O Labirinto de Vidro e Mercúrio: Uma Crítica Profunda de Pathologic 3
Pathologic 3, lançado em janeiro de 2026 pela Ice-Pick Lodge, é uma raridade no mundo dos games.
Originalmente concebido como um cenário adicional para Pathologic 2, o desenvolvimento se expandiu de tal forma que a Ice-Pick Lodge decidiu lançá-lo como um título autônomo. Esta decisão permitiu que a equipe explorasse mecânicas que seriam impossíveis de implementar como um simples DLC, garantindo ao Bacharel uma identidade mecânica tão distinta quanto sua personalidade.
Pathologic nunca foi uma franquia fácil de recomendar. Não por falta de qualidade, mas porque seus jogos sempre exigiram algo raro: paciência, atenção e disposição para lidar com o desconforto. Pathologic 3 segue exatamente essa filosofia — e talvez seja o capítulo mais ousado da série até agora.
Originalmente pensado como um cenário adicional para Pathologic 2, o projeto cresceu tanto que a Ice-Pick Lodge decidiu transformá-lo em um jogo completo. O resultado é uma experiência focada em Daniil Dankovsky, o Bacharel, que troca a sobrevivência física pelo colapso mental, a gestão da fome pela gestão da sanidade e o desespero imediato por um quebra-cabeça narrativo denso, filosófico e cruel.
Testado no PC, Pathologic 3 não tenta agradar, nem facilitar. Ele quer que você pense, erre, volte no tempo e encare as consequências das suas decisões — mesmo quando elas parecem “corretas”. A seguir, contamos como foi mergulhar novamente nessa cidade doente, agora sob uma nova perspectiva.
Ficha Técnica
Jogo: Pathologic 3
Desenvolvedor: Ice-Pick Lodge / HypeTrain Digital
Data de Lançamento: 9 de Janeiro de 2026
Onde jogar: PC (Steam/GOG), PlayStation 5, Xbox Series X|S
Plataforma de testes: PC
Gênero: Horror Psicológico, RPG, Simulação Médica
Motor Gráfico: Unity (com implementações avançadas de iluminação e RTX)
Idioma Original: Russo e Inglês (sem localização em português.
Esta obra não é apenas uma sequência de Pathologic 2, mas uma “sidequel” ou reimaginação que vira do avesso as convenções estabelecidas pela jornada de Artemy Burakh, trocando a sobrevivência do estômago pela sobrevivência da mente. Ao assumir o papel de Daniil Dankovsky, o Bacharel, o jogador participa de um experimento metafísico sobre o tempo com muito potencial, mas que começa com um grande erro para o público brasileiro.
A falta de tradução e o impacto no público brasileiro
A falta de tradução para o português do Brasil em Pathologic 3 é um balde de água fria para a comunidade. Afinal, o jogo é focado totalmente na narrativa e exige uma compreensão impecável de diálogos densos e termos médicos para evitar o "game over".
Embora a localização tenha sido prometida e até aparecido em versões de teste, cortes no orçamento e prazos apertados forçaram o cancelamento — uma decisão descrita como devastadora por quem trabalhava no projeto. Para o público brasileiro, isso vai muito além de um simples desconforto: é uma barreira real que impede o acesso à profundidade filosófica e ao design complexo da obra.
O ex-tradutor Yuri descreveu o cancelamento como "devastador". Para um jogo com um vocabulário tão arcaico e filosófico, a falta de localização em PT-BR não é uma barreira de acessibilidade que impede que o jogador brasileiro desfrute da profundidade do design.
Eu tive muita dificuldade em traduzir, mesmo sabendo inglês. Imagino que o pessoal que não sabe inglês nem ao menos compre o jogo, pois é “injogável”. Curiosamente, muita gente acha que só “dois brasileiros” no mundo inteiro vão jogar o game e por isso ninguém investe em tradução, e a falta do idioma acaba justamente afastando quem poderia ter interesse no jogo.
A possível barreira dos requisitos
Além do idioma, outra barreira que pode afastar jogadores do PC são os requisitos do game. O título exige uma máquina acima do esperado para um game nesse estilo, mas que está dentro do aceitável para os padrões atuais.
Requisitos Mínimos:
SO: Windows 7/8/10/11 (64-bit)
Processador: i3 / Ryzen 5
Memória: 8 GB de RAM
Placa de vídeo: NVIDIA GeForce GTX 960
DirectX: Versão 11
Armazenamento: 25 GB de espaço disponível
Requisitos Recomendados:
SO: Windows 7/8/10 (64-bit)
Processador: i7 / Ryzen 7
Memória: 16 GB de RAM
Placa de vídeo: NVIDIA GeForce GTX 2070
DirectX: Versão 11
Armazenamento: 25 GB de espaço disponível
Agora que os bandaids foram arrancados, chegou a hora de falar sobre o jogo em si.
Gameplay: A Medicina como detecção e o tempo como recurso
Em Pathologic 3, a pegada mudou completamente: sai aquele desespero constante por comida e entra uma gestão muito mais intelectual e fria da epidemia. O protagonista não é um sobrevivente qualquer; ele é um médico de elite, e o jogo faz você se sentir nessa posição de autoridade.
A mecânica principal do jogo é controlar o nível de “sanidade” do personagem (alô Klei, todos nós odiamos vocês por criar essa mecânica). Se você matar muitos personagens, perder suprimentos, demorar para realizar tarefas ou ficar caminhando por longos períodos sem objetivo, seu personagem começa a entrar em depressão (sim, eu considero depressão pois ele fica mais lento, triste e eventualmente comete suicídio). Loucura, né? Quando isso acontece, o personagem foi dominado pela Apatia.
Mas você também pode morrer de felicidade nesse jogo! Estresse, excesso de confiança, elogios ou estimulantes podem deixar seu personagem eufórico, agressivo e descontrolado, possivelmente causando uma parada cardíaca no mesmo. E nesse caso você foi dominado pela Mania.
Para equilibrar isso, o jogo te obriga a fazer coisas inusitadas. Tá com muita Mania? Precisa de uma dose de humildade, tipo quebrar um espelho ou ficar sentado no chão em silêncio.
Tá caindo na Apatia? Tem que buscar dopamina chutando latas de lixo ou brincando em balanços de parquinho. É uma forma genial de mostrar o esgotamento mental de um médico no meio do caos. Completamente coisa de esquizofrênico. Esse jogo é um simulador de esquizofrenia, eu adorei.
O sistema de diagnóstico: O Casebook Médico
A mecânica mais divertida (ou não) do jogo é o sistema de diagnóstico. Todo mundo já sabe que Pathologic é um simulador de SUS realista, e no terceiro jogo eles se superaram, pois além de cursar oito anos de medicina, você também precisa ser um detector de mentiras ambulante, ter uma bola de cristal e ter decorado aquele livro chamado: como fazer amigos e influenciar pessoas.
E não somente isso, além de tomar cuidado para não surtar e ser internado em um manicômio, você precisa evitar que os seus pacientes surtem e sejam internados em um manicômio. Ou mortos.
Diferente do jogo anterior, onde a cura era algo bem mais direto, aqui o coração do gameplay é o Casebook. Cada paciente é um quebra-cabeça:
Além dos sintomas: Você não apenas olha para o doente; você precisa examinar o corpo, conversar e investigar o lugar onde ele vive.
A mentira faz parte do jogo: Um personagem pode jurar que está com febre, mas se você notar uma janela aberta estrategicamente ou um vidro de remédio escondido, percebe que ele está tentando mascarar a verdade ou simular uma doença.
O custo do erro: Tratar uma gripe comum como se fosse a Peste de Areia não é só um erro médico, é um desastre logístico.
Ou seja, você realmente aprende a atender as pessoas da forma correta na UPA da idade média. Este jogo deveria fazer parte da grade curricular de medicina no Brasil, inclusive.
Segredos e Curiosidades (Easter Eggs)
Os divertidos sistemas de gameplay também abrem espaço para muitos segredos no gameplay. A Ice-Pick Lodge adora recompensar quem explora cada canto ou conhece o histórico do estúdio, e o jogo está repleto de pequenos easter eggs bem interessantes.
O “Funny Little Guy”: Jogadores que usaram comandos de câmera acharam um bonequinho bizarro escondido fora do mapa, atrás do Termitário. Parece ser uma piada interna dos desenvolvedores.
Conexão com The Void: Existem referências diretas às cores e estados de espírito de outro jogo famoso do estúdio, o que alimenta a teoria de que o mundo de Pathologic é uma subdimensão criada pela imaginação das crianças.
O Relógio de Simão: No Stillwater, um relógio travado às 9:03 é a chave para uma missão secreta no final do jogo, envolvendo o sangue de um soldado e a fundação do Poliedro.
Homenagem a Disco Elysium: Há diálogos que dão a entender que o detetive Harry Du Bois poderia muito bem estar ali, citando “detetives defectíveis” de outras cidades.
O Profeta Rato: Se você zerar com todos os finais, rola uma interação especial onde você pode convidar o Profeta Rato para entrar no Poliedro, algo que a comunidade ainda está tentando decifrar o que significa exatamente.
Diferenças fundamentais entre Pathologic 2 e 3
Para quem já conhece a série, a transição de Pathologic 2 para o 3 também é um verdadeiro choque cultural. Aqui estão as mudanças que mais estão dando o que falar:
A estrutura do jogo
A maior polêmica é, sem dúvida, o fim do mapa totalmente aberto e contínuo. Agora, a cidade é dividida em distritos isolados. Em vez de andar cada metro, você planeja sua rota no mapa e o jogo calcula o tempo de deslocamento e os eventos que podem rolar no caminho.
Visualmente, cada bairro ficou muito mais detalhado, mas muita gente sente falta daquela tensão constante de atravessar a cidade a pé, desviando de perigos em tempo real. A sensação de escala mudou bastante.
O Tempo deixou de ser implacável para virar uma ferramenta
No jogo anterior, o tempo era um rio: se você perdesse um evento, já era. No 3, o Daniil consegue manipular o tempo usando uma substância chamada Amálgama — — que você consegue de formas bem pesadas, como quebrando espelhos ou praticando eutanásia em pacientes terminais.
O conhecimento do Daniil não apaga quando ele volta no tempo. Isso transforma o jogo em um enorme quebra-cabeça causal de 12 dias.
Você pode voltar no tempo para tentar impedir a morte de alguém ou usar uma informação que você só descobriu no “futuro” para confrontar um personagem no “passado”(sic mundus creatus est). O objetivo não é mais apenas sobreviver ao dia, mas sim encontrar a combinação exata de ações para salvar a cidade.
O que o jogo faz de melhor?
Mesmo com alguns problemas técnicos, Pathologic 3 consegue se consolidar como uma obra-prima para quem curte um terror mais psicológico e inteligente. O jogo não tenta te dar sustos baratos; ele mexe com a sua cabeça através da atmosfera e das mecânicas, trazendo ótimas novidades e grandes acertos, incluindo:
Texto e clima: A escrita continua impecável. Os personagens nunca são diretos; eles são evasivos e misteriosos, o que aumenta muito a sensação de desconfiança. Você sente que a cidade é um organismo que está morrendo aos poucos.
Poder de decisão: Agora você tem um sistema de decretos. Como autoridade, você decide quem vive e quem morre através de quarentenas e racionamento. O peso de ver as consequências disso no dia seguinte é enorme — e é aí que a mecânica de voltar no tempo ganha ainda mais camadas.
Trilha Sonora: A parceria com Akira Yamaoka trouxe um som industrial e melancólico que casa perfeitamente com a estética russa do jogo. É imersivo e perturbador na medida certa.
Acessibilidade: O jogo ficou um pouco mais “amigável” ao tirar barras chatas como a de fome e adicionar um modo de concentração para destacar itens. Isso permite que você foque no mistério e na história em vez de ficar apenas catando lixo para sobreviver.
Vale a pena?
No fim das contas, Pathologic 3 é aquele tipo de jogo que não tenta agradar todo mundo, e ele nem faz questão disso. É uma experiência que exige paciência, estômago para lidar com o bizarro e, principalmente, a humildade de aceitar que você vai falhar várias vezes até entender como as regras desse mundo funcionam.
A mudança de foco para o Daniil Dankovsky foi um acerto enorme. Ele é o personagem ideal para contar essa história sobre a tentativa frustrada de vencer a morte usando apenas a lógica e a ciência. É um embate intelectual constante contra o impossível.
Para nós, brasileiros, o maior problema ainda é a falta de tradução.
Para nós, brasileiros, o maior problema ainda é a falta de tradução. Isso transforma o jogo, que já é difícil por natureza, em um desafio de interpretação de texto exaustivo. Mas fica o aviso: se você desenrola bem o inglês ou não se importa em usar um tradutor de apoio, vai encontrar uma das histórias mais densas e marcantes dos últimos anos.
Pathologic 3 não está ali para te entreter de um jeito leve. Ele quer te questionar, te deixar desconfortável e, se você for estratégico o suficiente, te dar o poder de mudar o destino de uma cidade inteira. É uma jornada pesada, mas que recompensa quem decide ir até o fim.
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