Cairn e a beleza de seguir em frente depois da queda - Análise
Novo jogo do estúdio Game Bakers acompanha uma alpinista solitária em uma jornada repleta de erros, acertos e reflexões. Confira a review
Em uma indústria lotada de jogos como serviço e de mundos extremamente abertos, cada vez mais venho me interessando por projetos como Cairn, a nova produção do estúdio The Game Bakers. Títulos de escopo pequeno, mas com grande direção de arte e mecânicas de gameplay enxutas, executadas com extremo cuidado.
Lançado por valores partindo de R$ 80 no PC e PS5, o título te coloca na pele de uma aventureira, Aava, que tem um único objetivo: escalar uma montanha — felizmente o jogo é single-player, o protagonista não se chama Roberto e você não escala o Pico Paraná. Entre reflexões e planejamentos de rota, seu trabalho é ajudar a aventureira a alcançar o pico.
Com essa premissa, lembro imediatamente de Planet of Lana, Koira e, principalmente, Jusant, jogo que fez crescer minha expectativa em relação a Cairn. Todos compartilham a temática da escalada, mas a utilizam para contar histórias diferentes — seja sobre uma civilização que abandona seu lar aos poucos, ou sobre uma crise existencial silenciosa.
No fim das contas, encontramos em Cairn uma experiência ainda mais completa no sentido da escalada e sobrevivência, além de ser bem mais direta na forma de contar sua história. Ainda assim, a essência desse “tipo de jogo” está ali: uma aventura introvertida e reflexiva que pode transcender o gameplay e tocar a vida.
Ficha Técnica
Jogo: Cairn
Desenvolvedora: The Game Bakers
Plataforma de teste: PC
Lançamento: 29/01/2026
Preço: A partir de R$ 80
Uma protagonista humana
Logo que entramos em Cairn, já somos colocados diante de alguns desafios iniciais, que funcionam como um tutorial e apresentam tanto as mecânicas do jogo quanto sua protagonista, Aava. Ela é uma escaladora mundialmente conhecida e agora tem um objetivo bem claro: chegar ao topo do Monte Kami.
Pra começar, Aava é complicada. Ao longo da história, vamos entendendo melhor como ela se relaciona com as pessoas e por que o isolamento é tão importante para ela. Confesso que, em vários momentos, me irritei com suas atitudes. Em outros, me compadeci. E isso é justamente o que torna a personagem interessante do ponto de vista narrativo.
Além da protagonista, Cairn também traz outros personagens tão interessantes quanto a alpinista. Não só aqueles que aparecem diretamente na trama, mas também os que conhecemos por meio de cartas e registros espalhados pelo caminho — onde, na minha opinião, está a melhor história do jogo.
Assim, o jogo entrega uma experiência bastante humana. Seja pelos NPCs ou pelos erros de Aava, você se sente dentro daquele mundo e próximo daquelas pessoas, algo que nem todo jogo com alto orçamento consegue alcançar.
Sistema de escalada completo e mais
A história é linda, a relação dos personagens com a montanha é profunda, mas é na gameplay que Cairn realmente brilha. Antes de tudo, vale deixar claro: Cairn é um jogo de escalada e sobrevivência, e toda a experiência gira em torno disso, principalmente da escalada.
O jogo te dá muita liberdade pra subir do jeito que quiser. Sério, você pode se ferrar tentando um caminho mais difícil ou seguir por algo mais seguro e tranquilo. Essa escolha está sempre nas suas mãos.
Um dos grandes méritos de Cairn é permitir que a gente escolha qual membro do corpo usar para guiar a escalada. O jogo até sugere automaticamente o que parece melhor para equilibrar o peso do personagem, mas você pode interferir a qualquer momento, o que dá uma liberdade enorme na forma de escalar cada trecho.
Em Cairn, falhar faz parte do processo.
No fim, o segredo da escalada está justamente em escolher a melhor linha: identificar pontos de apoio, relevos mais acessíveis e entender até onde dá pra arriscar. Para ajudar nisso, o jogo mantém sempre por perto um mapa que mostra parcialmente o paredão que precisa ser escalado. Nele, dá pra visualizar as rotas já feitas, entender onde você errou… porque sim, uma hora você vai cair e morrer. Na vida real isso não tem volta, mas em Cairn, falhar faz parte do processo.
A escalada também é influenciada por outros fatores, como o clima. Na chuva, a aderência diminui; com rajadas de vento, o personagem balança mais, tornando cada movimento menos previsível.
A estamina pesa bastante nessas decisões e precisa ser equilibrada junto ao uso dos pistões, que servem para se prender à rocha e salvar progresso em trechos específicos. É um recurso simples, mas fundamental para avançar.
Subir a montanha é importante, mas, como o nosso amigo Roberto do Pico Paraná nos ensinou, sobreviver é ainda mais. Cairn traz sistemas básicos de vida, como sede e fome, que precisam ser constantemente administrados.
Para manter a escaladora viva, é preciso encontrar recursos pelo caminho, seja bebendo água em fontes naturais ou recolhendo latas e garrafas espalhadas pelo Monte Kami. Tudo isso é organizado em uma mochila simples e limitada. Não dá para carregar tudo, então saber o que levar e o que deixar para trás acaba sendo parte essencial da experiência.
Também é importante frisar que Cairn é um jogo frustrante. Você vai cair muito. A ideia é sempre tentar encontrar uma rota melhor, repensar estratégias e aprender a organizar melhor os recursos.
Por outro lado, o jogo conta com um modo de acessibilidade bastante flexível, que pode ser ativado ou desativado a qualquer momento. Ele permite desde recursos infinitos até a possibilidade de voltar instantaneamente após uma queda. Funciona bem para diferentes perfis de jogador.
Nada é perfeito, mas a experiência é linda
Obviamente, nem tudo são flores, mas os problemas são poucos. Jogando no PC, encontrei alguns bugs pontuais. Em um deles, por exempl,o, Aava ficou presa na parede. Em outro, o jogo simplesmente não permitia salvar, e precisei fechar e abrir novamente para que tudo voltasse a funcionar.
Minha segunda reclamação fica por conta das expressões faciais dos personagens. Em alguns momentos importantes da narrativa, a carga dramática é maior e pede mais emoção do que o jogo consegue transmitir visualmente, o que acaba enfraquecendo certas cenas.
Mesmo com essas falhas, Cairn é um escárnio visual. O jogo não aposta em gráficos ultrarrealistas, e nem precisa. Com seu estilo próprio, o título entrega muita beleza graças ao que realmente importa aqui: a direção de arte.
Com cores vibrantes e uma montanha que parece viva, o jogo apresenta uma diversidade de cenários impressionante para um escopo tão pequeno. Isso fica claro tanto na forma como o mundo é iluminado, especialmente à noite, quanto em algumas cutscenes que entregam um trabalho artístico realmente primoroso.
Cairn vale a pena?
No geral, Cairn tem poucos problemas, mecânicas bem desenvolvidas e, apesar de não serem as mais originais do mundo, são executadas com muita competência. A trilha sonora é gostosa, a história principal é bonita e a experiência como um todo consegue provocar irritação, frustração e satisfação ao mesmo tempo.
Em um ano que começou protagonizado pela história de um brasileiro que ficou perdido numa montanha, Cairn chega de maneira simbólica. Além de mostrar na pele como é a experiência de escalar, mesmo que de um jeito mais arcade, o título explora o lado humano desse exercício.
Com uma protagonista problemática, mas 100% humana, Cairn prova que, na vida e no videogame, eventualmente você vai cair. No entanto, o importante é se levantar, estudar os erros e seguir em frente, rumo ao topo.
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