Acessibilidade nos jogos entra no radar da indústria e deve ser tendência em 2026
Como premiações de 2025 colocaram inclusão no centro do design de jogos e o que esperar para os próximos anos
Em 2025, a acessibilidade deixou definitivamente de ser um assunto periférico para ocupar um espaço central nas principais discussões da indústria de games. O que antes aparecia como um diferencial pontual agora surge como critério de excelência, reconhecido publicamente por premiações de grande alcance e também por eventos especializados.
Do Game Awards até premiações menores, a acessibilidade nos games está cada vez mais presente em momentos prestigiados da indústria, e esse movimento não acontece por acaso. Ele reflete uma mudança estrutural na forma como jogos estão sendo pensados, desenvolvidos e avaliados.
Acessibilidade no centro das grandes premiações
Os sinais dessa virada ficaram evidentes nas maiores vitrines do setor. O The Game Awards concedeu o prêmio de Inovação em Acessibilidade a DOOM: The Dark Ages, um título que conseguiu expandir o conceito de acessibilidade em um gênero historicamente associado a alta velocidade, precisão extrema e barreiras de entrada significativas.
O reconhecimento mostra que até experiências intensas e tradicionalmente “hardcore” podem — e devem — ser pensadas para públicos mais diversos. E o reconhecimento não para por aí.
No Japão e na Ásia, o PlayStation Partner Awards Japan Asia também deu destaque ao tema ao premiar Monster Hunter Wilds e Like a Dragon: Pirate Yakuza in Hawaii. Dois jogos com propostas muito diferentes, mas que compartilham um compromisso claro em oferecer opções que respeitam limitações motoras, sensoriais e cognitivas, sem comprometer a identidade de suas experiências.
Categorias dedicadas e novos critérios de excelência
Outro marco importante veio do PlayStation Blog Game of the Year, que criou uma categoria específica voltada à acessibilidade. O vencedor foi Ghost of Yōtei, enquanto títulos como Battlefield 6, Assassin’s Creed Shadows e Split Fiction também apareceram entre os destaques.
A criação de uma categoria dedicada não apenas amplia a visibilidade do tema, como também estabelece parâmetros mais claros para avaliação, incentivando estúdios a investir de forma consistente — e não superficial — em recursos acessíveis.
Esse tipo de reconhecimento ajuda a consolidar a ideia de que acessibilidade não é um “extra”, mas parte integrante do design de jogos de qualidade. Quando critérios acessíveis entram na disputa por prêmios, eles passam a influenciar diretamente decisões criativas e técnicas em projetos futuros.
O avanço nos eventos especializados e no cenário indie
O movimento não ficou restrito aos grandes blockbusters. Premiações especializadas e voltadas a nichos específicos também reforçaram a importância da acessibilidade.
O Horror Game Awards elegeu Little Nightmares III como o jogo de terror mais acessível do ano, mostrando que até experiências focadas em tensão, atmosfera e desconforto podem — e devem — considerar diferentes necessidades dos jogadores.
Já no Indie Game Awards, o multiplayer Peak foi reconhecido por suas soluções acessíveis, destacando como o cenário independente continua sendo um espaço fértil para inovação. Muitas vezes com menos recursos, estúdios indie têm apostado em abordagens criativas e inclusivas, provando que acessibilidade não depende exclusivamente de grandes orçamentos, mas de intenção e planejamento desde o início do desenvolvimento.
Uma mudança clara de padrão na indústria
A repetição do tema em premiações de perfis tão variados indica uma mudança clara de padrão. Acessibilidade deixou de ser vista como algo opcional ou voltado apenas a um público específico e passou a ser entendida como parte fundamental da experiência de jogar.
Esse reconhecimento público pressiona positivamente a indústria, criando um ciclo em que boas práticas são valorizadas, replicadas e aprimoradas. Mais do que prêmios, esse movimento representa uma ampliação real do público que consegue acessar, entender e aproveitar jogos.
Cada menu mais legível, cada opção de remapeamento, cada ajuste de áudio ou dificuldade adaptativa contribui para um meio mais inclusivo e diverso. E a expectativa é que isso se torne regra, não exceção.
O que esperar de 2026
Para 2026, a tendência é de fortalecimento ainda maior desse cenário. Eventos dedicados exclusivamente à acessibilidade, como o GAconf Awards, devem ganhar mais relevância e visibilidade.
Além disso, a estreia da categoria de Melhor Design de Áudio Acessível no G.A.N.G. Awards aponta para um refinamento do debate, que passa a valorizar aspectos específicos e técnicos da acessibilidade, indo além do básico.
Esses avanços sugerem um futuro em que pensar em acessibilidade desde o primeiro rascunho de um jogo não será apenas recomendado, mas esperado — tanto pelo público quanto pela crítica especializada.
Acessibilidade faz parte do jogo!
Este texto faz parte da coluna de acessibilidade do Jornal dos Jogos, um espaço dedicado a ampliar a visibilidade e o debate sobre inclusão nos videogames. Yago Prazeres, responsável pelo texto, é desenvolvedor, especialista em acessibilidade em games e também realiza reviews de jogos sob essa ótica para o Voxel, analisando como diferentes títulos lidam com o desafio de tornar o ato de jogar mais acessível para todos.






