Marathon não é uma corrida, é uma maratona - Review
Novo jogo da Bungie compensa paciência e resiliência, mas precisa que a PlayStation entenda seu conceito para sobreviver
Quando você abre a página de Marathon em qualquer plataforma, é comum confundir o game com um jogo online meio genérico. Apesar dos belos visuais que chamam a atenção logo de cara, o jogo ganhou fama por ser “o novo game como serviço da Bungie”, que foi comprada pela PlayStation na investida da empresa para consolidar projetos de longo prazo.
A descrição do game na Steam também não ajuda a apagar essa fama. Com várias imagens que podem gerar confusão logo de game, o jogo é descrito de um jeito que pode assustar. “Jogue como um Corredor biocibernético e explore a colônia perdida de Tau Ceti IV no FPS PvPvE de extração dos criadores de Halo e Destiny.”
Enquanto as credenciais da Bungie são renomadas para alguns jogadores, a sigla “PvPvE” pode assustar quem não está acostumado com jogos multiplayer. No entanto, como a gente já está acostumado com Overwatches e Fortnites da vida aqui no Jornal, testar o game não foi desafiador, mas uma jornada de descoberta.
Ficha Técnica
Jogo: Marathon
Desenvolvedora: Bungie/PlayStation Studios
Lançamento: 5 de março de 2026
Onde jogar: PlayStation 5, Xbox Series S/X e PC
Plataforma de teste: PC e Xbox Series X
Preço: A partir de R$ 164,90
A seguir, confira a review do Jornal com Marathon, realizada no PC, com uma key oferecida pela galera da Bungie e da Theogames. A análise também contou com apoio de uma versão de Xbox Series X cedida por empréstimo.
Não é uma corrida, mas uma Maratona
Quando você cai pela primeira vez em Marathon, que já te joga em um tutorial bem desafiador, seu primeiro instinto pode ser pegar a arma e matar todo mundo que aparece na sua frente. Com câmera em primeira pessoa, o game te joga em um planeta cheio de objetos coloridos, áreas rochosas e robôs assassinos como principal população.
Com tantas ameaças ao redor, é comum que a primeira reação seja simplesmente apertar o gatilho no primeiro momento de terror. Assim como em muitos jogos multiplayer, a programação normal do jogador é correr, conseguir o melhor loot possível e sobreviver matando geral.
No entanto, diferente de jogos como Fortnite e até outros shooters de extração, Marathon não é uma corrida, mas, ironicamente, uma maratona. Você não precisa gastar toda a sua energia tentando ser o melhor ou matando todo mundo. Na verdade, o objetivo aqui é outro: cadenciar o gameplay para sobreviver e ir mais longe na jornada.
Morra, reviva, tente de novo
Minhas primeiras horas com Marathon foram horríveis justamente porque pensei que o game era um shooter comum. Se você entra numa partida pensando em matar geral, com certeza vai se frustrar.
As coisas só começaram a fazer sentido para mim quando explorei Marathon além do game. O jogo conta com menus cheios de textos explicativos e ótimas narrações em português brasileiro, mas a interface é tão complexa que fui em busca de vídeos no Youtube, e acabei caindo em uma obra de arte.
No ano passado, a Bungie lançou um curta-metragem do jogo em parceria com Alberto Mielgo, diretor de a nimação conhecido por Love, Death & Robots. Na produção, acompanhamos a destruição de Tau Ceti IV e o momento em que encontramos o jogo: corredores, que são pessoas que morrem e são reimpressas em 3D, vão ao planeta para realizar trabalhos para grandes corporações.
Na história futurista do jogo, você é apenas um objeto que está perdendo a essência da alma enquanto realiza tarefas para uma megacorporação. Tudo isso em troca de itens para serem usados em novas incursões, sempre em busca de um loot melhor.
Quando olhamos pelo ângulo do personagem que você assume, independente da classe, o jogo entrega um estado de imersão gigante. Assim como na história do game, seu maior objetivo como jogador é ir até o planeta, buscar itens legais e voltar vivo. E se você não conseguir, uma nova versão do seu personagem é impressa em 3D para você tentar de novo.
Talvez o niilismo do game tenha batido forte demais por aqui, mas essa visão mudou tudo na hora de jogar. Em Marathon, a vida não tem valor, mas a sobrevivência é um grande recurso. Você não precisa correr para matar seus inimigos, mas precisa caminhar até o fim da partida para sair vitorioso.
E se você não conseguir, sempre existe a chance de tentar de novo. Talvez você perca uns itens no caminho, mas nada tem muito valor nesse mundo digital.
Uma incursão punitiva
A sobrevivência em Tau Ceti IV também ganha novos horizontes quando você começa a enfrentar seus perigos. O jogo conta com inimigos controlados por IA que são extremamente fortes, um ambiente que pode te matar a qualquer momento e limitações que dificultam a cura.
Com isso, cada movimento do jogador precisa ser calculado. Aqui, a estratégia em grupo é valiosa, pois cada membro da dupla ou trio precisa escolher bem as armaduras de corredor e o loot para garantir a sobrevivência da equipe.
Jogando sozinho, então, isso é ainda mais latente. Ao colocar os pés em Tau Ceti IV, o jogador precisa respirar, ver quais são seus objetivos e calcular o melhor jeito de alcançá-los. E eu garanto: muitas vezes, a melhor maneira de fazer isso é evitando confronto direto com inimigos humanos e robóticos.
Como o próprio conceito de Marathon aponta, o ciclo de gameplay envolve ir até o planeta, fazer coisinhas que vão desde quebrar vidros até resgatar objetos valiosos, e voltar para a nave. Nesse processo, porém, extrair com sucesso nem sempre é fácil, e você vai morrer. Muitas vezes.
Além da dificuldade imposta pelas máquinas e pelos outros jogadores, o próprio mundo do game é uma ameaça. E uma muito bela: Os cenários futuristas são coloridos e chamativos, incluindo até mesmo mudanças no clima. No entanto, o planeta traz ameaças que vão desde plantas venenosas até monstros que explodem no contato.
A pior parte nisso tudo é a demora para encontrar partidas. O game até possui crossplay, mas encontrar um lobby, mesmo jogando no solo, pode demorar até dez a quinze minutos, dependendo do horário que você jogar. Uma atualização chegou para ajudar nisso agora no fim de março, mas a demora ainda existe em alguns casos.
E a pior parte é que você nem consegue mexer nos menus enquanto a busca rola, só pode aceitar a dor e seguir aguardando em uma tela bonita, mas estática.
Ninguém vai te ajudar
Enquanto sobrevivência é a palavra que define Marathon, uma das partes mais interessantes no game é a falta de colaboração. Em tese, os jogadores na mesma partida poderiam se ajudar para todo mundo alcançar seus objetivos e todo mundo extrair com sucesso.
No entanto, a atmosfera tensa criada pelo game acaba impedindo isso: na primeira chance, outros jogadores vão atirar em você. Sério, eu joguei todas as vezes com chat de proximidade habilitado, sempre tentando contato com outros player. Resultado: todas as vezes acabei tomando um tiro antes mesmo de receber qualquer palavra em retorno.
Esse tipo de experiência torna Marathon um ótimo game multiplayer para ser jogado sozinho. Seja com ameaças robóticas ou outros jogadores, o título passa uma atmosfera constante de solidão e perigo, tornando as missões e os itens encontrados, por mais bobos que sejam, grandes tesouros — justamente da mesma forma que foi exibido no curta de apresentação da Bungie.
Jogando solo, Marathon passa uma atmosfera constante de solidão e perigo.
Tudo isso fica ainda mais forte quando levamos em conta o design do game. O jogo traz um visual único, realista e colorido. A combinação traz uma vibe cyberpunk diferenciada quando comparado a outros shooters online, tornado o game algo realmente peculiar e interessante. No entanto, o título pode ser, justamente, peculiar até demais.
Uma experiência complicada e que não é para qualquer um
Marathon fica muito legal quando você compra a sua premissa, aceita que morrer faz parte da experiência e que o jogo está longe da dopamina rápida entregue por outros títulos do gênero. No entanto, em um mundo onde um TiKTok de três minutos é um longa-metragem para várias pessoas, esse conceito pode ser desagradável para alguns jogadores.
Enquanto o gênero de tiro de extração já é um nicho, Marathon vai ainda mais longe. Além do visual peculiar e classes bem diferentes, o jogo conta com uma dificuldade consideravelmente maior que outros games similares.
Não bastasse isso, o game também conta com outras barreiras que podem afastar jogadores casuais. O sistema de contratos rende menus complexos e com microtextos, que não são legais de ler na TV da sala, por exemplo. Além disso, o próprio sistema de loot pré-partida pode ser complexo para quem está acostumado com outros jogos de tiro.
Essas barreiras tornam toda a experiência bem complexa logo no começo do jogo, que fica ainda mais cansativo quando temo que esperar diversos minutos para encontrar uma partida, seja no solo ou com squad fechado. Em alguns momentos, parece que o próprio game está contra você.
Se eu não tivesse que fazer a review do game, com certeza teria dropado Marathon nas primeiras horas para pedir reembolso na Steam — e com isso teria perdido uma das melhores experiências multiplayer que tive em 2026. Para um game que depende de jogadores fieis, ter uma barreira de entrada tão grande pode ser muito danoso.
Felizmente, a Bungie também está fazendo um bom trabalho expandindo e dando suporte para o game, tanto no gameplay quanto na lore. O título recebeu a atualização com os Crioarquivos, trazendo o endgame do jogo, além de diversas atualizações com base em feedback da comunidade.
Com isso em mente, a expectativa é que o jogo evolua para alcançar a sua forma definitiva com o passar do tempo, algo que também aconteceu com Destiny. No entanto, isso pode exigir a paciência de muitos executivos.
A Sony está pronta para isso?
Assim como todo grande jogo online, Marathon virou pauta por causa de seu número de jogadores desde o lançamento. Mesmo com reviews positivas de jogadores, o game teve um pico de 88 mil jogadores na Steam, mantendo uma média de 40 mil players nas semanas pós-lançamento.
Além das barreiras de gameplay que comentei acima, o jogo também é vendido por valores partindo de R$ 164,90 no PC — além de exigir PS Plus e Game Pass para jogar online nos consoles. Tudo isso sem contar que o título ainda possui um passe de batalha premium que vende mais itens dentro do game, que felizmente são cosméticos.
Como se trata de um jogo de nicho, faz sentido não esperar que o jogo tenha um grande público mas mantenha uma média de jogadores que sempre retornarão para uma nova run. A metáfora que usamos no gameplay é válida aqui também: enquanto títulos free-to-play, como o falecido Highguard, correm por um lançamento bombástico, Marathon está numa maratona, em que precisa manter seus jogadores fieis sempre engajados, pensando em um prêmio a longo prazo.
Criadora de Destiny, a Bungie já está acostumada com esse tipo de coisa. No entanto, resta saber agora se a Sony está preparada para esse tipo de abordagem. A PlayStation comprou o estúdio por por US$ 3,6 bilhões em 2022 e está numa má fase com jogos online, o que claramente coloca certa pressão em Marathon.
Ainda assim, com as características do game, Marathon definitivamente não vai fazer dinheiro infinito. Por outro lado, o jogo pode ser um bom exemplo de game com crescimento saudável e ganhos em longo prazo, isso se o mercado tiver paciência para isso — algo que, como mostram jogos como Highguard, está cada vez mais raro.
Vale a pena investir em Marathon?
Com seu design diferenciado e proposta única, Marathon é um dos jogos multiplayer mais diferentes que já tive o prazer de jogar. Seja solo ou em equipe, o game traduz muito bem a sua atmosfera peculiar no gameplay, algo que nem sempre acontece em jogos do tipo.
No entanto, a barreira de entrada do game é complicada. Além de a busca por partidas demorar em alguns casos, o jogo não facilita a vida dos novatos, o que pode ser um dos motivos para o título não ter milhões de jogadores — e tá tudo bem.
Se você curte jogos de extração e títulos com pegada experimental bem fora da caixa, vale a pena deixar Marathon em seu radar. Por outro lado, se você busca algo mais casual, talvez o game seja muita areia para o seu caminhãozinho, principalmente em seu estado atual.
Marathon é um título interessante justamente por aceitar o que ele é: algo bem diferente e que não é para qualquer um. Agora, resta esperar pra ver se a Sony também aceitará essa natureza rebelde do jogo em um mercado cheio de expectativas.











