Meu professor, formado em História da Arte, me deu uma belíssima aula sobre “o que é Arte”. Em miúdos, foi discutido que tudo aquilo que te traz uma sensação - seja um filme, um livro, um jogo - pode ser considerado uma peça de arte.
Não importa a duração, o meio que se apresentou, ou até mesmo se ninguém mais considera aquilo uma arte. A regra é clara: se te trouxe uma sensação, te fez sentir algo, é considerado arte. E The Dark Queen of Mortholme é uma bela peça de arte.
A protagonista não tem nome, e nem precisa. Ela é o “player”, o jogador que tem em absolutamente todos os jogos. Ela está lá para salvar o mundo, derrotar o vilão, ter toda a glória de superar as dificuldades. Ela é quem nós, os jogadores, sempre somos. Quando você joga qualquer jogo, você É essa protagonista. E é aí que o jogo te pega: Ele inverte os valores. Ele inverte o que esperamos encontrar nesse tipo de jogo. Ele inverte o papel natural que nós, jogadores, cumprimos.
Pelo fato de sermos o Boss e não a protagonista, tudo que conhecemos sobre jogos muda. Nosso objetivo não é ir de sala em sala, de fase em fase, descobrindo segredos e derrotando monstros diferentes, conseguindo subir de nível para um dia, enfrentar o vilão final e vencer o jogo.
Nosso trabalho não é conquistar uma nova arma incrível, ou salvar algum NPC. Nós não somos a protagonista do jogo, somos a Rainha, e o papel dela é outro. A Rainha não vai ser encontrada passeando pelos corredores. Ela não vai ser vista conversando em uma taverna. A Rainha, como todo bom Final Boss, será encontrada no lugar mais alto, o mais distante possível da primeira fase, onde apenas os mais fortes ousarão chegar.
A Rainha vai ser encontrada no topo da Torre mais alta de seu reino, descansando no seu trono, intocável. Esse é o trabalho dela, apenas estar lá. Ela sempre estará lá.
É a Protagonista que irá atrás da Rainha. É assim que funcionam os jogos, é assim que sempre funcionou.
Nesse texto, eu não quero apenas contar como o jogo é, explicar como funciona sua gameplay e sua história. Eu quero que você sinta o jogo, da mesma forma que eu senti. E sim, sei que é uma tarefa difícil, mas agora é a hora de tentar.
Vamos fazer um exercício agora: Quero que pense em qualquer game que você jogou onde tinha um Boss. Pode ser um Souls Like como Dark Souls, Sekiro ou Elden Ring. Pode ser qualquer Metroidvania como Dead Cells ou o próprio Castlevania: Symphony of the Night ou até mesmo The Witcher ou Borderlands. Na verdade, até jogos mais “normais”, sem elementos de RPG, como Call of Duty, Super Mario e Resident Evil possuem um Boss, um chefe, um inimigo mais difícil que os outros, mais poderoso… mais impactante.
E aí, pensou no seu jogo? Agora preciso que você pense em um específico Boss que teve nesse jogo e que ficou preso em sua mente. Pensou no seu boss? OK, quero agora que o descreva na sua mente. Ele é poderoso? Ele é memorável? Ele é um inimigo formidável?
Agora vamos pensar sobre você. Como foi enfrentar ele? Você teve muita dificuldade? Você se sentiu bem após vencer ele?
Esses são os pensamentos que The Dark Queen of Mortholme me trouxe. O jogo me fez pensar sobre todos os Bosses que eu já enfrentei e ficaram em minha mente. Eles foram tão importantes para a minha jornada naquele jogo, me fizeram aprender a jogar melhor, a usar melhor meus recursos, a desviar no momento certo, atacar no momento certo.
Os Bosses são fundamentais em jogos, pois quando vencemos esses chefes e passamos de fase, nós temos a prova de que crescemos e ultrapassamos nosso próprio limite. E quando é um boss final então? Uau, a sensação de completude é incrível, pois sabemos que vencemos o jogo, superamos tudo (exceto quando o jogo tem um péssimo Boss… tô falando contigo Resident Evil 3, pois transformar o Nemesis em um cachorro que fica correndo só em parede é um saco).
E sim, parece que estou apenas divagando, mas o jogo faz pensar em tudo isso. É parte do jogo te fazer pensar em temas profundos, também. E como eu disse, quero te fazer sentir o que ele me fez sentir, quero te fazer pensar no que ele me fez pensar.
Qual é a história e a premissa de The Dark Queen of Mortholme?
Não há uma história profunda, nada estabelecido. O jogo trabalha com as experiências passadas do jogador, coisas que aconteceram em outros jogos com ele. Ele usa dos básicos que você encontra lá, e utiliza isso para estabelecer um mundo.
Temos um império/governo/território que está repleto de maldade e precisa de um milagre. Chega então um salvador e derrota o vilão. Consegue pensar em alguma história assim? Tenho certeza de que sim. Desde Star Wars a Senhor dos Anéis, e até mesmo os jogos que citei anteriormente. O “básico” que chamo é o clichê estabelecido em literaturas desde sempre.
O jogo não precisa de uma história única e revolucionária, pois a ideia não é essa. A ideia é “como seria se fôssemos o Boss, e não o protagonista? Como nos sentiríamos? Como agiríamos diante do momento de ser derrotado? Seríamos derrotados?”
Por isso te fiz pensar sobre os Bosses que já encontrou pelo seu caminho gamer. Por isso fiz toda essa introdução, pois ela é necessária para você se conectar ao game. Mas caso queira muito uma história e premissa, aqui está a própria sinopse do jogo na página da Steam:
“Você é o chefe final, a Rainha Sombria de Mortholme, incomparável em poder. Um herói invade — facilmente esmagado. No entanto, ele continua voltando. Um jogo indie de 30 minutos, em formato curto, sobre uma ligação incomum, perspectivas e a beleza da mudança.”
Como funciona o gameplay e o sistema de combate?
Essa parte é extremamente simples e brilhante, pois agrega muito para a mensagem que o jogo quer te passar. Mas antes de explicar, preciso dar um aviso: esse tipo de jogo é aquele que quanto menos souber, melhor. Você é pego de surpresa com o que acontece e ter spoilers vai estragar um pouco sua experiência.
O jogo dura 30 minutos e eu paguei apenas R$8,00 por ele. Menos que um lanche e bem menos que uma skin. Vai por mim, vale a pena. Você pode jogar rapidamente e então voltar para ler essa análise. Não se preocupe, não vou a lugar algum.
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OK, jogou? Gostou? Me mande mensagem, quero saber o que achou. Não jogou? Tudo bem, depois você joga. Ainda assim, pode me mandar mensagem, quero saber o que achou da ideia e do que eu falei até então.
Voltemos para quando eu pedi para você pensar em um Boss. Quais eram os ataques deles? Qual era o padrão?
No começo do jogo nós possuímos apenas um ataque. A Rainha, com sua maça (uma espécie de marreta, só que com uma bola e espinhos na ponta), dá um simples e poderoso golpe que mata a heroína.
Após matá-la, a protagonista volta para enfrentar a Rainha novamente. Assim como nós, os jogadores, sempre fizemos em nossos jogos. Nós morremos, mas sempre voltamos, não é? Então, quando a protagonista volta para enfrentar a Rainha, e você tenta dar o mesmo golpe que acabou de usar, ele não funciona mais… A protagonista aprendeu, e agora, ela não será atingida tão facilmente.
Sim, seu único ataque agora é quase obsoleto. Ela sabe como você vai atacar e quanto demora para poder atacar novamente, então a protagonista desfere alguns golpes enquanto você se recupera. Você pode até pensar que é injusto isso, ela ser tão rápida, aprender com você, desviar, enquanto a Rainha é lenta, grande, um alvo fácil.
Mas, pensando novamente nos bosses que você já enfrentou: Você decorou o padrão deles, não? E mesmo que não decorasse, você deixou seu personagem forte o bastante para aguentar mais dano, né? Talvez tenha até fortalecido seu equipamento para conseguir fazer mais estrago.
Mas e teu boss? Ele mudou em algum momento? Ele ganhou um equipamento novo? Ele conseguiu uma habilidade diferente? Dificilmente, né? Ele provavelmente apenas mudou de fase, ficando mais forte e mais ameaçador, mas ainda assim mais fácil de matar. Quanto mais dano você dava, mais perigoso ele ficava, mas quanto mais perto da morte dele, mais você aprendia, não é?
Mas não importava quantas vezes você o enfrentasse, ele sempre voltava da mesma forma. Os ataques, o padrão, o tanto de vida e de dano que ele dá é SEMPRE o mesmo.
E agora, NÓS somos o Boss final. Nós não mudamos, mas a protagonista sim.
Para ser justo, nós sim ganhamos mais skills após a segunda morte da protagonista, mas elas têm sempre os mesmos defeitos: previsíveis, lentos, limitados. A protagonista vai aprendendo a se defender, a desviar, a fugir, a contra-atacar. De repente, a Rainha Negra se autoproclamar como “Imutável” não parece mais um título de força, mas sim uma declaração de seu limite. Nossas 3 skills são sim incríveis e fortes, mas a constante habilidade de se adaptar da protagonista é o que é a verdadeira força.
E então, nós, desempenhando o papel de Todo Poderoso Boss, vamos nos sentindo superados, atrasados… talvez até mesmo fracos. Estranho, não?
A Protagonista comenta sobre nós nunca mudarmos, sobre nós sempre termos os mesmos ataques, o que parece a primeira mão apenas uma alfinetada na Rainha, é também uma espécie de conversa meta-linguística, nos fazendo pensar sobre nossas vidas. E aqui também entramos na segunda parte da gameplay: diálogos.
A cada “ciclo” (quando você mata a protagonista e depois ela volta) temos uma conversa. Algumas vezes podemos escolher o que falar. Claro, não é nada complexo, afinal, é um jogo indie feito por apenas um cara e com 30 minutos de duração. O sistema inteiro é simples, mas o jogo tem sua profundidade.
Foi nesse momento do jogo, onde eu pude escolher o que falar, que de fato me senti na Rainha. A Rainha sem nome, que apenas vive, não mudando, não fazendo reais escolhas no mundo, mas vendo o mundo ao seu redor se movimentar.
Me diz, você se sente assim também? Quantos se sentem assim?
O que realmente é The Dark Queen of Mortholme?
Como dito várias vezes aqui, é um jogo em que nos tornamos a Boss Final. E realmente, é isso. No entanto, o jogo também pode ser bem mais.
Eu comecei esse The Dark Queen of Mortholme esperando apenas um jogo básico com uma mecânica legal, e isso me foi entregue. Mas, além disso, eu descobri que posso sentir empatia com bosses de jogos, que posso me sentir na pele de um ser Imortal desesperado para ser lembrado e com medo de ser ultrapassado. Com esse jogo relembrei que games, podem sim ser arte.
O jogo tem apenas 08 conquistas, e eu me recusei a conquistar a última. Não por ser difícil, mas porque, em outras palavras, é ir contra todo o aspecto do jogo.
Caso não queira spoiler do momento final do jogo, peço novamente, volte a ler apenas quando tiver jogado, ou, ao menos, zerado pelo Youtube.
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Okay, lá vai o que rola no final:
Sim, nós morremos. Somos derrotados, para ser mais específico.
Como todo Boss, nossa tarefa neste jogo não é apenas trazer desafio, ensinamento e presença na vida da Protagonista, mas, também, é morrer quando chegar nossa hora. É decisão sua se vai aceitar de bom grado ou não essa tarefa, mas, entenda, ela é inevitável.
A última conquista nos pede para não ser derrotado, para vencer a Protagonista mesmo nos momentos mais overpower dela. Lutar contra o próprio destino e tarefa de ser um boss, e vencê-la.
Entenda, o que me pegou nesse jogo não foi apenas o fato de morrermos, mas como nós morremos. Nós entregamos tudo, damos nosso melhor, e é essa a beleza de ser derrotado por alguém tão, mas tão forte, que nos transforma em um marco.
É difícil, mas tudo que vale a pena na vida é difícil. E agora não estou falando apenas do jogo, mas também da própria vida. A beleza está não apenas na jornada, mas também no final dela. Quando conquistamos todo o caminho, isso sim é belo. No jogo, se recusar a ir ao final estraga a experiência e todo o sentido do caminho.
A Rainha Sombria de Mortholme não conta apenas a história da Rainha, como também, a nossa. Talvez você esteja em algum momento assim, onde há de mudar, mas não quer, ou não consegue. Talvez esteja querendo colocar sua marca no mundo, ser inesquecível, com medo de ser superado.
É neste momento que estou na vida, mas, para ser sincero, acho que sempre estive nesse momento. Vendo os amigos e familiares conquistando tudo, e eu, aqui, parecendo que sou Imutável, sem caminho para ir, assim como a Rainha. Se você se sente como eu, relaxe, assim como no jogo, sei que tudo dará certo no final. A Rainha será para sempre lembrada. Imortal. É só abrir o jogo e veremos ela. Esse meu texto estará para sempre no mundo, na internet, esperando alguém para ler. E você, que chegou até aqui, obrigado por tudo.
Nós nunca seremos esquecidos.
Plataformas disponíveis e Requisitos
The Dark Queen of Mortholme está disponível apenas para computador, podendo ser adquirido na Steam, GOG e no Itch.Io. Ainda tem muito do jogo que eu não falei. Tente jogar, quem sabe você se divirta também.
Sobre os requisitos, o jogo é extremamente leve:
Requisitos mínimos:
Sistema Operacional: Windows XP, Vista, 7, 8, 10, and 11
MEMÓRIA: 2 GB de RAM
PLACA DE VÍDEO: 128 MB
ARMAZENAMENTO: 200 MB de espaço disponível
E aí, você já jogou ou pretende dar uma chance ao game? Comenta aí no Substack!













