Depois de anos acompanhando a guerra em Sera com saltos temporais, personagens novos e uma história cada vez maior, a The Coalition decidiu voltar ao ponto de partida de seu universo com Gears of War: E-Day. Quatorze anos antes do primeiro jogo, a campanha acompanha Marcus Fenix e Dominic Santiago durante o Dia da Emergência, popularmente chamado de “Dia E”, quando a Horda Locust surge das profundezas e transforma uma sociedade que acreditava estar finalmente próxima da paz em um campo de batalha.
Minha experiência com Gears of War começou de uma maneira bastante específica: jogando Gears 3 na casa de uma amiga que tinha um Xbox 360, quando nós duas tínhamos 14 anos e achávamos que a melhor maneira de aproveitar o jogo era passar horas no modo Horda, berrando na frente da televisão enquanto tentávamos sobreviver aos monstros. Depois disso, tive um contato breve com Gears 5: Hivebusters, que é praticamente um spin-off, mas nunca cheguei a me aprofundar na história da franquia. Com isso, por muito tempo, minha definição de Gears era basicamente “hominho de armadura atirando em alienígena”.
Pois é, eu estava errada.
Em E-Day, jogar a campanha do começo ao fim não apenas mudou a minha percepção sobre a franquia como também me fez procurar informações sobre os jogos anteriores para entender melhor personagens, acontecimentos e consequências daquele conflito. É justamente por isso que esta análise parte de um ponto importante: estou olhando para Gears of War: E-Day tanto pela experiência que tive com o jogo quanto pela visão bastante limitada que eu carregava sobre a série antes de começar.
Depois de zerar o jogo ao lado do meu maridão, o Mateus Mognon, na tela dividida do Xbox Series X, dá pra dizer duas coisas com tranquilidade: 1 - Gears of War: E-Day é uma baita porta de entrada para quem sempre teve preconceito com a franquia. 2 - Locusts não são aliens e escondem muita história atrás de suas caras feias.
Ficha técnica
Jogo: Gears of War: E-Day
Desenvolvedora: The Coalition
Distribuidora: Xbox Game Studios
Lançamento: 6 de outubro de 2026
Onde jogar: Xbox Series X/S e PC
Plataforma de teste: Xbox Series X
Preço: a partir de R$ 299
E-Day é uma volta às origens que faz sentido
A história de Gears of War já avançou bastante desde o primeiro jogo, com novas gerações, personagens, criaturas e consequências que foram aumentando cada vez mais o tamanho desse universo. Basta dar de cara com qualquer trailer de Gears 4 ou 5 pra ver como o Marcus ainda tá em forma, mas claramente já sente a lombar quando tá em casa.
Nesse cenário, voltar para o Dia da Emergência é uma escolha de gênio da galera da Coalition. Afinal, o evento funciona não apenas como uma oportunidade de revisitar Marcus e Dom no auge da forma, mas também como uma maneira de lembrar ao jogador por que essa guerra começou — e de forma bem literal. Toda a ação é contada cronologicamente, do início da invasão até a conclusão da história, alguns dias depois.
Uma das coisas que mais me chamou atenção foi perceber como a campanha consegue apresentar a cidade de Kalona antes e depois dos ataques da Horda, fazendo com que a destruição tenha um peso maior. O jogo começa mostrando uma sociedade que acabou de atravessar uma guerra de 80 anos e está celebrando seus soldados, apenas para transformar essa sensação de alívio em desespero quando os Locust surgem debaixo dos próprios pés.
Tudo isso é contado com uma cara de filme em uma história que durou cerca de 18 horas por aqui, com um gameplay em tela dividida. E não se engane com o formato “videogame”, pois a narrativa é bem engajante, mesmo com toda a ação que rola no meio dela.
A profundidade por trás da guerra (leves spoilers do mundo de Gears neste bloco)
Também existe uma ironia interessante nessa origem que eu não esperava encontrar em um jogo que, na minha cabeça, era simplesmente sobre correr, encontrar cobertura e atirar em monstros. A história de Gears of War: E-Day foca bastante na relação fraterna de soldados na guerra e traumas coletivos, o que já garante cenas bem emocionantes para quem tem zero relação com a franquia.
No entanto, o jogo também tem espaço para reflexões mais amplas quando você se aprofunda na história. E aqui vão leves spoilers do universo de Gears que acabei pegando na Wiki oficial da franquia.
Durante alguns lampejos e referências da campanha, e em toda a lore que temos nos jogos seguintes, fica evidente que os próprios humanos tiveram participação na criação das condições que levaram ao surgimento daquela ameaça. Muito antes do Dia E, a narrativa já contava com uma sociedade de metamorfos que foi explorada e acabou sendo afetada pela própria tecnologia humana em prol da guerra.
Esse detalhe importante da franquia não ganha tanto espaço no novo jogo, mas a decisão de não explorar tudo isso agora faz sentido. Não acho que Gears of War: E-Day queira transformar sua campanha em uma grande discussão filosófica sobre as finalidades da guerra, porque, convenhamos, ainda estamos falando de um jogo em que a solução para muitos problemas envolve serrar os inimigos.
Mesmo assim, essa relação entre causa e consequência acabou me fazendo olhar para a história com muito mais interesse do que eu imaginava, especialmente ao perceber que todo o esforço de décadas para vencer uma guerra anterior não impediu que outra começasse justamente por causa das escolhas feitas naquele processo.
Para quem olha de fora, Gears of War pode parecer uma mistura de Call of Duty e Halo em terceira pessoa. No entanto, existe muito mais escondido por trás das armaduras gigantescas utilizadas pelos soldados da CGO que lutam contra os Locust.
Esse sentimento, inclusive, foi ressaltado em uma entrevista pelo diretor do estúdio Matt Searcy, que ressaltou a humanidade existente nos quatro protagonistas do novo game, que é 100% cooperativo. “O que Gears realmente tem dentro dele, e que acho que surpreende as pessoas que nunca jogaram, é muito coração e alguns temas realmente sérios sobre lealdade e sobre carregar os fardos das outras pessoas.”
O tiroteio continua sendo a melhor parte de Gears
Se você esperava uma revolução no gameplay, E-Day provavelmente não vai entregar isso, já que a The Coalition mantém a estrutura conhecida da série, mas com evoluções interessantes, como um sistema de personalização para o arsenal. O gameplay ainda gira em torno de armas pesadas, cobertura, movimentação entre os destroços e muito tiroteio contra a Horda Locust. Para mim, isso não chega a ser um problema porque o combate de Gears continua funcionando muito bem, e um prequel como este não precisava necessariamente reinventar a fórmula que ajudou a definir a franquia.
As armas icônicas estão de volta e algumas delas ainda ganham um contexto interessante dentro da própria história, como a apresentação do surgimento da Lancer Mark. É uma maneira simples, mas eficiente, de conectar aquilo que estamos usando durante a campanha com algo que os fãs já conhecem, sem transformar a experiência em uma coleção de referências jogadas apenas para agradar quem acompanha a série há anos.
Os momentos que mais gostei, porém, foram aqueles em que o jogo abre um pouco seus mapas e permite explorar áreas destruídas de Kalona com mais liberdade. Existem missões secundárias, caixas com melhorias de equipamento e colecionáveis espalhados pelo cenário. Embora não sejam exatamente indispensáveis, o próprio jogo conseguiu me convencer a procurar cada um deles sempre que aquele som característico indicava que havia alguma coisa escondida por perto.
O problema é que a cidade está destruída de verdade, com destroços espalhados por todos os lados e buracos por onde os monstros surgiram. Com isso, nem sempre explorar significa chegar inteira ao outro lado: foram tantas quedas durante a campanha que, em determinado momento, eu já aceitava que qualquer buraco suspeito no chão provavelmente existia especificamente para testar minha capacidade de prestar atenção.
Jogar Gears em dupla mudou completamente minha experiência
Eu também joguei toda a campanha em dupla, e isso fez uma diferença enorme na minha relação com E-Day, principalmente porque não sou uma jogadora particularmente habilidosa em games de tiro em terceira pessoa. A dinâmica de dividir confrontos, conversar sobre o que fazer e simplesmente reagir juntas ao caos da tela tornou a experiência muito mais divertida.
A tela dividida também funcionou muito bem para nós, sem se transformar em um obstáculo durante os confrontos ou na exploração dos cenários. Depois de passar pela campanha dessa maneira, fiquei até com a impressão de que poderia existir uma versão com quatro jogadores no multiplayer local para completar o esquadrão inteiro. Afinal, poucas coisas parecem mais apropriadas para Gears do que quatro pessoas gritando enquanto tentam sobreviver a uma cidade tomada por monstros.
A dificuldade também ajuda a tornar a campanha mais acessível para quem, assim como eu, não tem tanta intimidade com games desse tipo. Jogamos no modo normal e conseguimos chegar ao final, mas existem opções mais fáceis e mais difíceis, permitindo que cada jogador encontre um nível de desafio mais confortável para sua experiência.
Uma cidade destruída que também funciona como cenário de exploração
Visualmente, Gears of War: E-Day é um jogo bastante consistente e consegue transmitir bem a dimensão da destruição provocada pela Horda. Os cenários são impactantes, os gráficos são bonitos e a direção de arte utiliza as cores de maneira muito clara para reforçar a identidade dos dois lados do conflito.
O azul associado aos Gears aparece em diferentes elementos do cenário, enquanto o vermelho relacionado aos Locust surge em luzes de emergência, ambulâncias destruídas e caixas de munição espalhadas pelos ambientes. É um detalhe que pode parecer pequeno isoladamente, mas ajuda a criar uma identidade visual forte enquanto atravessamos uma cidade que vai ficando cada vez mais irreconhecível.
A trilha sonora também cumpre bem seu papel ao acompanhar a intensidade dos momentos de ação e diminuir o ritmo quando os confrontos terminam. Ela não foi necessariamente o elemento que mais ficou na minha cabeça depois de desligar o Xbox, mas funciona justamente por saber quando precisa aparecer e quando deve deixar o ambiente assumir o protagonismo.
Os efeitos sonoros também ajudam bastante na exploração, especialmente por causa do som utilizado para indicar a proximidade dos colecionáveis. Depois que você aprende a reconhecer aquele sinal, ignorar um item escondido fica praticamente impossível, mesmo quando isso significa abrir o mapa e investigar cada canto da área enquanto o restante do esquadrão provavelmente está se perguntando onde você foi parar.
Por outro lado também encontramos alguns bugs durante a campanha, incluindo problemas pontuais na tela e situações em que o jogo chegou a fechar depois de determinadas cutscenes. Como a experiência aconteceu durante o acesso antecipado, existe a possibilidade de que esses problemas sejam corrigidos antes ou depois do lançamento oficial em 6 de outubro, então não dá para tratar essas ocorrências como uma representação definitiva do desempenho do jogo.
Gears of War: E-Day me fez querer conhecer o resto da franquia
Mesmo com alguns problemas pontuais, talvez o maior mérito de E-Day para mim seja justamente ter conseguido fazer algo que eu não esperava: despertar minha curiosidade pela história de Gears of War. Eu comecei a campanha acreditando que estava entrando em mais um jogo de tiro sobre humanos enfrentando aliens (é isso mesmo, um erro bem amador) e terminei procurando informações sobre personagens e acontecimentos dos outros títulos para entender melhor tudo aquilo que estava acontecendo.
Isso também mostra como retornar ao passado pode ser uma boa escolha para uma franquia que já acumulou muitos anos de histórias e personagens. Ao voltar para o momento em que tudo começou, a The Coalition encontra uma maneira de apresentar o universo para quem chega agora e, ao mesmo tempo, oferecer aos fãs uma nova perspectiva sobre acontecimentos que já conhecem.
Para quem já acompanha Gears of War, existe ainda o prazer de reencontrar personagens e elementos conhecidos em um momento muito anterior ao que a franquia mostrou posteriormente. Para alguém como eu, que entrou na série de maneira completamente despretensiosa e praticamente sem conhecer sua história, a campanha funciona como uma porta de entrada bastante eficiente para entender por que essa guerra começou.
Vale a pena jogar Gears of War: E-Day?
Gears of War: E-Day não tenta reinventar a fórmula da franquia, e talvez nem precisasse fazer isso, já que seu maior trunfo está justamente em revisitar as origens enquanto mantém o combate que tornou Gears tão conhecido. O gameplay continua baseado em tiro e cobertura, a campanha funciona ainda melhor em dupla e os capítulos com áreas mais abertas dão um respiro interessante para quem quiser explorar a cidade destruída.
No meu caso, a experiência foi ainda mais positiva porque o jogo conseguiu transformar uma franquia que eu considerava apenas um “jogo de hominho atirando nos monstros” em algo que despertou minha curiosidade pela história e pelo universo de Sera. E com o suporte para split-screen nos consoles, o título é uma das melhores experiências em tela dividida para quem curte jogos de história.
Porém, R$ 299 é um valor considerável, então eu diria que o investimento faz mais sentido para quem já é fã da série ou para quem, como eu, terminou a campanha querendo descobrir o que aconteceu antes e depois daquele Dia da Emergência. Felizmente, o jogo chega direto no Xbox Game Pass Ultimate em 6 de outubro no PC, nuvem e Xbox Series S e X, o que também permite ter acesso ao game por um valor bem mais acessível.
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