Uma das séries mais antigas e consagradas da história da Nintendo, Fire Emblem chega próxima de completar 40 anos de existência a Fortune’s Weaving, título que marca sua estreia no Switch 2. Ao mesmo tempo que mantém a base de gameplay sólida de títulos anteriores, o capítulo chama a atenção por suas pretensões narrativas bastante ambiciosas.
Evoluindo o sistema de histórias múltiplas que introduziu em Fates, de 2015, a Intelligent Systems apresenta não somente um, mas cinco protagonistas da mesma história. Enquanto é possível acompanhar somente a trajetória de um deles (tecnicamente dois, se formos ser mais precisos), o quadro completo do que está acontecendo só é conhecido quando investigamos todas elas.
Felizmente, isso não significa que Fortune’s Weave se torna um jogo repetitivo ou que excede sua duração (embora ela seja longa). Graças a pontos de vista bastante únicos e a decisões mecânicas interessantes, esse é o tipo de jogo que recompensa bem quem presta atenção a todos os seus detalhes.
Ficha técnica
Jogo: Fire Emblem: Fortune’s Weave
Desenvolvedora: Intelligent Systems
Lançamento: 17 de setembro de 2025
Plataforma: Nintendo Switch 2
Plataforma de teste: Nintendo Switch 2
Preço: a partir de R$ 389,90 (eShop)
A análise foi realizada com uma chave do game cedida pela Nintendo Brasil.
Depois do fim do mundo
A trama de Fire Emblem: Fortune`s Weave acontece em um momento no qual o mundo efetivamente acabou. Apesar da resistência de alguns guerreiros poderosos, as forças do submundo dominaram a quase tudo e é mera questão de tempo até que elas reinem supremas.
Nesse contexto, uma figura misteriosa criada em laboratório tem como missão usar os poderes de uma deusa e voltar no tempo. Seu objetivo é testemunhar novamente os eventos dos Heroic Games para garantir uma mudança no destino trágico de quatro grandes figuras que participam deles — às quais enfrentamos na forma de mortos-vivos durante o prólogo.
E são justamente elas que se mostram as protagonistas da história, que segue caminhos muito diferentes dependendo da escolha que fizemos. Como o Heroic Games é uma competição sangrenta no melhor estilo daquelas organizadas pelo Coliseu Romano, que promete a seu vencedor qualquer pedido que seja feito, ela atrai figuras muito distintas.
Cai, por exemplo, é um jovem sonhador, otimista e estranhamente superpoderoso (ou seja, um protagonista de RPG tradicional) que tem como objetivo soltar o pai condenado à morte. Já Theodora é a Rainha de Saramis, que busca uma cura para o braço amaldiçoado que a colocou no trono — mas também está acabando rapidamente com sua vida.
Justamente pelos protagonistas serem figuras tão diferentes entre si é possível dizer que Fire Emblem: Fortune`s Weave traz “quatro histórias em uma”, especialmente em seu Ato 1. No segundo, o foco maior passa a ser em uma figura específica do elenco, enquanto no Ato 3 todas as histórias que você explorou anteriormente resultam em uma grande narrativa final.
Vale notar que o jogo em nenhum momento exige que você jogue as narrativas em uma ordem específica, ou sequer pede que você termine qualquer uma delas. Caso você deseje, pode ignorar as histórias dos guerreiros e partir para a luta final logo após o prologo — você certamente vai tomar muitos game overs ao fazer isso, mas essa não deixa de ser uma opção tecnicamente viável
Também é possível reiniciar qualquer capítulo da história para ganhar mais tempo para ganhar recursos, evoluir os níveis de personagens ou as relações entre eles. No entanto, não me senti obrigado a fazer isso em nenhum momento. O recurso parece existir especificamente para quem deseja “otimizar o jogo” e fazer tudo o que ele tem a oferecer.
Fire Emblem: Fortune’s Weave é tanto sobre lutar quanto fazer amizades
Bastante centrado nos eventos dos Heroic Games, Fire Emblem: Fortune’s Weave é um jogo tanto sobre lutar quanto cultivar amizades e conquistar aliados. Para aumentar a quantidade de pessoas em seu exército pessoal, os protagonistas precisam cultivar suas reputações realizando diversas missões, como matar bandidos, encontrar determinados itens ou explorar labirintos.
No entanto, isso não é suficiente para convencer outras pessoas que vale a pena apoiar sua causa. Além de encontrar vários mercenários espalhados pela cidade principal do jogo, você vai ter que conversar com ele e desenvolver laços pessoais — seja através de presentes ou refeições compartilhadas —, para somente depois disso conseguir fazer um convite.
Nesse sentido o jogo revela seu lado mais repetitivo e um tanto chato, dado que as relações com os personagens se desenvolvem de forma um tanto lenta e repetitiva. Essa parece ser uma daquelas ideias que é interessante no papel, mas cuja execução se mostra bastante frustrante, especialmente quando ainda estamos em busca de formar um exército com tamanho básico.
Para agilizar um pouco o processo, o sistema de reiniciar os capítulos de Fire Emblem: Fortune’s Weave permite repetir facilmente várias tarefas automatizadas que aumentam os níveis de amizade. No entanto, fazer isso parece ir contra o propósito do título e somente adiciona algumas horas de “grind” que quebram totalmente o ritmo do jogo.
Um jogo que recompensa e otimiza seu tempo
A boa notícia é que, ao encarar rotas de outros personagens, não é preciso voltar do ponto zero com as relações de amizade — ou seja, recrutar companheiros se torna bem mais rápido. De forma semelhante, muita das tarefas secundárias (e suas recompensas) são compartilhadas entre os protagonistas, o que agiliza muito conferir todos os capítulos.
Isso colabora muito para fazer com que Fire Emblem: Fortune’s Weave, embora seja um título longo (que pode render facilmente mais de 100 horas de gameplay), não se torne cansativo. Em minha visão, as “piores horas” (que não são ruins) são justamente as primeiras, nas quais ainda estamos liberando sistemas de classes, de exploração e entendendo as bases do mundo criado pela Intelligent Systems.
Depois que isso acontece, o game engata um ritmo muito bom, que só é quebrado em momentos pontuais. Os principais deles acontecem durante os labirintos, cuja exploração assume um ponto de vista em terceira pessoa. Geralmente curtos, eles mudam o sistema de combate para torná-lo mais direto, mas menos inspirado.
O sistema Clash coloca seus personagens alinhados lado a lado, somando a vida de todos eles e tirando do jogo seu lado de posicionamento tático. Enquanto a escolha de quem ataca muda um pouco os resultados das lutas, fiquei com a impressão de que a solução é pouco inspirada e não contribui para melhorar a qualidade geral do game.
Também tenho algumas críticas a fazer ao sistema de exploração de Fire Emblem: Fortune’s Weave. Ele acontece em uma espécie de quadro de jogo de tabuleiro cujos nódulos vão se revelando conforme aceitamos missões, ouvimos rumores ou simplesmente chegamos aos limites conhecidos.
Esse processo é divertido, mas não é tão legal a restrição do jogo de só permitir programar movimentos limitados a um único dia do calendário. De forma semelhante, poderia haver uma opção automática para retornar à cidade principal, que concentra o resgate de suas principais recompensas — na versão atual, esse é sempre um processo manual e que exige selecionar cada pequeno trecho em direção ao objetivo final.
Vale a pena jogar Fire Emblem: Fortune’s Weave?
Não é à toa que, desde a geração do 3DS, Fire Emblem elevou seu patamar como uma das séries mais importantes da Nintendo. Fortune’s Weave mantém a tradição de jogos como Fates e Three Houses de entregar uma narrativa com múltiplos pontos de vista na qual realmente vale a pena investir.
E, ao contrário de outros jogos que apostam em estruturas semelhantes, o game leva em consideração o que os jogadores já fizeram e não os obriga a repetir tarefas consideradas repetitivas. Ele ainda poderia acelerar um pouco suas primeiras horas um tanto lentas e melhorar o sistema de labirintos e Clashes, mas o que a Intelligent Systems conseguiu entregar é um dos melhores trabalhos de sua história como estúdio.
Fire Emblem: Three Houses pode ser considerado facilmente como o primeiro grande RPG exclusivo do Nintendo Switch 2 e sem dúvida vale o valor de entrada um tanto salgado. Caso você tenha o console e já tenha experiência com a série ou com outros jogos táticos, são poucas as chances de sair decepcionado após desfrutar das generosas horas de conteúdo disponíveis.
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