A FromSoftware é conhecida mundialmente por criar experiências marcadas pelo desafio, pela exploração e por combates que exigem bastante atenção dos jogadores. Nos últimos anos, porém, a desenvolvedora também vem flertando cada vez mais com o multiplayer. Depois de experimentar uma estrutura cooperativa mais focada em Elden Ring Nightreign, o estúdio prepara uma proposta ainda mais diferente com The Duskbloods, novo exclusivo do Nintendo Switch 2 que coloca vampiros, criaturas bizarras e combates entre jogadores no mesmo caldeirão.
O Jornal dos Jogos teve a oportunidade de participar de duas sessões do teste de rede de The Duskbloods e, apesar do tempo limitado, a primeira impressão foi bastante positiva. Ao mesmo tempo, ficou claro que o jogo não parece ter sido feito para qualquer jogador.
A quantidade de sistemas, regras, objetivos e possibilidades durante as partidas pode assustar inicialmente, mas também cria uma experiência peculiar que tem tudo para agradar quem gosta de descobrir as particularidades dos jogos da FromSoftware.
Uma estética gótica cheia de personalidade
Antes mesmo de entrar nos detalhes da jogabilidade, The Duskbloods chama atenção pela sua direção de arte. O jogo aposta em uma estética gótica com forte temática de vampirismo, mas não se limita a reproduzir o visual sombrio que a FromSoftware já apresentou em outras oportunidades.
O mapa de Lowanro City, única região disponível no teste, mistura ruas sujas, construções vitorianas, uma enorme catedral, pântanos cobertos por névoa, esgotos venenosos, telhados e uma grande ponte que atravessa a cidade. Conforme as fases avançam, a região também vai ficando progressivamente mais sombria, reforçando a sensação de estar diante de uma cidade que poderia muito bem ter saído de um pesadelo.
Ao mesmo tempo, os personagens são talvez o elemento mais curioso desse universo. Os chamados Consangre (Bloodsworn) possuem visuais completamente diferentes entre si, indo de figuras mais tradicionais a personagens que parecem ter saído de um sonho febril. É difícil olhar para Zork, por exemplo, um guerreiro com uma enorme armadura e uma espécie de traje de mergulho equipado com propulsor, e não ficar curioso para descobrir que diabos está acontecendo naquele mundo.
E essa personalidade também aparece nos inimigos e nas criaturas espalhadas pelo mapa. Existe uma familiaridade com o trabalho anterior da FromSoftware, mas The Duskbloods consegue construir uma identidade própria.
O Switch 2 dá conta do recado
A experiência técnica também foi uma surpresa positiva. Durante as duas sessões do teste de rede, foi possível jogar sem ficar pensando constantemente na plataforma em que o título estava rodando — o que, para um jogo com mapas grandes, muitos personagens e batalhas caóticas, é um ótimo sinal.
The Duskbloods mira os 60 fps no Switch 2, embora a taxa não seja completamente estável. Em momentos com muitos jogadores, inimigos e efeitos na tela, algumas quedas de desempenho podem aparecer. Ainda assim, elas não chegaram a comprometer a experiência durante o teste.
É uma demonstração interessante do que o novo console da Nintendo consegue fazer. Visualmente, o jogo apresenta uma qualidade bastante próxima do que se espera de uma produção recente da FromSoftware, enquanto mantém uma experiência suficientemente fluida para que o desempenho não seja uma preocupação constante.
Uma evolução bastante peculiar do combate da FromSoftware
Quem já jogou Dark Souls, Bloodborne ou Elden Ring vai reconhecer rapidamente a base de The Duskbloods. O combate ainda envolve gerenciamento de espaço, esquivas, bloqueios, ataques precisos e leitura dos movimentos dos adversários. Só que a FromSoftware decidiu acelerar bastante as coisas.
A movimentação é muito mais vertical e dinâmica, com corrida infinita, saltos carregados, quatro saltos consecutivos e até um air dash. Isso permite atravessar o mapa rapidamente, subir prédios, alcançar telhados e mudar de posição no meio de um confronto.
Armas de fogo e ataques à distância também fazem parte da equação, enquanto cada Consangres possui habilidades próprias que alteram completamente a maneira de jogar. O resultado é algo que, em determinados momentos, se aproxima mais de um character action game do que da experiência tradicional de um Souls.
O sistema de combate ainda possui bloqueio e parry, sendo que um bloqueio realizado no momento certo pode abrir espaço para contra-ataques. Também existe um uivo capaz de atordoar inimigos durante a janela de parry.
Quando um adversário fica vulnerável, é possível morder seu pescoço para causar bastante dano e recuperar vida. Contra inimigos mais fracos, essa mordida ainda pode transformá-los em aliados temporários. Ou seja, existe bastante coisa acontecendo ao mesmo tempo, o que deixa tudo bem dinâmico.
Seis Consangres para experimentar
O teste de rede disponibilizou seis Consangres, e a FromSoftware já confirmou que a versão completa terá pelo menos uma dúzia de personagens. Cada um possui armas, habilidades, atributos e formas diferentes de contribuir durante uma partida.
Albert: é o personagem mais equilibrado e funciona como uma espécie de porta de entrada para o sistema. Usa uma espada e uma submetralhadora, combinando ataques corpo a corpo e à distância. Sua habilidade Blood Blade dispara uma lâmina feita de sangue.
Bloodhound Jan: aposta em uma grande machado e poderes de fogo. Seus ataques são mais pesados, mas ele consegue recuperar vida ao acertar golpes fortes. Também possui habilidades que aumentam sua velocidade de esquiva e permitem espalhar ataques de sangue pela área.
Trang Lanh: é a personagem mais ágil do grupo. Usa uma lâmina circular que pode ser arremessada e consegue ficar invisível por um período limitado. Ao alcançar o nível 12, passa a invocar uma gigantesca serpente para causar dano e empurrar inimigos.
Sniper Layla: combina duas lâminas com um rifle de longo alcance. A personagem funciona quase como uma mistura de Soulslike com jogo de tiro em terceira pessoa e ainda consegue sacar uma enorme metralhadora Gatling do próprio corpo.
Senator Samir Patres: utiliza uma espada fina e um anel mágico capaz de invocar um pássaro espectral. Seu repertório fica ainda mais absurdo quando ele pode se transformar em um dinossauro carnívoro para atacar os adversários.
Zork: o grandalhão do grupo. Seu traje de mergulho possui um propulsor que permite voar rapidamente contra os inimigos e um canhão capaz de disparar mísseis. É provavelmente um dos personagens menos acessíveis no começo, mas também pode ser extremamente poderoso nas mãos certas.
Essa variedade é importante porque The Duskbloods não parece querer que todos joguem da mesma maneira. Aprender o funcionamento de cada Consangre será essencial, especialmente quando o confronto contra outros jogadores começar.
Um battle royale com regras bem diferentes
Quando você escolhe seu personagem e vai pra batalha, é aqui que The Duskbloods fica realmente interessante — e também mais complicado. As partidas reúnem oito jogadores, que precisam acumular pontos de Virtude para sobreviver às diferentes fases da partida. Uma partida completa dura aproximadamente 30 minutos e é dividida em três grandes fases de cerca de oito minutos cada.
Todo mundo passa pela primeira fase. Depois, os dois jogadores com pior desempenho são eliminados ao final da segunda. Na terceira, outros três ficam pelo caminho. Os três sobreviventes seguem para o confronto final, chamado Moon Blood Bestowal, uma batalha PvP em uma arena fechada.
Ou seja, você explora o mapa, realiza batalhas e sobrevive sem precisar fugir de uma zona da morte, mas acumulando pontos que te deixam vivo no final da contagem. E a grande sacada é que matar os outros jogadores não é necessariamente a melhor maneira de vencer.
Durante as fases, existem diversas maneiras de conquistar Virtue:
Bloodfang Virtue: obtida ao derrotar inimigos controlados pelo computador.
Collector Virtue: conquistada ao coletar itens espalhados pelo mapa.
Flame Virtue: obtida ao encontrar brasas especiais que aparecem em regiões determinadas aleatoriamente.
Repulsion Virtue: recebida ao derrotar os poderosos Trespassers espalhados pelo mapa.
Pledge Virtue: conquistada ao capturar pontos durante os eventos de Ritual.
Sword Virtue: obtida ao derrotar outros jogadores dentro das áreas de Ritual.
Sigils: objetivos especiais ligados a cada Consangre que oferecem uma maneira adicional de conquistar Virtue.
Essa variedade transforma a partida em uma espécie de corrida pelo melhor desempenho, e não simplesmente em um mata-mata.
Quando o PvP finalmente aparece, o caos começa
Os momentos mais tensos acontecem durante os Rituais. Na segunda metade das fases II e III, uma região do mapa é marcada como Local de Ritual e passa a ter vários pontos de captura.
Para conquistar um ponto, é preciso permanecer pressionando o botão durante alguns segundos. O problema é que você fica completamente vulnerável enquanto faz isso. Outro jogador pode aparecer, derrotá-lo e tomar o ponto para si, roubando também os pontos de Virtude.
É aí que The Duskbloods deixa de ser uma experiência de exploração e começa a parecer um battle royale propriamente dito. Você pode simplesmente continuar explorando, derrotando inimigos e coletando recursos, ou pode entrar na zona de Ritual, arriscar tudo em um confronto contra outros jogadores e tentar disparar no ranking.
E como morrer não significa ser eliminado imediatamente, existe espaço para experimentar e correr riscos. Assim, dá pra calcular os riscos e ver qual a melhor forma de seguir vivo até o final.
O jogo também possui eventos aleatórios capazes de alterar completamente o ritmo da partida. Em um deles, por exemplo, um dirigível aparece no céu e permite solicitar ataques aéreos que destroem tudo dentro de determinada área — inclusive quem chamou o ataque. Em outro, os jogadores precisam correr até o topo de uma construção para tocar um sino antes dos demais. São pequenas situações que fazem cada partida parecer diferente.
Um mundo que pede para ser explorado
Um dos elementos mais interessantes do teste foi perceber o quanto existe para descobrir no mapa. Lowanro City é dividida em regiões bastante diferentes, e cada uma pode oferecer vantagens específicas durante determinada fase. Há áreas com recursos especiais, locais que oferecem bônus para armas, regiões que aumentam a experiência dos Kin e pontos estratégicos que podem ser fundamentais dependendo dos objetivos daquele momento.
Os Vassalos também são importantes nesse processo. São companheiros NPC que podem ser encontrados pelo mapa e convocados para acompanhar o jogador durante a partida. Alguns são focados em combate, enquanto outros oferecem suporte, e eles também evoluem independentemente.
Tudo isso ajuda a criar uma espécie de construção de personagem temporária dentro de cada partida. Você começa relativamente fraco e vai ficando mais poderoso conforme derrota inimigos, ganha experiência e encontra recursos.
Cada Consangre ainda desbloqueia uma nova habilidade especial ao chegar ao nível 12, o que muda bastante suas possibilidades. Trang Lanh, por exemplo, começa com sua capacidade de ficar invisível, mas posteriormente ganha a possibilidade de invocar uma enorme serpente. Já o Senador pode simplesmente virar um dinossauro.
Exploração, PvP e cooperação no mesmo lugar
Apesar de todo o foco no multiplayer competitivo, The Duskbloods não transforma os outros sete jogadores em inimigos obrigatórios. Durante a exploração, é possível encontrar Invasores, inimigos extremamente poderosos que podem consumir bastante tempo para serem derrotados.
Nesse momento, jogadores podem se unir temporariamente para enfrentar a ameaça, e todos os participantes recebem Virtue caso o grupo consiga vencer. Também existe a possibilidade de jogar em duplas, com dois jogadores compartilhando os pontos de Virtude e avançando juntos para um confronto final entre as duas melhores equipes.
Essa liberdade torna o ritmo das partidas bem interessante. Em determinado momento, você pode estar sozinho explorando uma área, depois encontrar outro jogador e decidir cooperar contra um inimigo poderoso. Minutos depois, acaba lutando contra essa mesma pessoa em um Ritual.
Liberdade também pode gerar frustração
Essa estrutura é bastante divertida, mas também pode ser uma das principais fontes de frustração de The Duskbloods. Como os jogadores têm liberdade para escolher seus próprios caminhos e objetivos, nada impede que alguém mais agressivo decida caçar outros Bloodsworn logo no começo da partida.
Isso pode acabar prejudicando quem prefere explorar o mapa, evoluir seu personagem ou simplesmente esperar pelos momentos certos para entrar em combate. Além disso, a tradicional dificuldade da FromSoftware continua presente.
É preciso entender as habilidades dos personagens, aprender a movimentação, saber quando atacar e reconhecer o que cada adversário é capaz de fazer. O problema é que tudo isso acontece enquanto sete outras pessoas estão correndo pelo mapa.
Uma primeira impressão bastante positiva
The Duskbloods é uma experiência difícil de definir, e talvez esse seja justamente seu maior charme. A FromSoftware pegou a base de seus Soulslikes, adicionou movimentação extremamente vertical, armas de fogo, habilidades especiais, exploração, PvE, PvP, cooperação, progressão durante as partidas e uma estrutura inspirada em jogos de tabuleiro e RPGs de mesa.
O resultado é complexo, mas não necessariamente confuso depois que suas regras começam a fazer sentido. Minha primeira impressão depois do teste de rede é bastante positiva. Mesmo carregando características reconhecíveis da FromSoftware, The Duskbloods parece interessado em fazer algo diferente, e a combinação de sistemas cria momentos que dificilmente seriam possíveis em um Dark Souls ou Bloodborne tradicional.
Ainda fica a dúvida sobre o quanto desse universo será explorado fora das partidas. A FromSoftware já mencionou recursos de progressão, personalização e conteúdo de história no hub chamado Casa Noturnal, mas ainda não revelou todos os detalhes. No entanto, seria um desperdício não aproveitar um mundo tão peculiar em algum tipo de experiência narrativa mais robusta.
De qualquer forma, se a proposta continuar sendo essencialmente multiplayer, ela tem potencial para encontrar seu público — principalmente se o preço for convidativo. The Duskbloods claramente não parece ter sido feito para quem procura uma experiência simples ou imediatamente acessível.
Ainda assim, para quem gosta de descobrir sistemas, dominar personagens e mergulhar em mundos estranhos e cheios de segredos, a nova aposta da FromSoftware pode ser uma das experiências mais curiosas do Switch 2.
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