Mixtape é uma carta de amor à adolescência — Review
Com pouca gameplay e muita personalidade, o novo jogo da Beethoven & Dinosaur transforma música, nostalgia e amizade em uma experiência difícil de esquecer
Eu não acho que Mixtape seja o tipo de jogo que agrada todo mundo. E sinceramente? Acho que ele nem tenta ser. Em uma indústria cada vez mais obcecada por mapas gigantescos, dezenas de horas de conteúdo e sistemas complexos de progressão, o novo jogo da Beethoven & Dinosaur segue completamente na direção oposta.
Ele é curto, extremamente linear, tem pouquíssima gameplay tradicional e depende muito mais da conexão emocional do jogador do que de qualquer desafio mecânico. Mas talvez seja justamente aí que mora sua força.
Desenvolvido pelo mesmo estúdio de The Artful Escape, Mixtape é uma experiência narrativa sobre amizade, juventude e despedidas. Acompanhamos três amigos durante sua última noite antes do fim do colégio, enquanto uma seleção musical cuidadosamente montada conduz o jogador por lembranças, sentimentos e momentos que parecem saídos diretamente de um clássico da Sessão da Tarde dos anos 90.
É aquele tipo de aventura que mistura melancolia e conforto ao mesmo tempo, como revisitar uma memória feliz sabendo que ela nunca mais vai voltar. E por mais que eu tenha começado o jogo acreditando que ele talvez não fosse “para mim”, bastaram algumas músicas, alguns diálogos e alguns silêncios para eu perceber que Mixtape não queria apenas me divertir. Ele queria me fazer sentir.
Ficha Técnica
Jogo: Mixtape
Lançamento: 7/05/2026
Onde jogar: PC, PS5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch 2.
Plataforma de teste: Xbox Series S
Preço: A partir de R$ 54 (incluso no XboX Game pass Ultimate).
O jogo foi testado utilizando a versão do Xbox Game Pass.
Um álbum musical em forma de videogame
Poucos jogos conseguem usar música de maneira tão orgânica quanto Mixtape. Aqui, a trilha sonora não serve apenas para ambientar cenas ou criar emoção em momentos específicos: as músicas literalmente conduzem a narrativa. Cada faixa escolhida parece representar uma fase emocional da história, quase como se estivéssemos ouvindo um álbum cuidadosamente organizado para nos levar por diferentes estados de espírito.
A protagonista Stacy Rockford funciona quase como uma curadora dessas emoções. Conforme a noite avança, somos transportados para memórias que misturam alegria, insegurança, paixão, medo do futuro e aquela sensação agridoce de perceber que a adolescência está chegando ao fim. Existe uma metalinguagem muito forte em toda a construção do jogo, porque Mixtape entende perfeitamente o poder que a música tem de eternizar momentos da vida.
Mixtape entende perfeitamente o poder que a música tem de eternizar momentos da vida.
É impossível não perceber o carinho colocado nessa estrutura narrativa. Cada sequência parece montada para provocar um sentimento específico no jogador, como se a Beethoven & Dinosaur estivesse organizando um verdadeiro álbum emocional.
Existem momentos de euforia, outros contemplativos e alguns surpreendentemente melancólicos. E mesmo quando certas cenas parecem simples, a combinação entre música, direção e contexto faz tudo ganhar um peso muito maior.
É um filme interativo? Sim… mas isso nunca foi um problema
A principal crítica que muita gente provavelmente fará a Mixtape é justamente a quantidade extremamente limitada de gameplay. E honestamente? É uma crítica compreensível. O jogo possui poucos momentos realmente “interativos” no sentido tradicional.
Não existem sistemas complexos, escolhas narrativas relevantes ou mecânicas profundas. A história já está definida, e o jogador está ali principalmente para acompanhá-la. Mas em nenhum momento isso me incomodou.
Existe uma certa obsessão na indústria em validar videogames apenas através da complexidade de suas mecânicas, como se um jogo precisasse constantemente desafiar o jogador para justificar sua existência. Mixtape ignora completamente essa lógica e entende videogames como uma ferramenta narrativa, assim como cinema ou música. E dentro dessa proposta, funciona muito bem.
Ao longo da jornada, controlamos os personagens em pequenos cenários, exploramos ambientes detalhados e participamos de minigames simples que ajudam a reforçar os sentimentos daquela fase da vida. Em um momento estamos tentando manter o equilíbrio enquanto carregamos filmes; em outro, aprendendo o tempo certo de rebater uma bola de softball. Nenhuma dessas atividades é particularmente complexa, mas todas ajudam a criar intimidade com os personagens e com aquele universo.
Além disso, mesmo com movimentos limitados pela narrativa, Mixtape oferece pequenas liberdades que fazem diferença. Explorar quartos, observar detalhes dos cenários e simplesmente caminhar pelos ambientes ajuda a criar uma sensação de presença que um filme talvez não conseguiria alcançar da mesma forma. É justamente essa interação mínima que transforma a experiência em algo mais pessoal.
Uma trilha sonora que carrega a alma do jogo
Se existe algo que define Mixtape, é sua música. Confesso que normalmente trilhas sonoras não costumam me impactar tanto em jogos ou filmes. Especialmente músicas internacionais, que não fazem muito parte do meu cotidiano.
No entanto, aqui foi impossível não se deixar levar. A trilha não apenas acompanha a experiência: ela é a experiência. Faixas como More Than This e Yesterday’s Hero transformam cenas simples em momentos memoráveis.
Existe um cuidado impressionante em como cada música entra, cresce e conversa com o que está acontecendo na tela. Em muitos momentos, parecia que eu não estava apenas jogando, mas revivendo memórias que nem eram minhas.
E talvez seja exatamente isso que torna Mixtape tão especial. Mesmo que você não tenha vivido aquela adolescência americana retratada pelo jogo, existe algo universal ali. O medo do futuro, a vontade de prolongar momentos felizes, o receio de que amizades acabem quando a vida adulta começar… tudo isso atravessa a tela com muita naturalidade.
Para quem cresceu ouvindo bandas como Joy Division, Roxy Music, Smashing Pumpkins e Siouxsie and the Banshees, imagino que a conexão emocional seja ainda mais forte. Mas mesmo para quem não possui essa bagagem musical, o jogo consegue funcionar porque entende perfeitamente o sentimento que quer transmitir.
Um dos jogos mais bonitos dos últimos anos
Visualmente, Mixtape também é um absurdo. A direção de arte da Beethoven & Dinosaur já chamava atenção em The Artful Escape, mas aqui o estúdio parece ainda mais seguro da própria identidade artística. O jogo possui uma estética cartoon extremamente estilizada, com uso brilhante de iluminação, composição de cena e cores vibrantes que fazem cada ambiente parecer vivo.
E não é apenas bonito de maneira superficial. Existe muito cuidado na construção desses espaços. Os quartos dos personagens, por exemplo, refletem suas personalidades através de pequenos detalhes espalhados pelo cenário. Os NPCs possuem animações cheias de vida e reagem de maneiras diferentes ao jogador, criando uma sensação constante de que aquele mundo existe além da nossa presença.
Cada cenário parece pensado para provocar alguma sensação específica. Algumas cenas passam conforto; outras, nostalgia; algumas conseguem até gerar uma tristeza silenciosa sem precisar de uma única linha de diálogo. É um daqueles jogos em que frequentemente você desacelera só para observar tudo ao redor.
Vale a pena?
Sem exagero: até aqui, Mixtape é meu jogo do ano. E não porque ele reinventa a indústria ou apresenta mecânicas revolucionárias. Muito pelo contrário. Mixtape funciona justamente porque sabe exatamente o que quer ser.
O jogo não tenta agradar todo mundo, não tenta inflar sua duração artificialmente e nem se preocupa em justificar sua existência através de sistemas complexos. Ele só quer contar uma história. E faz isso de maneira extremamente humana.
Durante suas cerca de três horas de duração, eu joguei constantemente com um sorriso no rosto. Existe uma leveza muito bonita em toda a experiência, mesmo nos momentos mais melancólicos. Quando a experiência chega ao fim, a sensação não era de “acabou um jogo”, mas de estar se despedindo de pessoas que eu aprendi a gostar.
Claro, quem busca gameplay intensa, liberdade narrativa ou desafios talvez não encontre aqui o que procur. E a boa notícia é que temos muitos jogos bons este ano que podem suprir esta necessidade maior por ação, como Pragmata, Crimson Desert e Resident Evil Requiem, além de indies como Dead as Disco.
Mixtape é muito mais próximo de uma experiência sensorial e emocional do que de um videogame tradicional. Mas honestamente? Acho que isso faz dele ainda mais especial. Afinal, existe espaço pra tudo na indústria de games, principalmente quando o jogo é feito com qualidade.
Talvez Mixtape não seja o tipo de jogo que você normalmente gosta, mas é exatamente o tipo de jogo que vale a pena experimentar pelo menos uma vez. Porque algumas histórias não precisam durar dezenas de horas para permanecerem com você.




