Quem acompanha a nossa newsletter semanal de notícias já sabe: o ano de 2026 parece apocalíptico no mundo dos games. Entre ataques hacker, estúdios fechando, mudanças bruscas, crises e fracassos, a impressão que fica é que estamos sempre no olho de um furacão.
Quem frequenta as redes sociais, então, pode desenvolver uma crise de ansiedade ao pesquisar sobre qualquer game. Plataformas como o X, antigo Twitter, adoram empurrar conteúdos polêmicos sobre games para todo mundo, já que a “economia da atenção” em que vivemos adora uma controvérsia: afinal, brigar faz muito bem para os números e movimenta os algoritmos.
Atualmente, o alvo em questão é Marvel’s Wolverine. O título, lançado em 15 de setembro para PS5, virou tema de tantas críticas que pode até parecer que estamos diante da chegada de Satã à Terra. Com uma recepção mista por parte da crítica, o jogo vem recebendo desde críticas pertinentes, envolvendo gameplay e narrativa, até o clássico “virou woke”.
Após jogarmos o título com uma chave cedida pela PlayStation, notamos que a realidade é outra. O game protagonizado por Logan é apenas um produto medíocre que chegou em um momento complexo para a indústria, sendo, definitivamente, um dos jogos já feitos.
Ficha Técnica
Jogo: Marvel’s Wolverine
Lançamento: 15 de setembro de 2026
Onde jogar: PlayStation 5
Plataforma de teste: PlayStation 5
Desenvolvedora: Insomniac Games
Publicadora: Sony Interactive Entertainment
Preço: R$ 399,90
Classificação indicativa: 18 anos
Wolverine faz tudo certo — até demais
À primeira vista, Marvel’s Wolverine pode parecer um jogo excelente. Com gráficos decentes, o título traz a expertise da Insomniac Games, responsável pelos jogos de Spider-Man para PlayStation, em um novo projeto focado em história, e, mesmo com o estúdio tendo sofrido um ataque hacker que atrapalhou o desenvolvimento, o arroz com feijão foi feito com cautela aqui.
Marvel’s Wolverine traz um gameplay que funciona, uma narrativa decente que lembra filmes do MCU e visuais dentro dos padrões esperados do estúdio. O problema é que o título não se esforça para ir além disso — em nenhuma dessas frentes.
O gameplay de ação do jogo foca em ataques básicos e pesados na ofensiva, com golpes especiais que podem ser desbloqueados com o tempo e sistemas de esquiva e parry para a defesa. O título também conta com segredos escondidos em portas, com desafios extras que ajudam na progressão e na evolução do personagem.
O problema é que, independentemente da dificuldade selecionada, a jogabilidade pode se tornar repetitiva rapidamente. Enquanto os chefes até que são legais, os inimigos não contam com muita variedade, o que pode fazer o dedo responsável por apertar o quadrado cansar depois de um tempo.
Aliado a isso, o jogo também não abre muito espaço para variedade em sua exploração. Enquanto o título acerta ao trazer diferentes cenários em seus 30 capítulos, Marvel’s Wolverine conta com colecionáveis e as já mencionadas portas de Provações, que oferecem desafios opcionais, mas até mesmo esses extras possuem marcadores que facilitam a busca.
É válido ressaltar que Marvel’s Wolverine definitivamente não “se joga sozinho”. Por outro lado, o game definitivamente pega o jogador pela mão e o leva até vários objetivos, e a pior parte é que, quando o jogo não faz isso, você possivelmente vai ficar preso em uma parede invisível ou receber a mensagem para “voltar para a área da missão”.
Um game single-player com rastros de mundo aberto
As marcações com cores fortes e os auxílios adotados pela Insomniac Games causam estranheza na fórmula single-player de Marvel’s Wolverine. No entanto, esses elementos claramente possuem uma explicação: a experiência do estúdio com jogos de mundo aberto.
Enquanto o jogo traz uma identidade própria, a fundação de Marvel’s Wolverine ainda é bastante similar ao que temos em outros títulos da empresa. Seja nas lutas ou nas missões de perseguição, dá para visualizar a veia de outros projetos da companhia invadindo lugares que não precisavam dela.
Em jogos como Spider-Man 2, por exemplo, o uso de marcadores visíveis se faz extremamente útil, já que o jogador está sempre lidando com muitos elementos na tela. Por outro lado, a experiência entregue em Wolverine é mais contida, o que gera um contraste capaz de causar estranheza e tirar parte da imersão durante o gameplay.
Alguns jogadores mais exploradores também encontraram áreas mais abertas dentro do jogo, o que mostra que, talvez, em algum momento, Marvel’s Wolverine tenha sido pensado como um game de mundo aberto. Ainda assim, o resultado final é outro, e a Insomniac definitivamente precisava de mais tempo para deixar tudo redondinho.
Exemplo disso é o polêmico faro de Logan, que, no lançamento, exibia uma trilha azul marcada e amplamente visível para guiar o jogador. Depois das críticas da comunidade, a empresa atualizou o game e deixou o efeito mais sutil e melhor, mostrando que um feedback construtivo sempre faz bem.
O grande problema, no entanto, é que o título conta com bases estruturais que podem render polêmica e dividir jogadores, principalmente considerando o preço de R$ 400.
Uma história que não fede nem cheira
Um dos pontos mais polêmicos de Marvel’s Wolverine durante o lançamento foi a sua duração: por aqui, conseguimos terminar o game em cerca de 12 horas. Ainda assim, é válido ressaltar que não dá para medir qualidade por minutos, principalmente em uma indústria repleta de promoções e assinaturas que barateiam os games com o tempo.
Meu maior problema com Marvel’s Wolverine foi justamente sua história ter gosto de pipoca de cinema. Mesmo com classificação para maiores de 18 anos, a narrativa não ousa muito além de mostrar algumas cenas com uma quantidade a mais de sangue na tela.
Seguindo a linha de Homem-Aranha, a empresa apostou em uma narrativa original na qual Logan faz parte da Equipe X, liderada por Nathaniel Essex. Ao lado de mutantes como Mística, Jean Grey e Dentes de Sabre, ele luta contra as Indústrias Trask, que buscam identificar e aniquilar mutantes.
Apesar da temática interessante, o jogo falha em realizar conexões com temas importantes por causa de sua superficialidade. O gameplay de matar bonecos e desmembrar robôs parece ganhar mais atenção do que uma narrativa que tinha potencial para roubar a cena.
O título deixa abertura para uma sequência ou um universo compartilhado, algo que pode acontecer no futuro. Afinal, com cerca de 1,9 milhão de cópias vendidas no lançamento, certamente a Insomniac ainda deve trabalhar com heróis da Marvel no futuro — e vamos torcer para vermos uma história melhor.
O jogo que poderia ser
A cada passo dado como Logan em Marvel’s Wolverine, o que mais sentia era como o game poderia — e deveria — ser melhor. A produção apresenta tudo o que um jogo de alto orçamento precisa ter, sendo, definitivamente, um título que funciona.
No entanto, o game não desenvolve nada da maneira que deveria, garantindo uma experiência limitada e que deixa um gosto de potencial perdido. Uma das especulações que rondam o projeto é que a Insomniac teria cortado fases nas quais o jogador controlaria Jean Grey — possivelmente por causa da má recepção aos estágios com Mary Jane em Spider-Man 2.
Enquanto não dá para confirmar nada sem um parecer do estúdio, posso afirmar que o jogo seria infinitamente mais legal com fases não só de Jean Grey, mas também com todos os membros da Equipe X. Dilacerar inimigos com a força bruta de Dentes de Sabre daria uma variada no gameplay de Wolverine, enquanto Mística poderia trazer fases de stealth e tiroteios.
Essa possibilidade mostra como seria interessante ver um jogo dos X-Men feito com a qualidade técnica do estúdio. Ainda assim, diante das limitações apresentadas em Wolverine, já fico com um certo receio de ver isso acontecendo no futuro.
Vale a pena?
Marvel’s Wolverine tem um gameplay que funciona e uma narrativa decente, acompanhada de uma dublagem em português brasileiro bem feita e diversos recursos de acessibilidade. Como produto, o jogo entrega uma experiência que, definitivamente, funciona.
No entanto, no mercado atual em que estamos, um jogo que funciona claramente não é o suficiente por R$ 400. Com GTA 6 na esquina e experiências single-player deslumbrantes na mesma faixa de preço, como 007 First Light, Marvel’s Wolverine acaba sendo ofuscado.
Até mesmo revisitar jogos mais antigos, como Rise of the Tomb Raider e a trilogia Batman Arkham, pode ser uma opção interessante enquanto esse preço não baixa. No entanto, quando o valor cair ou o jogo entrar na PS Plus, certamente vale fazer o download — até para vocês, queridos leitores, tirarem suas próprias conclusões sobre o jogo mais divisivo do ano.
Por enquanto, é melhor esperar a Insomniac usar o fator de cura e ir polindo o game, que certamente só ficará melhor com atualizações, feedbacks construtivos da comunidade e um preço mais em conta.
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