Epic Games demite mil pessoas e Sony fecha estúdio em dia apocalíptico nos games
Nem mesmo Fortnite, o rei dos jogos como serviço, está livre das altas expectativas do mercado de games
Se alguém ainda tinha dúvida de que a indústria de games está passando por um momento turbulento, o dia 24 de março de 2026 tratou de deixar tudo bem claro. Em um intervalo de poucas horas, duas gigantes do setor protagonizaram um verdadeiro efeito dominó de más notícias: a Epic Games anunciou a demissão de mais de mil funcionários, enquanto a Sony decidiu encerrar mais um estúdio recém-criado dentro da PlayStation Studios.
O cenário, que já vinha dando sinais de desgaste desde 2023, agora ganha contornos mais dramáticos. Entre cortes, cancelamentos e mudanças estratégicas, fica cada vez mais evidente que o modelo atual está enfrentando um teste de resistência daqueles. E, curiosamente (ou preocupantemente), até quem parecia intocável começa a balançar.
Epic Games demite mais de mil e acende alerta com Fortnite
A Epic Games confirmou uma nova rodada de demissões que afeta mais de mil colaboradores em diferentes áreas da empresa, incluindo aqui no Brasil. A decisão foi comunicada pelo CEO Tim Sweeney, que apontou um fator central para o problema: a queda de engajamento de Fortnite ao longo de 2025.
Sim, estamos falando de Fortnite, um dos maiores fenômenos da história dos games. Mesmo ainda sendo extremamente popular, o battle royale já não sustenta o mesmo nível de retenção de jogadores de antes. E quando o rei começa a tropeçar, o resto do castelo sente o impacto.
Segundo a empresa, o desequilíbrio entre receitas e custos levou à necessidade de cortes agressivos. Entre as medidas adotadas estão:
Redução de equipes em múltiplos setores
Corte de contratos e investimentos em marketing
Congelamento de vagas abertas
Expectativa de economia superior a US$ 500 milhões
Além disso, a Epic confirmou mudanças diretas dentro de Fortnite, incluindo o encerramento de alguns modos que não atingiram o sucesso esperado.
Ballistic — encerrado em abril de 2026
Festival Battle Stage — encerrado em abril de 2026
Rocket Racing — previsto para sair em outubro de 2026
A própria empresa admitiu que nem todas as apostas dentro do ecossistema do jogo conseguiram manter uma base sólida de jogadores. Em bom português: nem tudo que nasce dentro de Fortnite vira hit.
O impacto no Brasil: Aquiris e Horizon Chase sentem o golpe
Os efeitos dessa reestruturação não ficaram restritos aos escritórios internacionais. No Brasil, a situação também teve consequências diretas, especialmente envolvendo o estúdio Aquiris, adquirido pela Epic nos últimos anos.
A desenvolvedora anunciou que os jogos Horizon Chase e Horizon Chase Turbo deixarão de ser disponibilizados para download a partir de 1º de junho. O movimento indica uma mudança clara de foco para projetos mais recentes — no caso, Horizon Chase 2.
Além disso, há relatos de que a Aquiris, hoje chamada de Epic Brasil, também foi impactada por demissões, com diversos devs comentando sobre o layoff no Bluesky e LinkedIn. Ainda assim, o cenário reforça uma tendência preocupante: nem mesmo estúdios consolidados e com identidade própria estão imunes às mudanças do mercado.
Para quem acompanha o desenvolvimento nacional, o sentimento é de déjà vu. Mais uma vez, talentos locais acabam sendo atingidos por decisões globais.
Sony fecha estúdio Dark Outlaw e continua cortes internos
Do lado da Sony, o dia também foi de decisões difíceis. A empresa confirmou o fechamento da Dark Outlaw Games, estúdio fundado em 2025 por Jason Blundell, conhecido por seu trabalho na franquia Call of Duty, especialmente no modo Zombies.
O estúdio ainda estava nos estágios iniciais de desenvolvimento de um novo projeto AAA original, que sequer chegou a ser revelado ao público. Com o encerramento, cerca de 50 funcionários foram afetados, incluindo profissionais ligados à divisão mobile da PlayStation.
Esse não é um caso isolado. A Sony já havia encerrado recentemente outro estúdio, a Bluepoint Games, conhecida por seus remakes de alta qualidade. O movimento indica uma reavaliação estratégica dentro da empresa.
Em comunicado interno, Hermen Hulst, chefe dos PlayStation Studios, destacou os principais desafios enfrentados atualmente:
Aumento significativo nos custos de desenvolvimento
Crescimento mais lento da indústria
Mudanças no comportamento dos jogadores
Pressões econômicas globais
A mensagem é clara: fazer jogos está mais caro, mais arriscado e menos previsível. E essa premissa está gerando tantos impactos que, só em 2026, a Sony já fechou um estúdio talentoso e outro que nem teve a chance de provar seu trabalho ao público.
A crise dos jogos como serviço é real (e preocupante)
Se existe um ponto em comum entre as decisões da Epic e da Sony, ele atende pelo nome de “modelo de negócios”. Mais especificamente, o modelo de jogos como serviço.
Durante anos, a indústria apostou pesado em experiências contínuas, atualizações constantes e monetização recorrente. A ideia parecia perfeita: manter jogadores engajados por anos e garantir receita previsível. Porém, entretanto, todavia… Na prática, a conta não está fechando tão fácil assim.
O próprio Fortnite, que praticamente definiu esse modelo moderno, agora enfrenta dificuldades para manter o mesmo nível de atenção do público. E isso levanta uma questão importante: se até o maior exemplo desse formato está sofrendo, o que esperar dos outros?
Neste mês, vimos o jogo Highguard, revelado no Game Awards, ser morto menos de três meses após o seu anúncio. No entanto, apesar de ter virado mártir, o título é só mais um na loja lista de games como serviço que foram de base nos últimos meses — Hawked, King of Meat, Dungeon Stalkers são apenas alguns dos exemplos.
Além disso, a concorrência por tempo do jogador nunca foi tão intensa. Games disputam espaço não só entre si, mas com redes sociais, streaming e outras formas de entretenimento digital. E com tanta oferta de conteúdo, está cada vez mais difícil para os próprios gamers manterem mais de um jogo online na rotina.
Um novo momento para a indústria de games
O que estamos vendo não é apenas uma sequência de más notícias isoladas. Trata-se de um ajuste estrutural em toda a indústria de games, que parece estar recalculando rota após anos de crescimento acelerado causado por decisões questionáveis de executivos.
Após a Microsoft começar a sua onda de aquisições de estúdios na E3 2018, parece que quase todo dia víamos alguma gigante dos games fazendo alguma compra ou garantindo investimentos. Com o boost trazido pelo isolamento social da pandemia, o cenário ficou ainda mais insano.
Quem está pagando a conta, infelizmente, é o chão de fábrica, com centenas de devs perdendo emprego.
Agora, porém, todas essas apostas vindas de executivos que buscam dinheiro infinito começaram a ser cobradas. E essa galera está aprendendo, da pior maneira possível, que não basta fazer um código de GTA pra ganhar milhões instantaneamente.
Empresas estão mais cautelosas, investimentos estão sendo revistos e projetos estão sendo cancelados antes mesmo de serem anunciados. A era do “crescer a qualquer custo” parece ter ficado para trás, e quem está pagando a conta, infelizmente, é o chão de fábrica, com centenas de devs perdendo emprego.
Enquanto vivenciar isso em primeira mão é triste, ao mesmo tempo, isso pode abrir espaço para modelos mais sustentáveis e criativos no futuro. Jogos menores, escopos mais controlados e experiências mais focadas podem voltar a ganhar protagonismo.
Em dias como esse, a gente lembra que games são, acima de tudo, um produto do capitalismo. No entanto, assim como em outras crises no mercado, sempre existe espaço para a criatividade garantir espaço e manter os games vivos após mais uma apocalipse.





