Grand Theft Hamlet mostra que fusão entre Shakespeare e GTA faz muito sentido
O premiado documentário transforma Los Santos em palco para Hamlet e prova que até o caos pode ser arte! Confira a crÃtica do Jornal
Se alguém dissesse, anos atrás, que uma das melhores adaptações de Hamlet aconteceria dentro de Grand Theft Auto Online, era capaz de ninguém acreditar. Mas Grand Theft Hamlet, documentário britânico dirigido por Sam Crane e Pinny Grylls, prova que até o caos de Los Santos pode virar palco para uma obra-prima shakespeariana.
O filme, que venceu o prêmio de Melhor Documentário no SXSW 2024 , chegou oficialmente ao catálogo da plataforma MUBI nesta sexta-feira (20). Graças a um acesso cedido pelo streaming, eu consegui assistir ao documentário com antecedência, e fiquei surpresa pela sua abordagem inovadora e pelo jeito inusitado de contar uma história que já tem séculos de vida.
Uma peça dentro do jogo – e um jogo dentro da peça
Quando eu dei play em Grand Theft Hamlet e assisti ao inÃcio do filme, achei que estava vendo uma gameplay no YouTube. A primeira impressão foi de que seria apenas um vÃdeo de jogadores encenando Hamlet dentro de GTA. Porém, a realidade foi bem diferente: o documentário realmente mergulha na criação da peça, mostrando desde a organização do elenco até os desafios de encenar um espetáculo dentro de um mundo online caótico e cheio de matança.
Originalmente, a ideia parecia ser encenar Hamlet na concha acústica de Vinewood, com jogadores assistindo como público. No entanto, a equipe enfrenta tantos problemas que acaba apostando em outras abordagens, o que deixa a trajetória muito divertida.
O documentário não economiza ao mostrar a parte complexa e difÃcil da arte. Vemos todas as pedras no caminho ao tentar trazer uma obra de arte para o meio do caos, mas também conseguimos conferir o surgimento de amizades e histórias totalmente desconhecidas ganhando luz.
Em meio ao caos de um multiplayer massivo e as relações humanas durante a covid-19, uma ótima solução é encontrada para o fim: uma transmissão ao vivo, utilizando toda a cidade do jogo como cenário para a peça. Essa decisão não só amplia a escala da produção, mas também reforça como GTA pode ser um espaço para experiências teatrais e cinematográficas.
Entre NPCs, pandemias e a magia do improviso
Para quem não conhece Hamlet, o documentário é didático o suficiente para situar o espectador, mas o mais fascinante não é a história da peça em si – e sim como ela foi construÃda dentro do jogo.
Os desafios técnicos, os imprevistos e até a participação espontânea de outros jogadores adicionam camadas inesperadas ao filme. Em vez de atores profissionais, a produção contou com um elenco improvisado, o que tornou tudo ainda mais autêntico. Ainda mais artÃstico e teatral: de gangsters até alienÃgenas, a peça vai ganhando vida de forma irreverente e inesperada.
Ao longo do documentário, vemos como os participantes enfrentam limitações do próprio jogo, ao mesmo tempo em que transformam GTA Online – um ambiente normalmente dominado por tiroteios e caos – em um espaço de arte e atuação. O mais surpreendente é pensar que algo assim nunca foi feito antes, mesmo com o boom de role-playing em jogos online.
Do absoluto cinema ao "isso é GTA, kkkkkk"
Uma das maiores surpresas do filme é como ele transita entre o drama e o humor. Os momentos cinematográficos mais bem enquadrados fazem o espectador esquecer que tudo se passa dentro de GTA. Mas, ao mesmo tempo, há cenas que nos lembram exatamente disso, gerando aquele efeito hilário de ver uma obra clássica sendo interpretada por avatares do jogo.
A forma como o filme lida com o isolamento da pandemia também é um ponto alto. A peça é Hamlet, mas os temas acabam refletindo o próprio momento em que foi criada: a solidão, a busca por conexão e o improviso para se manter são aspectos que ressoam tanto no jogo quanto na realidade.
Em uma coletiva de imprensa com a participação do Jornal dos Jogos, Sam Crane e Pinny Grylls comentaram sobre a importância da pandemia no nascimento do projeto. Grand Theft Hamlet não é apenas um experimento social artÃstico, mas uma marca de como o isolamento social marcou as nossas vidas e criou hábitos que perduram até hoje, como jogar online com os amigos.
O suprassumo da arte dentro do caos
Grand Theft Hamlet não é só um documentário sobre uma peça de Shakespeare encenada dentro de um jogo. É um lembrete de como qualquer espaço pode se tornar um palco para contar histórias, desde que haja criatividade.
E, nesse caso, a união improvável entre GTA e teatro resultou em algo surpreendente: uma experiência única, que mistura o clássico e o caótico de forma brilhante. É a prova de que, quando o assunto é arte, nosso olhar pode mudar perspectivas, transformando até um simples NPC em um personagem shakespeariano.
Terminei de ver o documentário com vontade de assistir a peça completa, com todos os erros e reações ao vivo, porque isso faz parte da experiência. E talvez esse seja o verdadeiro charme de Grand Theft Hamlet: mostrar que, mesmo no mundo virtual, ainda é possÃvel criar algo genuinamente humano.