Call of the Elder Gods mistura Indiana Jones com Lovecraft - Review
Sequência de Call of the Sea transforma mistério lovecraftiano em uma aventura cheia de puzzles inteligentes e ambientações impressionantes
O mês de maio está sendo uma pequena festa para quem gosta de jogos focados em narrativa. Entre experiências como Directive 8020 e Mixtape, também tivemos o retorno inesperado de uma franquia que muita gente provavelmente não imaginava ver novamente tão cedo. Cerca de cinco anos após o lançamento de Call of the Sea, a Out of the Blue resolveu revisitar aquele universo misterioso e cheio de entidades cósmicas com Call of the Elder Gods.
Confesso que existe um fator emocional aqui, pois joguei o primeiro game em 2020 durante um período em que experiências menores, mais intimistas e focadas em puzzles estavam começando a ganhar um espaço ainda mais especial no mercado. Call of the Sea tinha seus problemas, mas era um daqueles jogos que ficavam na cabeça pela ambientação e narrativa melancólica.
Por isso, quando Call of the Elder Gods foi anunciado, a sensação inicial foi de surpresa ao ver um novo título maior, mais ambicioso e mais confiante. Sem abandonar as bases do original, a sequência evolui praticamente tudo que funcionava no primeiro título e entrega uma aventura que mistura puzzles inteligentes, conspirações lovecraftianas e uma atmosfera que em vários momentos lembra um Indiana Jones sobrenatural.
A seguir, contamos como foi nossa experiência com Call of the Elder Gods no Xbox Series X.
Ficha Técnica
Jogo: Call of the Elder Gods
Lançamento: 12 de maio de 2026
Onde jogar: PC, PS5, Xbox Series S/X e Nintendo Switch 2
Plataforma de teste: Xbox Series X
Preço: A partir de R$ 73,99, disponível no Game Pass Ultimate e com demo grátis na Steam
O retorno de um universo lovecraftiano
Diferente do primeiro jogo, Call of the Elder Gods muda bastante sua estrutura narrativa. Após os eventos do primeiro game, agora acompanhamos Harry Everhart, professor da Universidade Miskatonic que tenta ignorar sombras estranhas surgindo no canto de sua visão, e Evangeline Drayton, uma estudante atormentada por sonhos impossíveis envolvendo um artefato descoberto anos antes.
A troca de protagonismo funciona muito bem porque o jogo aproveita isso para expandir a mitologia apresentada em Call of the Sea. Aos poucos, a trama mergulha em civilizações alienígenas, cidades fora do tempo, entidades incompreensíveis e experimentos que parecem desafiar completamente a lógica humana.
E o mais interessante é que a história não fica isolada apenas nas cutscenes. Os próprios puzzles ajudam a construir a narrativa. Cada símbolo, mecanismo ou documento encontrado no caminho reforça a sensação de que existe algo muito maior acontecendo naquele universo.
A estrutura com dois protagonistas também ajuda bastante no ritmo da campanha. O jogo alterna perspectivas constantemente e cria diálogos interessantes entre Harry e Evangeline, especialmente porque existem escolhas durante a jornada. A maior parte delas altera conversas e pequenas interações, mas algumas acabam influenciando diretamente o desfecho da campanha, levando a três finais diferentes.
Sem entrar em spoilers, gostei bastante da forma como o estúdio trabalhou esse sistema. Não espere algo no nível de um RPG gigantesco cheio de ramificações absurdas, mas existe um cuidado genuíno em fazer suas decisões parecerem relevantes emocionalmente. Inclusive, a reta final entrega um daqueles dilemas clássicos do horror lovecraftiano: não existe exatamente uma solução perfeita, apenas consequências diferentes.
Ao mesmo tempo, a narrativa pode acabar ficando confusa em alguns momentos — principalmente para quem não jogou Call of the Sea. O jogo menciona eventos passados, organizações misteriosas e conceitos cósmicos importantes sem necessariamente aprofundar tudo isso. Existe uma sensação constante de que o universo do game é enorme, mas a campanha principal escolhe focar apenas na trajetória imediata dos protagonistas.
Isso cria uma experiência curiosa: você termina o jogo satisfeito com a jornada principal, mas também fica com aquela sensação de “eu queria entender ainda mais desse mundo”. Honestamente? Não acho isso totalmente negativo, pois parte do charme lovecraftiano está justamente no desconhecido. Ainda assim, algumas pontas soltas poderiam enriquecer o game se fosse melhor exploradas.
Puzzles que são arqueologia sobrenatural
Se você gostou do primeiro jogo por causa dos quebra-cabeças, vai se encontrar na nova experiência. Call of the Elder Gods dobra a aposta nos puzzles, com um gameplay que continua relativamente simples na teoria, mas desafiador na prática.
Você explora ambientes em primeira pessoa, coleta informações, analisa documentos e resolve puzzles para avançar. Tudo direto no papel, mas a execução ficou muito mais refinada desta vez, com uma progressão extremamente bem construída.
No começo, o jogo apresenta desafios mais intuitivos, quase como uma forma de ensinar sua lógica. Conforme a campanha avança, tudo vai ficando mais elaborado, exigindo interpretação de símbolos, leitura cuidadosa do ambiente e conexão entre pistas espalhadas por diferentes áreas.
E aqui está um detalhe importante: o jogo raramente apela para puzzles impossíveis ou mal explicados. Existe um cuidado genuíno em garantir que o jogador tenha as ferramentas necessárias para resolver os desafios sozinho. O diário dos protagonistas ajuda bastante nisso, organizando informações importantes sem entregar respostas de bandeja.
Além disso, os desenvolvedores implementaram um sistema opcional de dicas bem simples. Caso você fique travado, dá para entrar no menu e pegar algumas pistas e até as respostas para seguir em frente. Quem quer sofrer sozinho pode ignorar completamente as dicas, enquanto quem prefere focar mais na narrativa consegue avançar sem transformar a experiência em uma sessão de frustração.
Outro ponto que gostei bastante é como os puzzles abraçam a temática cósmica do jogo. Não são apenas enigmas aleatórios jogados ali para aumentar a duração. Muitos deles são parte daquele universo, como mecanismos antigos, idiomas esquecidos, artefatos impossíveis e estruturas que desafiam lógica e espaço.
O jogo entrega uma mistura de Indiana Jones com horror cósmico.
Existe até um charme meio “filme de aventura clássico” em tudo isso. Em vários momentos, eu realmente senti que estava vivendo uma mistura de Indiana Jones com horror cósmico, explorando ruínas antigas atrás de respostas proibidas enquanto uma trilha sonora dramática explodia ao fundo.
No fim das contas, a campanha dura entre seis e oito horas dependendo do quanto você trava nos puzzles, o que considero um ótimo tamanho. É o tipo de jogo perfeito para zerar em um fim de semana, especialmente estando disponível no Game Pass.
Visual impressiona, mas personagens deixam a desejar
Visualmente, Call of the Elder Gods é um salto gigantesco em relação ao primeiro jogo. Utilizando a Unreal Engine 5, o título entrega ambientes extremamente detalhados e variados.
A jornada passa por mansões na Nova Inglaterra, desertos australianos, regiões congeladas e cidades sobrenaturais fora do tempo. Cada cenário possui uma identidade muito própria, explorando perfeitamente a mistura entre aventura arqueológica e horror lovecraftiano.
A direção de arte merece muitos elogios porque consegue equilibrar beleza e estranheza. Existem momentos genuinamente bonitos, com iluminação incrível e paisagens contemplativas, mas também áreas desconfortáveis que parecem existir fora da compreensão humana.
O jogo constantemente brinca com arquitetura impossível, símbolos alienígenas e ambientes que parecem errados de propósito. Assim como no primeiro jogo, essa ambientação é um grande destaque e rende belos prints para wallpaper.
Na parte técnica, a experiência no Xbox Series X também foi excelente. O jogo rodou de forma estável, sem bugs relevantes, travamentos ou quedas perceptíveis de desempenho. O suporte ao Quick Resume também funciona muito bem, algo sempre bem-vindo em jogos single-player que não dependem de conexão constante.
Meu principal problema está justamente nos personagens. Enquanto os cenários são extremamente vivos e detalhados, os rostos acabam destoando bastante do restante da produção. As expressões faciais são limitadas e um pouco artificiais, o que enfraquece alguns momentos emocionais importantes da narrativa.
Não chega a estragar a experiência, mas é impossível não notar essa diferença de qualidade. Para uma possível sequência, vamos torcer para que os protagonistas pareçam mais vivos.
Trilha sonora transforma tudo em um filme de aventura
Se existe algo que elevou ainda mais minha imersão em Call of the Elder Gods, foi a trilha sonora. O trabalho de Eduardo De La Iglesia entrega exatamente o clima que esse universo precisava. Existe uma forte energia de filmes de aventura dos anos 80 aqui — daquelas trilhas que misturam mistério, grandiosidade e descoberta.
Em vários momentos, parecia que eu estava jogando uma versão sobrenatural de Indiana Jones. Principalmente durante as sequências dentro de cavernas antigas ou estruturas esquecidas, enquanto o jogo combina música orquestrada com aquele sentimento constante de que existe algo perigoso esperando na próxima sala.
A dublagem em inglês também funciona muito bem e ajuda bastante na construção emocional dos protagonistas, especialmente durante os momentos mais introspectivos da campanha. O jogo não conta com vozes em português brasileiro, mas a presença de legendas no idioma ajuda bastante — principalmente considerando o preço acessível do game.
Vale a pena?
Call of the Elder Gods é uma daquelas sequências que entendem exatamente o que precisava evoluir sem abandonar a identidade original. O jogo pega os melhores elementos de Call of the Sea, como puzzles inteligentes e ambientação misteriosa, e transforma tudo em algo maior, mais cinematográfico e mais ambicioso.
Mesmo com alguns tropeços na construção da história e nos modelos faciais dos personagens, o resultado final é extremamente positivo. Para quem gosta de jogos focados em narrativa, exploração e quebra-cabeças, essa é uma recomendação fácil.
O jogo é altamente indicado especialmente para assinantes do Game Pass que curtem histórias diferentes e games single-player curtos — a duração fica entre seis e oito horas. Afinal, o título se encaixa perfeitamente naquela experiência de fim de semana que você começa “só para testar” e termina completamente mergulhado na história.
Ao mesmo tempo, o game não funciona para quem busca ação constante ou experiências mais aceleradas — afinal, o combate não existe aqui. Call of the Elder Gods é um jogo paciente, quer que você observe cenários, leia documentos, interprete símbolos e se deixe envolver pela atmosfera. E sinceramente? Ainda bem que ele existe assim.
Depois de cinco anos sem notícias dessa franquia, voltar para esse universo estranho, melancólico e cheio de mistérios foi quase como reencontrar um velho livro esquecido na estante. Você lembra do sentimento que ele causava, abre novamente por curiosidade… e acaba preso ali por horas tentando descobrir o que existe na próxima página. E o resultado final, apesar de não ser perfeito, é bastante satisfatório para o seu escopo.
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