Life is Strange Reunion e Mario Galaxy mostram que nem tudo precisa ser bom para fazer as pessoas felizes
A vida fica muito mais divertida quando você aceita que nem tudo que você gosta é uma obra de arte
Vamos começar a edição extra do Jornal dos Jogos de hoje com uma dura verdade: o povo gamer simplesmente AMA uma validação externa. Mesmo tendo uma indústria gigantesca e que dá inveja, a galera dos videogames ainda fica deslumbrada ao ver adaptações de games chegando ao cinema ao TV.
Não só isso, tem gente que fica feliz ao ver grandes estrelas de Hollywood dublando jogos e emprestando seus rostos para games, como um sinal de que a mídia é reconhecida “além de sua bolha”. Os jogadores que amam uma treta no Twitter/X também possuem, há uma década, o The Game Awards, uma premiação “nível Oscar” que sempre rende polêmica, mas garante uma estátua para simbolizar a validação de que jogo é bom.
No entanto, nada grita tanto “validação” quando as notas. Seja na média dos críticos do Metacritic ou nas reviews de usuários da Steam, muitos jogos acabam decolando ou morrendo por causa de um número ou um “Muito positivas” ao lado de seu nome. E essas avaliações, tanto de jornalistas quanto de jogadores, tem o seu valor. Mas o gamer precisa, urgentemente, aprender a desapegar.
Afinal, nem todo jogo é uma obra de arte, mas isso não significa que ele não pode ser divertido para você.
Life is Strange Reunion, Mario e a dualidade de público vs crítica
Quem acompanha o mundinho gamer com frequência já deve estar acostumado com o debate envolvendo notas da crítica e avaliações do público. Afinal, em alguns casos, a dissonância entre os dois grupos é tão grande que causa estranhamento.
Enquanto Crimson Desert rendeu muitos debates sobre o assunto em março, o mês de abril começou com discussões acaloradas sobre o tema. Um dos focos do incêndio é a nota do filme Super Mario Galaxy, que traz 43% de aprovação dos críticos no Rotten Tomatoes, enquanto 91% do público aprova o longa-metragem animado.
Pra quem curte jogos narrativos, a bola da vez a causar certa divisão é Life is Strange Reunion. O game da Deck Nine debutou com nota 73 no Metacritic nas avaliações dos críticos, enquanto o público garantiu uma média 81 no site, além de reviews “Muito positivas” na Steam e 4.76 estrelas, um score quase perfeito, na loja do PlayStation.
Logo de cara, essa discrepância já levanta dúvidas: afinal, alguém está errado nessa história? Os críticos estão sendo “comprados” pra falar mal do jogo/filme que eu gosto? Na verdade, a realidade é mais simples.
Em ambos os casos, estamos vendo obras que, sim, contam com problemas. Ainda assim, elas são feitas para atender sob medida quem importa: os fãs.
Por que os críticos acharam o filme do Mario e Life is Strange Reunion ruins?
Antes de mais nada, é importante ressaltar que “a grande mídia” ou “os críticos” precisam ser humanizados. A nota no Metacritic e o score do Rotten Tomatoes são formados por avaliações de pessoas tão humanas quanto eu ou você.
Em um mundo ideal, o caminho desse tipo de sistema de agregação de notas deveria ser o seguinte:
Um filme ou jogo recebe uma nota após avaliações escritas de maneira antecipada.
O jogador entra pra ver a nota, navega nas críticas e se aprofunda na opinião dos veículos que mais se identifica.
Infelizmente, pouca gente acaba chegando no segundo passo. Assim, a nota acaba reduzindo textos que podem explicar os motivos para um jogo ou filme não ser tão bom assim. Textos esses que poderiam ser úteis para os fãs e evitar frustrações.
A realidade é que, na maioria dos casos, não existe erro ou um grande complô contra obras amadas: o produto final pode, simplesmente, contar com falhas que se sobressaem a um olhar mais crítico. E se analisarmos bem, esse é exatamente o caso do filme do Mario e Life is Strange Reunion.
Não podemos falar sobre o longa-metragem do bigodudo porque ainda não o assistimos, mas o longa anterior é a prova de que a fórmula adotada pela Illumination não é unanimidade. Existem problemas narrativos que justificam o “hate” em cima do longa-metragem e não o colocam perto de outras obras consagradas do cinema de animação.
No caso de Life is Strange Reunion, temos mais propriedade para falar, pois já zeramos: o jogo não só chegou bugado, como também conta com uma história que recicla plots antigos com uma roupagem que se calça na nostalgia. Tudo isso continuando um dos games mais divisivos de toda a franquia.
Esses elementos acabam enfraquecendo a narrativa e deixando o jogo longe das origens da franquia, levando a série para um caminho que pode não agradar fãs mais antigos. Ou seja, mesmo que o retorno de Max e Chloe tenha agradado parte da comunidade, o jogo ainda conta com problemas.
O jogo das opiniões
Quando entramos no debate que envolve obras que amamos, é comum achar que as pessoas que estão falando mal estão erradas. A primeira reação é deixar a emoção vencer e pensar que os críticos fizeram besteira, principalmente em análises antecipadas.
No entanto, o melhor caminho para a felicidade é colocar a mão na consciência e manter a calma. Enquanto existem reviews que podem não ser tão precisas quanto deveriam, a realidade é que opinião é igual CUrtida: cada um tem a sua e pode dar o quanto quiser nas redes sociais.
No caso dos críticos que fazem reviews antecipadas, isso faz parte do trabalho, e as próprias empresas sabem e se aproveitam disso. A Square Enix não liberou cópias antecipadas de Reunion para nenhum crítico por um motivo: a empresa temia que o jogo fosse divisivo e isso afastasse o público — o que está completamente certo, se vermos as notas no Metacritic hoje.
Se os fãs soubessem que o jogo não era tão bom de antemão, podiam deixar de comprar o game e “jogar hate” na Deck Nine por vacilar mais uma vez. No entanto, ao liberar Reunion pra todo mundo praticamente ao mesmo tempo, a Square Enix driblou isso: as primeiras cenas do game focam em Chloe, o que agradou fãs da personagem e rendeu uma onda de reviews positivas logo de cara na Steam, garantindo uma impressão positiva antes do score do Metacritic.
No caso do Mario, as críticas antecipadas (e majoritariamente negativas) saíram cerca de 24 horas antes do lançamento do filme, o que serviu de combustível para os fãs mais ávidos. Assim, rolou o efeito rebote das críticas altamente positivas do público, gerando curiosidade até mesmo em quem não queria ver o filme logo de cara: afinal, é bom ou ruim? A melhor forma de descobrir é assistir.
Nesse tipo de jogo, tanto críticos quanto o público acabam virando peças de xadrez no tabuleiro de grandes empresas. E o segredo pra escapar é aceitar que, sim, as coisas que você gosta podem ser ruins.
É hora de aceitar que nem tudo é perfeito
Enquanto a guerra de opiniões é forte na internet, a iluminação está em aceitar que nem tudo é perfeito, mas pode ser fonte de felicidade. Afinal, tanto o filme do Mario quanto Life is Strange Reunion são bazucas mirando um público em específico: os fãs de cada obra.
No caso dos filmes do Mario, a Nintendo e a Illumination claramente querem apresentar o personagem para uma nova geração. Ao mesmo tempo, a obra também alimenta os pais de conteúdo nostálgico e que pode ressoar com os filhos.
O filme não precisa ser uma obra de arte ou uma revolução nas animações para alcançar esse objetivo. De vez em quando, o simples amálgama de referências já é suficiente para gerar aquela descarga de dopamina e agradar o público, mesmo que isso não seja uma experiência tão boa cinematograficamente falando.
Já em Life is Strange Reunion, a fanbase mais hardcore da franquia clamou por uma boa representação de Max e Chloe em um jogo, principalmente após os acontecimentos em Double Exposure. E como o novo jogo entrega exatamente isso, mesmo que de maneira questionável, a galera “Pricefield” já se sentiu muito bem atendida.
O poder da crítica
No entanto, apesar das histórias de sucesso com o fandom e a criançada, não dá pra esquecer que essas obras também contam com imperfeições. Para quem não tem a bagagem nostálgica ou simplesmente aprecia algo mais elaborado, a experiência não é algo genial e fora da curva.
É muito legal ver fãs ávidos defendendo obras que amam com unhas e dentes. No entanto, cair nesse conto às cegas pode te tornar numa das espécies mais chatas da internet: o defensor de empresa multibilionária.
No momento em que o fã aceita tudo que a empresa te oferece sem pestanejar, as coisas podem começar a dar errado.
No momento em que o fã aceita tudo que a empresa te oferece sem pestanejar, as coisas podem começar a dar errado. Um bom exemplo é a PlayStation, que dominou o mercado e achou que conseguiria emplacar jogos como serviço meia boca simplesmente porque os games chegariam com a capa azul e o selo de “PS5”.
O resultado? Jogos como Concord desagradaram os fãs da marca, que não engoliram calados o que estava sendo oferecido e fizeram a companhia repensar seu futuro nos jogos como serviço.
Por aqui no Jornal, nós somos muito críticos ao caminho que a franquia Life is Strange seguiu justamente porque amamos a franquia além do casal Max e Chloe. Enquanto os primeiros jogos tinham histórias densas e com escolhas impactantes, Double Exposure chegou com decisões rasas e uma narrativa totalmente esquecível, mas a Deck Nine evoluiu, e muito, com Reunion, mesmo após demissões e polêmicas internas no estúdio.
Ainda assim, o jogo claramente fica aquém dos games feitos pela Dontnod, principalmente por se calçar muito em nostalgia. Além disso, a Deck Nine segue usando um formato mais “chapa branca” no final, prezando por escolhas que sempre garantem um final que garante a possibilidade de uma sequência com os mesmos personagens.
Se ninguém falar sobre isso, a empresa tende a seguir esse mesmo caminho sempre e a régua não sobe. Em momentos como esse, as reclamações de críticos fazem muita diferença, sejam eles jornalistas ou não.
Um exemplo prático disso é Crimson Desert: o jogo chegou causando muita divisão entre fãs de longa data, críticos e pessoas que compraram ou não a ideia do game. O que a Pearl Abyss fez com isso? Ouviu as críticas, usou sua expertise em atualizar jogos live service e lançou diversos patches corrigindo reclamações comuns nas reviews de jogadores e da crítica especializada.
Com isso, Crimson Desert corrigiu problemas que jornalistas identificaram antes do lançamento e também situações que foram validadas pelos jogadores após o jogo ser liberado, como os controles confusos. Assim, literalmente todo mundo ganhou, principalmente quem está fora da discussão e só vai jogar o game daqui alguns anos, quando ele estiver em promoção e com o gameplay redondinho.
O segredo da felicidade
No fim das contas, a grande virada de chave está em parar de tratar gosto pessoal como uma tese que precisa ser defendida até a morte. Você não precisa convencer ninguém de que algo é bom pra poder gostar daquilo — e, mais importante ainda, não precisa que aquilo seja impecável pra te fazer feliz.
Porque, no fundo, a magia dos videogames (e do entretenimento como um todo) nunca esteve nas notas, nos prêmios ou na validação externa. Ela mora naquele momento simples em que você liga o jogo, dá um sorriso e pensa: “isso aqui é divertido pra caramba”. E, sinceramente? Já é mais do que suficiente.
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