Star Fox, Ocarina of Time e mais: por que temos tantos ramakes no horizonte?
Com Star Fox e até Ocarina of Time voltando, a importância (e polêmica) dos remakes está mais alta do que nunca.
Com o recente anúncio do remake de Legend of Zelda Ocarina of Time, o lançamento próximo de Star Fox e Assassin’s Creed Black Flag Resynced se aproximando, fica visível que a “Era dos remakes” está longe de entrar em declínio. Contudo, o anúncio da volta de Fox McCloud em grande estilo no Switch 2, bem como o “Link realista” da Nintendo Direct, reacendeu uma polêmica que vai além da nostalgia.
Não é nenhuma novidade que grandes desenvolvedoras tem investido em peso nos últimos anos em remakes de franquias amadas. No entanto, os anúncios recentes deixam uma dúvida: será que as empresas não estão indo longe demais em alguns casos?
Na crista da onda dos remakes
Enquanto jogos como Star Fox e Ocarina of Time são amados e movimentam fãs online, o retorno desses jogos não é uma novidade. No caso de Star Fox, uma parcela de entusiastas da franquia até manifestou incômodo nas redes por se tratar do terceiro remake do mesmo jogo.
O próprio jogo de Nintendo 64 é uma espécie de reedição do título original de Super Nintendo. Depois disso, o game acabou passando pelo 3DS em 2011 e pelo Wii U, com Star Fox Zero, em 2016.
O anúncio, portanto, trouxe à tona a reivindicação dos fãs sobre a necessidade de haver um remake do jogo, despendendo recursos e esforço dos desenvolvedores, que poderiam ser direcionados para um novo jogo da franquia ou até uma nova IP. O que nos leva a um velho questionamento que já apareceu em fóruns da internet: Remakes são realmente necessários?
A importância dos remakes
A uma primeira vista, especialmente quando olhamos para casos como Ocarina of Time, a resposta parece ser afirmativa. Afinal, existem títulos que não estão mais acessíveis ao grande público e presos em consoles antigos, que, por vezes, tiveram um baixo alcance no público geral.
O dilema da acessibilidade vai muito além de simplesmente deixar disponível um produto, mas também envolve questões como legado e preservação. Hoje em dia há uma preocupação com a longevidade de jogos antigos, que podem se perder para sempre.
Os títulos podem se tornar injogáveis por exigirem recursos de rede que eventualmente deixam de estar disponíveis. Além disso, certos títulos podem se tornar raros pelo número limitado de cópias físicas que não são mais encontradas com facilidade.
Há até campanhas e mobilizações na internet para que a indústria modifique suas práticas em prol de uma maior continuidade de jogos, como o caso da Stop Killing Games. Em linhas gerais, a campanha traz conscientização das práticas predatórias da indústria que não priorizam o legado dos videogames, mas o lucro imediato — o que por vezes pode acabar por “matar” um jogo no futuro.
No entanto, isso é assunto para outro artigo — voltamos aos remakes. Para além do legado, há também o alcance de franquias, especialmente aquelas que se tornaram ícones no passado, mas já não necessariamente conversam com as novas gerações nos dias de hoje.
O remake também tem uma aura de “consagração” ou importância. Ele serve como um monumento histórico que atesta o impacto que aquele jogo específico teve em sua época. Assim como as estátuas expostas em praça pública (sejam elas polêmicas ou não), o remake chama a atenção daqueles que não viveram aquele período e acabam atraindo não só pela sua qualidade, mas também pela curiosidade inerente do ser humano.
Quem nunca se deparou com um jogo aclamado e pensou “acho que eu deveria jogar, já que todo mundo gosta desse jogo”? Um relançamento, com novos visuais e mecânicas mais modernas, pode quebrar a barreira do estranhamento que impede os jogadores mais novos de se deslumbrar com aquilo que os mais velhos já sabem que é maravilhoso.
É como o caso do remake de Resident Evil 2 ou de Final Fantasy VII: Rebirth. Os títulos chegaram refinando o visual e gameplay, deixando agradável para todos que não viveram a época em que os gráficos 3D eram uma novidade e as desenvolvedoras estavam ainda aprendendo soluções para a linguagem tridimensional.
Ainda falando de Final Fantasy VII Rebirth, esse é um exemplo que joga à favor do tema. Afinal, essa é a prova que um remake não é apenas capaz de rememorar o sucesso de outrora, mas também reimaginar as próprias tramas da narrativa original, trazendo novo significado e frescor para o novo jogo.
Com essa abordagem, o jogo encanta tanto o jogador novo quanto o veterano, que pode experimentar a sensação de surpresa e incerteza que só é possível ao experimentar algo genuinamente inédito. Com as novas tecnologias e tendências, as narrativas também se aprofundaram, permitindo maior desenvolvimento das histórias, o que era algo muito mais limitado há 30 anos.
Assim, as histórias do passado, mais uma vez, tem a chance de nos tocar ao trazerem temas, histórias e interpretações mais desenvolvidas e profundas do que em sua primeira versão. O remake deixa de ser algo simplesmente visual para entregar algo que conversa com diferentes público.
Os pontos negativos dos remakes
No entanto, é claro que nem tudo são flores: existem muitos pontos negativos que também são levados em consideração no debate sobre os remakes, especialmente por aqueles que criticam a prática.
O primeiro ponto mais chamativo são as políticas de precificação impostas à tais jogos. Pagar o preço cheio em tempos em que um jogo pode custar ⅕ do salário mínimo não é nada simples de se fazer por um jogo que teve seu lançamento original há mais de 10 anos. Isso corrobora para a questão do tempo e investimento despendidos para refazer algo que já existe, como apontado no início do texto.
É importante ressaltar que isso não é regra: o novo remake de Star Fox, por exemplo, não terá preço cheio. No entanto, o já mencionado Assassin’s Creed Resynced, por outro lado, vai dar as caras no mercado com valores partindo de R$ 300.
Em outro aspecto, há a reivindicação de alguns que o esforço de um remake pode acabar por não fazer jus ao material original, levando a alterações significativas em estilos gráficos e mecânicas das quais muitos fãs têm apego emocional. E é aqui que chegamos ao argumento mais forte daqueles que são contrários aos remakes:
Jogos perfeitos não precisam ser refeitos, pois são atemporais.
Quando comparamos os jogos com outras mídias, como cinema, teatro, livros e artes plásticas, podemos entender melhor o assunto. Não há reedição de quadros como “Guernica” de Pablo Picasso, ou uma nova versão do teto da Capela Sistina, pois aquela obra ainda serve ao seu propósito original, e continua impactando o tempo presente.
Um jogo bom precisa de remake?
Contudo, é importante notar que existe uma peculiaridade importante nos games. Enquanto outras expressões artísticas trazem suporte contínuo e sem defasagem ao longo dos anos, no caso dos jogos, a obsolescência é veloz e irrefreável.
Ainda assim, há o entendimento de que, se um jogo é de fato bom, ele também é, por definição, atemporal. Dessa forma, o título é capaz de atingir a todos independente da época e por quem for jogado, sendo necessário, no máximo, um port para consoles mais modernos.
Um exemplo emblemático desta discussão é Chrono Trigger. O título é um dos jogos mais aclamados da história e foi feito por aquele que é literalmente chamado de time dos sonhos do desenvolvimento de games.
O “Dream Team”, composto por Akira Toriyama, Nobuo Uematsu, Yūji Horii, Kazuhiko Aoki e Hironobu Sakaguchi, é uma reunião do que havia de melhor no Japão e no mundo em termos de jogos e arte no início dos anos 90. E o resultado dessa reunião é um dos jogos mais aclamados de todos os tempos — e que segue livre de remakes.
Chega a ser irônico que a narrativa de um jogo sobre viagem do tempo permaneça atual mesmo após 30 anos de seu lançamento. No entanto, esse é um dos aspectos que faz com que Chrono Trigger resista ao teste do tempo como clássico absoluto.
O que aprendemos com esse e outros jogos “intocáveis” é que estes títulos se tornaram mais do que simples games, cativando e impactando os jogadores que os experimentaram em um nível tão profundo que foi estabelecida uma forte conexão entre a obra e o interlocutor. A verdade é que, para esses casos, o desafio não é apenas técnico, sendo uma mera transposição de elementos técnicos para uma linguagem mais moderna.
O verdadeiro desafio está em refazer com sucesso, nos tempos de hoje, todos os pequenos e grandes detalhes que tocaram e emocionaram os jogadores de 30 anos atrás - agora com uma bagagem de vida muito mais robusta e complexa, e, ao mesmo tempo, agradar as novas e antigas gerações. Tendo em vista o quão pessoal essas experiências podem se tornar, fica evidente que trabalhar com produtos tão amados sem “macular” tudo que o fez ser amado é uma tarefa impossível, já que cada um absorve e interpreta o mundo de um jeito único.
Um debate complexo e que não vai embora tão cedo
No auge do sucesso, os remakes estão longe de serem um assunto fácil envolvendo uma solução moderna do mercado de games que simplesmente “replica fórmulas de sucesso do passado”. Há muito mais elementos envolvidos, que tornam as possibilidades praticamente infinitas.
Quando se trata de jogos aclamados, esse cenário se agrava, envolvendo também a paixão das pessoas, tornando o tema ainda mais subjetivo. Contudo, é impossível ignorar que há exemplos de sucesso. Em alguns casos, Como Final Fantasy VII, os remakes conseguiram ao máximo respeitar as experiências individuais dos fãs e, ao mesmo tempo, trazer um frescor de ar puro.
Essa abordagem cuidadosa e com tom de renovação permite que novas gerações, que não tiveram a oportunidade de desfrutar de tais títulos no passado, finalmente tenham a oportunidade de conhecer a obra — mesmo que em uma nova versão. No entanto, em um mercado com tantos remakes, é difícil de dizer se projetos como o novo Ocarina do Tempo e Star Fox serão, no fim das contas, memoráveis.
A discussão sobre a necessidade dos remakes vai muito além de um jogo “precisar” ou não de um retorno triunfal com roupagem de projeto tripo A. A verdadeira pergunta é se remakes serão capazes de vencer o teste do tempo e se tornarem clássicos eternos — ou serão substituídos por outros remakes daqui 10 anos.
Particularmente, não tenho problemas com remakes. No entanto, há casos em que a simples ideia de realizar tal feito se torna tão complexa que beira o impossível.
Jogamos e continuaremos jogando remakes pelos próximos tempos — até porque a indústria já não dá mais escolha com tantos lançamentos do tipo. No entanto, o que deve ser realmente colocado na balança é o propósito para realmente avaliar a necessidade de cada projeto.
Existe um interesse de elevação da obra, ou há apenas a motivação financeira por trás dos esforços da iniciativa? Fazendo referência ao modernismo brasileiro dos anos 20, devemos nos perguntar se a obra está sendo canibalizada ou passando pelo processo de antropofagia.
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