando o que aconteceu com muitos desses personagens, seja para apresentá-los a quem está tendo o primeiro contato agora, seja para aquecer a alma dos veteranos.
Até as notas em áudio parecem ser retiradas diretamente dos arquivos originais, ou pelo menos foram fielmente recriadas nos detalhes, inclusive com narradores originais em sua maioria. Falando em áudio, um dos mapas secretos liberados em missões de mundo é a Tristram antiga do primeiro jogo, com direito à marcante trilha original, todos os NPCs e algumas missões de Diablo I.
Além dos conteúdos sérios, a galhofa, que muitos amam odiar, também retornou, com direito a um Cow Level escondido (e com uma missão secreta bem longa para liberar o primeiro acesso, que confesso não ter conseguido completar), e o mundo de Whimsyshire, dos “pôneis malditos”.
Como o legado molda novo Endgame
Como de costume, a atualização também entrega uma série de balanceamentos de classes, mudanças no sistema de itemização e um nerf significativo no drop de itens míticos em dificuldades abaixo do Suplício XII. Por um lado, isso torna a progressão de conteúdo mais desafiadora e engajante que na temporada anterior, em que tudo foi relativamente fácil. Em compensação, pela mesma razão, quem busca completar as conquistas de temporada vai perceber que recorrer a pelo menos um ou dois guias de builds passa a ser crucial para as principais lutas para farmar os itens mais raros.
Em termos de tipos de atividades, quase nada mudou entre as temporadas 14 e 15. Não tivemos adição de novos modos ou missões diferenciadas nos Planos de Guerra, salvo pelas lutas contra chefes antigos. O que muda, essencialmente, é que as novas masmorras que recriam lutas clássicas passam a ser necessárias para destravar os níveis de missões de temporada, especialmente nas lutas com Diablo, Mephisto (Diablo II) e Baal (LoD), que vão além de ferramentas narrativas para comporem o meta do novo engame.
A partir do nível de dificuldade Suplício X, essas masmorras ficam travadas na dificuldade Suplício XII (sim, acima da dificuldade de mundo), e com um incremento de +30 níveis a todos os inimigos. Isso faz delas os principais desafios da temporada, ao lado da missão secreta para enfrentar as versões Über dos males primordiais, que, assim como em Diablo II, é a única forma de conseguir o item Tocha Infernal (Hellfire Torch). O famigerado “Baal Run” que dominava os lobbies de Diablo II: LoD, retomou seu posto de melhor farm de itens míticos, sendo quase uma viagem no tempo.
Considerando que o chefe final da temporada 14 era ridiculamente fácil, a mudança foi muito bem-vinda, entregando um desafio mais satisfatório e que, finalmente, motiva os jogadores a procurarem grupos para farm. No mais, a única mudança mais notável de gameplay é que os ecos de Diablo, Mephisto e Baal podem aparecer aleatoriamente ao atingir o nível máximo de ameaça nas Marés Infernais.
Mais míticos e menos míticos
O retorno de itens únicos icônicos, como a Coroa de Leoric e Pedra de Jordan, veio acompanhado de receitas secretas no Cubo Horádrico, permitindo conseguir equipamentos como a armadura Enigma, que transforma a esquiva no teleport da feiticeira, entre outros. Além disso, a receita de melhorar itens únicos foi aperfeiçoada, sendo possível atingir o upgrade perfeito.
Após “tunar” seu item único com afixos superiores, o upgrade do cubo irá maximizá-los com a transformação em mítico, e não mais criar um mítico aleatório, como ocorria na temporada anterior. Para equilibrar a situação, armas, joias e armaduras geradas com essa fórmula ficam marcadas como “criado”, e apenas um item desse tipo pode ser equipado por vez. A restrição garante que os jogadores seguirão jogando para obter os demais míticos da build exclusivamente farmando os chefes finais, já que permitir upgrades ilimitados faria com que muitos perdessem o interesse após criar a build perfeita.
Passe de temporada e skins clássicas
A cereja do bolo, mas que não chega a ser uma obrigatoriedade, é o conteúdo do novo passe de temporada, que traz as skins dos heróis de Diablo II e Diablo III. A Feiticeira, por exemplo, replica a maga de Diablo II, enquanto o Natispírito e a Renegada replicam o Monge e a Caçadora de Demônios de Diablo III, e o modelo premium liberado ao completar todos os relicários é a armadura de Tyreal em sua versão angelical.
Definitivamente, o conteúdo dessa temporada é o melhor desde o lançamento de Lord of Hatred, em 2024, justificando o desbloqueio do passe para os saudosistas, mas não fará falta para quem prefere não gastar dinheiro com itens cosméticos.
Vale a pena?
Assim como ocorre com a maioria dos jogos AAA da geração passada chegando ao ecossistema da Nintendo com o Switch 2, a verdade é que depende muito do tipo de experiência que cada um espera. Para quem já possui o game no PS5 ou PC, a versão para Switch 2 só faz sentido para quem não se importa em abrir mão de alguns efeitos visuais e busca a liberdade de jogar de qualquer lugar com uma rede Wi-Fi ou hotspot 5G.
Nesse quesito, a experiência só fica atrás daquela possível com o Steam Deck ou outros mini-PCs mais caros, como o ROG Ally e Legion GO. Dessa forma, a versão para Switch 2 leva a melhor simplesmente por ser uma plataforma mais fácil e comparativamente mais barata (🫠) de se encontrar. Já para quem ainda não jogou Diablo IV e tem um NSW2, o preço único de R$ 299 por todo o conteúdo lançado, por si só, já justifica a escolha, por ser preciso estar procurando ativamente pelos comprometimentos gráficos para realmente notá-los, algo quase impossível no meio da ação frenética.
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