Paralives tem potencial para dar um 'balança caixão' em The Sims - Review de acesso antecipado
Após anos de espera, simulador de vida indie estreia em acesso antecipado apostando em liberdade criativa, comunidade e recursos que fãs de The Sims pedem há décadas
Existe um sentimento muito específico em abrir um simulador de vida pela primeira vez. Para muita gente, isso significa passar horas construindo uma casa impossível, criando personagens inspirados em amigos da escola ou tentando sobreviver ao caos doméstico depois de colocar um fogão barato na cozinha. Para mim — e provavelmente para boa parte da geração que cresceu jogando The Sims — esse tipo de jogo virou quase um espaço de conforto ao longo dos anos.
Por isso, Paralives carrega um peso enorme nas costas. O projeto indie financiado pela comunidade passou anos sendo tratado quase como uma lenda urbana dos fãs cansados das limitações e políticas da EA Games. A promessa era pegar desejos antigos da comunidade e construir um simulador de vida mais aberto, criativo e flexível — e sem um mar de DLCs pagos.
Depois de muito tempo acompanhando trailers, atualizações e promessas, finalmente chegou a hora de testar o jogo em acesso antecipado. E, como esperado, a verdade é que Paralives ainda está longe de ser um produto finalizado. Há bugs, sistemas incompletos e recursos ausentes que ficam bastante evidentes logo nas primeiras horas.
Ainda assim, também existe algo muito importante aqui: visão. Mesmo em acesso antecipado, o jogo já mostra ideias extremamente inteligentes e entende profundamente o que os fãs do gênero procuram há anos.
Confira, a seguir, como foi a nossa experiência com Paralives no PC durante o acesso antecipado, em uma review feita com uma cópia cedida pela desenvolvedora.
Ficha técnica
Jogo: Paralives
Lançamento: 25 de maio de 2026 (Acesso antecipado)
Onde jogar: PC e Mac
Plataforma de teste: PC
Preço: Em breve
Paralives entende os fãs de The Sims como poucos jogos entendem
É impossível falar de Paralives sem mencionar The Sims. E honestamente? O próprio jogo sabe disso. Toda a estrutura da experiência parece construída em cima de anos ouvindo reclamações, desejos e frustrações da comunidade de simuladores de vida.
Enquanto InZoi, que saiu ano passado, aposta em realismo extremo e gráficos ultradetalhados, Paralives segue um caminho completamente diferente e mais próximo do título da EA. O visual cartunesco, quase ilustrado em alguns momentos, dá ao jogo uma identidade muito mais própria e acolhedora. Existe algo extremamente charmoso na direção de arte escolhida pelo pequeno time de 15 desenvolvedores.
Pessoalmente, eu gostaria até que o jogo exagerasse ainda mais nessa identidade visual. Ainda assim, o resultado já funciona muito bem porque evita a comparação direta com simuladores hiper-realistas e cria um espaço próprio. Paralives parece confortável em ser “game”, e não uma simulação fotográfica da vida.
Paralives parece confortável em ser um “game”, e não uma simulação fotográfica da vida.
Mas o que realmente impressiona é como pequenos recursos conseguem causar impacto imediato em quem joga simuladores há anos. A possibilidade de alterar livremente a altura dos personagens, por exemplo, parece algo tão básico que chega a ser estranho perceber que franquias gigantes nunca implementaram isso direito. Em poucos minutos, Paralives já entrega aquela sensação de “como ninguém pensou nisso antes?”. E isso acontece o tempo inteiro.
O modo construção é o verdadeiro protagonista da experiência
Se existe uma área em que Paralives já consegue competir seriamente com gigantes do gênero, é no modo construção. Na prática, ele parece pegar várias limitações históricas de The Sims e simplesmente perguntar: “e se a gente deixasse o jogador fazer o que quiser?”. O resultado é um sistema extremamente livre, intuitivo e criativo.
As paredes curvas são provavelmente o maior símbolo disso tudo. Mesmo ainda incompletas — atualmente não recebem janelas, por exemplo —, elas já transformam completamente o potencial criativo das construções. Casas deixam de parecer blocos quadrados engessados e ganham formatos muito mais orgânicos.
A liberdade de posicionamento dos móveis também chama atenção imediatamente. É possível girar objetos em diferentes ângulos, posicioná-los sem depender de grades fixas e redimensionar praticamente tudo. Um armário pequeno pode virar um armário gigante ocupando uma parede inteira. Uma cama simples pode se transformar em uma king size em segundos.
O círculo cromático para personalização talvez seja outro detalhe aparentemente simples, mas que muda completamente a experiência. Poder alterar cores, estampas e materiais livremente faz uma diferença absurda para quem gosta de criar ambientes únicos. É quase engraçado perceber como um recurso que já existia em The Sims 3 virou um diferencial gigantesco em 2026.
Ao mesmo tempo, o acesso antecipado deixa várias limitações evidentes. Algumas ferramentas parecem incompletas ou pouco claras na interface, o que pode dar trabalho até mesmo jogadores mais experientes.
Além disso, construir ainda pode ser confuso em alguns momentos. Remover apenas pequenos trechos de paredes, por exemplo, não é intuitivo e frequentemente exige apagar estruturas inteiras junto de todos os objetos acoplados nelas.
E existe uma ausência impossível de ignorar: piscinas. Sim, estamos vivendo o lançamento de The Sims 4 tudo de novo. A diferença é que, aqui, o estúdio já confirmou que piscinas chegarão futuramente durante o acesso antecipado, junto de estações do ano, pets, veículos e diversos outros sistemas gratuitos.
Considerando o tamanho da equipe e o estado atual do projeto, dá para entender a escolha de priorizar primeiro as bases do jogo para depois construir algo mais completo.
Criar personagens é divertido justamente porque parece simples
O Paramaker, nome dado ao criador de personagens, segue a mesma filosofia do modo construção: liberdade acima de tudo. A já mencionada mudança de altura já ajuda bastante na diversidade visual dos personagens, mas o sistema vai além.
Há ferramentas intuitivas para edição facial, customização corporal, tatuagens e até assimetria em elementos específicos, como olhos e meias. Além disso, mais uma vez, o círculo cromático rouba a cena.
Poder escolher exatamente o tom do cabelo, maquiagem, roupas e estampas faz uma diferença gigantesca para quem gosta de criar personagens específicos. É o tipo de ferramenta que aumenta absurdamente o senso de pertencimento do jogador dentro do mundo criado.
A parte de personalidade, por outro lado, ainda parece simples demais. O sistema lembra bastante The Sims 2, utilizando pontos distribuídos em categorias específicas, mas falta profundidade nas consequências dessas escolhas.
Mesmo assim, já dá para perceber que Paralives tenta fazer as relações sociais funcionarem de maneira mais lógica e transparente. Durante minhas partidas, por exemplo, interações sociais variavam bastante dependendo do humor, necessidades e personalidade do personagem.
O jogo até exibe porcentagens e pequenas roletas indicando a chance de sucesso em flertes ou interações específicas — quase como se finalmente estivéssemos vendo os bastidores matemáticos que sempre existiram escondidos em The Sims. Isso torna as relações menos aleatórias e mais compreensíveis para o jogador.
Ainda assim, algumas limitações incomodam bastante no estado atual do acesso antecipado. A impossibilidade de telefonar para NPCs, por exemplo, virou um problema real quando joguei com um personagem solo. Pequenos sistemas sociais ainda parecem incompletos e deixam clara a sensação de que o jogo ainda está em construção.
O mundo aberto faz Paralives parecer vivo
Enquanto o jogo traz uma base sólida na construção e personagens, talvez o maior diferencial estrutural de Paralives esteja no mundo aberto. E aqui não estamos falando apenas de “andar sem loading”: o que impressiona mesmo é como o jogo utiliza isso para incentivar exploração de verdade.
A cidade já chega recheada de restaurantes, lojas, museus e espaços coletivos sem exigir dezenas de expansões pagas logo de cara. Existe uma sensação constante de que aquele espaço foi pensado para ser vivido, não apenas visitado.
A cidade já chega recheada de restaurantes, lojas, museus e espaços coletivos sem exigir dezenas de expansões pagas logo de cara.
Outro detalhe muito inteligente é a forma como os ambientes internos são carregados apenas quando necessário — e mesmo assim sem telas de carregamento tradicionais. Isso mantém a fluidez da exploração e evita interrupções constantes.
O jogo ainda adiciona pequenas atividades secundárias que ajudam bastante na imersão. O sistema de doações para museus e centros comunitários lembra bastante Stardew Valley e funciona surpreendentemente bem como incentivo de exploração e coleta.
Inclusive, essa talvez seja uma das maiores qualidades de Paralives até agora: ele entende muito bem mecanismos de engajamento aconchegantes. Existe uma atmosfera extremamente acolhedora no jogo, algo que conversa diretamente com o público que cresceu transformando simuladores de vida em jogos de conforto.
Pequenos detalhes mostram o carinho do estúdio
Um dos exemplos mais curiosos do cuidado do estúdio por trás do game é o jornal diário. Enquanto The Sims tradicionalmente despeja notificações incessantes em pop-ups que interrompem a experiência o tempo inteiro, Paralives transforma os acontecimentos do dia em um jornal matinal estilizado.
Parece um detalhe pequeno (e talvez seja mesmo), mas ajuda absurdamente na imersão. Ler notícias sobre eventos da cidade, problemas no transporte ou rumores locais faz o mundo parecer mais vivo. E claro: quando uma dessas notícias menciona futuros pets chegando ao jogo, é impossível não ficar animado.
Esse tipo de cuidado aparece constantemente na experiência. Dá para perceber que Paralives nasceu de pessoas que realmente entendem o gênero e passaram anos observando o que os jogadores queriam e aguardavam há anos.
O fato do projeto ter sido financiado pela comunidade, alcançado mais de 1,2 milhão de listas de desejos na Steam e prometer expansões gratuitas ao invés de DLCs pagos também ajuda a explicar a empolgação em volta do game.
Paralives ainda é um acesso antecipado — e isso fica evidente
Mesmo com tanto potencial, é importante reforçar: este não é um jogo finalizado. Há bugs durante o gameplay, sistemas incompletos, mecânicas ausentes e interfaces que ainda precisam de refinamento. Algumas animações parecem limitadas, certas interações sociais carecem de profundidade e vários recursos prometidos ainda não existem.
Mas honestamente? Para quem joga simuladores de vida há anos, isso dificilmente será um choque. A diferença é que Paralives já chega entregando algumas soluções que fãs pedem há décadas em franquias gigantescas. E talvez isso seja justamente o mais impressionante.
Mesmo com orçamento infinitamente menor, uma equipe pequena e um acesso antecipado claramente em evolução, o jogo consegue transmitir personalidade própria e visão criativa. O time também possui um roadmap gigante com promessas e trabalho em desenvolvimento, o que dá confiança na evolução constante do projeto.
Vale a pena?
Se você espera um “The Sims definitivo” já no lançamento do acesso antecipado de Paralives, talvez seja melhor controlar as expectativas. O jogo independente ainda está em desenvolvimento e isso aparece constantemente durante a experiência.
Agora, se você gosta de simuladores de vida, construção criativa e quer acompanhar o nascimento de algo extremamente promissor, Paralives já vale a atenção. Especialmente para quem cresceu jogando The Sims, existe uma sensação quase emocional em perceber um concorrente finalmente tentando inovar de verdade dentro do gênero.
O jogo vai além de apenas copiar fórmulas. Mesmo com problemas esperados, Paralives mostra que é feito por que as pessoas amam esse tipo de jogo há tanto tempo. Em seu estado atual, Paralives ainda não destrona The Sims, mas definitivamente mostra que o trono já não parece tão confortável assim e pode ganhar um novo dono no futuro, depois de atualizações e ajuda de quem mais importa: a comunidade.
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