Dice A Million é um jogo que distribui gratificações e frustrações - Review
Mais um roguelike a chegar ao mercado, o game traz em seu título uma dica do que precisa ser feito, ou pelo menos almejado, mas não é simples chegar até o fim
O roguelike é caracterizado, entre outras coisas, pela geração procedural de fases e pela morte permanente. A sua progressão é marcada pelo proveito da familiaridade. Dice A Million não foge disso. Desenvolvido por Countlessnight e distribuído pela 2 Left Thumbs, o seu lançamento no início deste ano chamou a atenção daqueles mais aficionados no tipo deck builder.
Nele vemos o já tradicional ciclo de gameplay de um roguelike. Partidas rápidas e foco na pontuação. O objetivo é continuar enquanto tenta manter a sorte ao seu lado. A temática de dados não é uma novidade neste meio. Mas ao invés de ser premiado, ou evitar a sua morte, você faz isso para pagar faturas.
O seu visual carismático e ritmo alucinante são um deleite para aqueles com espírito competitivo. A sua dificuldade é similar aos jogos arcade, como é de costume ao gênero. Esse é o seu ponto forte, mas também o seu vício. Confira a análise realizada no PC com uma chave cedida pela própria 2 Left Thumbs.
Ficha Técnica
Jogo: Dice A Million
Desenvolvedor: countlessnight
Distribuidora: 2 Left Thumbs
Lançamento: 25/02/2026
Onde jogar: Steam, Xbox PC Game Pass e itchio
Plataforma de teste: PC (Xbox PC Game Pass)
Preço: A partir de R$19,95 (incluso no Xbox Game Pass)
Como arrumar e desarrumar a sua coleção
Sem saber onde, como ou o porquê, estamos presos a um ciclo sem fim para evitar a inadimplência. Uma voz que vem do telefone nos diz que é preciso se arriscar nos dados para obter a liberdade. Quem sabe se não descobrimos algo se vencermos o jogo? Assim começa Dice A Million.
Como esperado, enfrentamos uma sequência de turnos em que devemos alcançar uma pontuação. Cinco desafios e então um chefe. Se sobrevivermos, passaremos para o próximo nível e a mesma sequência se repete, com valores mais altos.
Depois de cada partida, o jogador tem o direito de escolher um item entre três opções e então acessar a loja. As melhorias não são permanentes, se você perder, recomeça sem nada. Há uma grande variedade de itens para ser desbloqueado. Isso inclui as opções de Mãos.
A quantidade de dados a serem lançados e o número de rolagens depende de qual você escolheu. Elas também determinam o número de anéis que você pode usar. A cada rolagem, escolhemos quais dados vamos utilizar, mas nem todos os que você possui estão disponíveis de uma vez.
Há dados com 2, com 6, com 11, com 20 ou mais lados. Alguns possuem alguma habilidade, como o de multiplicar o resultado final ou de se dividir em pequenos pedaços. Enquanto outros têm desvantagens, como o de ser destruído caso caia em seu maior lado. Há também aqueles que são encantados ou amaldiçoados.
Os anéis costumam dar uma mãozinha para eles. Já os selos multiplicam o seu valor de acordo com o lado que saiu. Se você tem um selo para 2 e outro para 6, os dados que saírem com esses lados, entram nesta conta.
Já as cartas causam algum efeito imediato na partida, como trocar os dados daquela rolagem, escolher qual a face do dado que vai sair ou duplicar a habilidade dos seus anéis. Você não é capaz de prever o que vai receber, mas o que aparece entre as opções, costuma a combinar com o que você já escolheu.
Há muito de tentativa e erro envolvida nesse jogo. Você deve descobrir que dados combinar com a sua mão. Qualquer alteração afeta o seu jogo. O ganho de experiência vem daí. Uma hora você percebe essa dinâmica de cultivar um ecossistema - o que o desenvolvedor chama de sinergia.
Faz sentido colocar um dado que atrai os demais para perto, quando há junto algum que possui efeito de área. Mas quando você tira os dados comuns da sua bolsa para aumentar a chance dos incomuns aparecerem nas batalhas, você diminui a sua chance de ganhar no Role os Dados.
Já muitos dados na sua sacola, diminuem as chances dos seus dados favoritos reaparecerem em futuras rolagens. Se a sua mão só conseguir lançar 3 dados por vez, é melhor investir nos anéis do que neles. Mas se você se arrepender do que juntou, não há tempo hábil, nem dinheiro disponível para mudar tudo por completo.
Tudo tem as suas vantagens e desvantagens. Alguns itens vão ajudar mais a longo prazo do que nas fases iniciais. Fica mais difícil adquirir as cartas e os selos. O valor deles na loja vão ficando mais caros a cada level. É importante conseguir mais do que só os pontos o suficiente para passar. Você deve acumular o máximo possível para assim adquirir recursos.
Ainda é preciso ter cuidado com os chefes. Eles podem transformar aquilo que é o seu maior potencial, em seu ponto fraco. É importante pensar em como lidar com eles desde o início, por isso temos livre acesso a sua descrição.
São tantas variáveis que às vezes é até difícil de prever o resultado. É um pouco mágico olhar como os valores se multiplicam e somam. Mas é desconcertante quando erramos e eles subtraem e dividem os nossos pontos. Tudo em nossas jogadas é automatizado.
Um visual POP!
Toda a sua estética é charmosa. O estilo cartunesco com um contorno externo de linha mais grossa lembra um desenho feito no paint. Boa parte é um desenho flat, com um leve sombreado, mas há alguns poucos detalhes que possuem perspectiva, como o botão para rolar.
Gosto da organização e da simplicidade do layout das partidas. Na parte central, temos uma “bandeja” para os dados. Todo o resto está distribuído em torno dela: os seus itens, o desafio daquela rodada e a sua pontuação atual. Temos uma combinação entre uma visão frontal e uma lateral. Dessa forma, tudo fica muito intuitivo.
Também dá para ver muita criatividade nos dados. Eles variam entre coisas com alguma referência no mundo real e itens que parecem típicos de um vídeo game. São formas geométricas simples. Uns são pontudos, outros curvilíneos.
A música eletrônica em loop parece acompanhar o gameplay. São três faixas diferentes, mas que de tão similares parecem ser a mesma música “desacelerando” a cada nível. Elas ainda tornam-se mais “abafadas” quando estamos na loja. Em nenhum momento fica enjoativo.
Os efeitos sonoros também estão em sintonia. Às vezes é tudo tão rápido que são eles que te ajudam a entender melhor se você ganhou ou perdeu pontos. Os números astronomicamente grandes também são alguns dos elementos pulsam na tela.
Ver os seus dados se espremendo para não sair da tela, ou até mesmo escapando das bordas, é prazeroso. As cores vibrantes e saturadas ganham ainda mais destaque quando presenciamos o efeito de área de vários dados simultaneamente.
Ainda pode acontecer aquela desaceleração de quando há muita informação em tela. Faz você imaginar a proporção do valor que você conseguiu alcançar, mesmo que isso porventura seja mais uma questão técnica do que estética, ou seja, algo relacionado com a capacidade do jogo.
E tudo brinca com o hábito de colecionar coisas. Vemos bolinhas de gude, tampinhas de garrafa, cartas, selos, anéis, moedas, entre outros adereços. Nós ainda buscamos e organizamos esses nossos itens e ocasionalmente podemos trocá-los com um outro personagem - que é tão misterioso quanto o que controlamos.
Todas as suas vitórias e derrotas se tornam estatísticas organizadas em um catálogo de informações. Por isso é curioso pensar na forma que ele expõe os números na bandeja. Pensar em números também é pensar em uma coleção, no caso, de unidades.
De novo, de novo e de novo…
Devo admitir que acompanhei o crescimento recente dos roguelikes de maneira bastante despretensiosa. Não sou uma pessoa eficiente na hora de desenvolver estratégias de longo prazo. Mas o que me seduz nesse tipo de jogo é a sensação de controle. E o que me afasta, é essa inerente repetição exaustiva.
Como de costume, o começo é uma lua de mel. Dados, anéis, selos, cartas, chefes e até algumas mãos são desbloqueados rapidamente. Você ainda nem sabe o que precisou cumprir para obter tudo aquilo. E vai testando cada coisa mais pela curiosidade do que por conta de alguma estratégia. A sensação é de avanço rápido. Você está aprendendo e melhorando.
Essa velocidade te empolga. Por conta da adrenalina, é moroso re-jogar os primeiros níveis. Eles são onde você menos pode arriscar, pois é muito fácil perder. Por isso as jogadas são sempre as mesmas. A falta de sorte acaba sendo um freio, mas ainda não é de todo mal. Logo a sua habilidade alcança um platô. Encontrar mais a tela de game over do que você gostaria faz parte da proposta.
O problema de fato é tentar ganhar. Você passa por uma sucessão de derrotas e não é capaz de recusar mais uma tentativa. Se não naquela rodada, na próxima você ganha. Mas decisões ruins matam as suas chances. É desesperador tentar se recompor. A sensação é similar a de um apostador contumaz.
É um paralelo inexato, mas adequado. O próprio desenvolvedor comentou ter se inspirado em casas de jogos de azar. Obviamente, o jogo é bem mais seguro do que um cassino ou uma máquina de caça-níquel. No máximo, o que vou gastar é o meu tempo, e ainda assim, isso não chega nem perto do dano que jogos como Looney Tunes: Mundo Insano causavam aos seus jogadores. Esse não é o meu ponto.
Não me entenda mal, os loops acontecem porque você perdeu, não é algo injusto. Mas as vezes eu me sentia mais na torcida do que em campo. A sua habilidade em organizar, selecionar e combinar bem os seus itens não sobrevive a sua má sorte. Mesmo que eu consiga fazer uma pontuação de 600k nas partidas daquela fase, pode acontecer de os dados que preciso não chegarem quando enfrento um chefe.
Isso é uma das consequências da minha falta de organização, afinal a quantidade de dados na bolsa também é uma decisão minha. Mas uma parte disso também é consequência de todo esse entrelaçamento entre os itens. Logo se percebe a armadilha que isso cria. Essa sensação de falta de agência entre as minhas escolhas e o rolar dos dados impacta negativamente quando o resultado é péssimo.
Isso faz parte da proposta de dificuldade e admiro essa falta de previsibilidade. Ela permite um pouco de abertura ao acaso, mas ainda impede um comportamento mais ousado. Isso te obriga a só focar na multiplicação. Os jogadores escolhem e rejeitam mais ou menos os mesmos dados. Queria uma mediação maior entre a prática cega e a prática disciplinada.
Por fim, há mais um quesito que me incomoda nesse “eterno retorno”. Talvez o jogador de fato nunca chegue a conhecer tudo, ou se quer queira fazer isso. Pois até para vencer… é preciso vencer de novo e de novo e de novo. O jogo é projetado para não ter um fim imediato. Ele está entregando algo novo a cada vitória, mas isso cria uma redundância que é difícil de justificar. Por outro lado, os Desafios se mostraram uma forma bem mais interessante de idealizar esse replay.
Dice A Million vale a pena?
Sim, mas depende muito do seu desejo em querer ser um milionário. Dice A Million não se escora em uma mecânica complecionista, a diversão dele é tentar descobrir formas de pontuar cada vez mais. É muito interessante descobrir o funcionamento de cada item e de ter que se adaptar a eles. E novas dinâmicas vão sendo adicionadas as sessões, quanto mais você avança em suas conquistas.
O jogo combina muito bem velocidade, repetição e sorte. Mas raramente comporta o erro. Não importa o quão bem você esteja se saindo, o próximo pagamento pode te derrubar. As vitórias são gloriosas e as derrotas amargas. É um jogo viciante enquanto você aguentar isso.
Por isso, recomendo tanto para quem ficou na dúvida, quanto para quem já curte esse tipo de experiência, dar uma chance. Uma das opções de idioma é o português brasileiro, um trabalho realizado pela LusoBit Studio. O texto muito bem humorado ganha o nosso “molho” e ajuda bastante a entender o que você irá enfrentar. Há uma demo disponível na Steam, caso o leitor se interesse.
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