God of War Sons of Sparta mostra o peso da franquia e do nome de Kratos - Análise
Lançado de surpresa pela Sony, novo capítulo em 2D aposta no estilo metroidvania e revisita a Grécia Antiga, mas carrega o fardo de uma das maiores franquias dos games.
Quando a Sony Interactive Entertainment anunciou e lançou de surpresa God of War: Sons of Sparta durante o State of Play, a reação foi mista: surpresa, empolgação e, claro, desconfiança. Afinal, estamos falando de uma série que redefiniu ação em 3D tanto na era do PS2 quanto no renascimento nórdico no PS4 e PS5.
Dessa vez, porém, a proposta é outra. Desenvolvido pela Mega Cat Studios em parceria com a Santa Monica Studio, o novo jogo abandona o 3D cinematográfico e abraça um formato 2D no estilo metroidvania — subgênero de ação e plataforma focado em exploração de mapa interconectado e progressão por habilidades desbloqueáveis.
No meio da surpresa, o título ainda acabou levemente ofuscado pelo anúncio do remake da trilogia original do PS2. Sons of Sparta surge, então, quase como um complemento nostálgico para os fãs da era grega — e é justamente aí que mora sua maior qualidade e também seu maior problema.
Ficha Técnica
Jogo: God of War: Sons of Sparta
Lançamento: 12/02/2026
Onde jogar: PS5
Plataforma de teste: PS5
Preço: a partir de R$ 169,90
Um retorno à Grécia que expande o passado de Kratos
Sons of Sparta é um prelúdio ambientado na juventude de Kratos, durante o brutal treinamento espartano ao lado de seu irmão Deimos. A narrativa é canônica e se encaixa antes de toda a tragédia que conhecemos na saga original.
A história acompanha os irmãos em uma missão aparentemente simples: encontrar um colega desaparecido. Mas, como é tradição na franquia, o caminho é recheado de criaturas mitológicas, dilemas morais e reflexões sobre dever, honra e irmandade.
O roteiro, assinado pelos mesmos escritores da fase nórdica, funciona muito bem dentro da proposta. A dublagem é forte, emocional e ajuda a dar peso à juventude de Kratos — especialmente com o retorno de TC Carson como narrador adulto em inglês, bem como Ricardo Juarez aqui no Brasil.
Ao mesmo tempo, fica aquela sensação agridoce: esse período da vida do personagem merecia um jogo maior, mais grandioso, com o impacto visual e estrutural que a franquia costuma ter. É um ótimo recorte… mas parece pequeno demais para o potencial que carrega.
Metroidvania é retrocesso? Não, mas pode afastar fãs
Aqui está o ponto mais sensível da discussão. A mudança para o formato 2D com estrutura metroidvania não é, por si só, um retrocesso técnico ou criativo. Pelo contrário, trata-se de um gênero consolidado, com identidade forte e público fiel, que já provou inúmeras vezes sua capacidade de entregar experiências profundas e envolventes.
O problema não está no formato, mas na expectativa criada pelo nome God of War. A franquia se tornou sinônimo de espetáculo cinematográfico em 3D, combates coreografados com câmera próxima e narrativa grandiosa. Quando um novo capítulo abandona essa linguagem, de surpresa, parte do público inevitavelmente sente que está recebendo “menos”, mesmo que a proposta seja apenas diferente.
Dentro do que se propõe, Sons of Sparta funciona. O mapa interconectado estimula exploração constante, o gameplay é orgânico e a progressão por habilidades cria aquele ciclo clássico de voltar a áreas antigas com novas possibilidades. A estrutura é competente e respeita as bases do gênero, ainda que não traga grandes inovações.
É impossível ignorar que o peso da marca amplifica qualquer decisão criativa.
Ainda assim, é impossível ignorar que o peso da marca amplifica qualquer decisão criativa. Se fosse uma nova propriedade intelectual, talvez a recepção fosse mais leve e curiosa. Como parte de uma das franquias mais prestigiadas da indústria, cada escolha passa por uma lente muito mais crítica.
O shadow drop, aquele lançamento surpresa durante o evento, logo após o anúncio do retorno da trilogia original, também pode ter colaborado para esse susto. Afinal, Após um anúncio de peso, o jogo pode ter ficado reduzido a um bônus do evento.
A escolha do gênero metroidvania também pesa no estilo desse tipo de jogo. Para quem acompanha o mercado, dá pra perceber como o gênero está em alta, com franquias consagradas, como Prince of Persia e até Pac-Man, também entrando nesse universo. Com isso em mente, será que agora, em um mercado lotado e pós-Silksong, era a melhor hora para um salto desses com God of War? Fica a dúvida para os executivos.
Como é jogar God of War: Sons of Sparta
Em um mundo pré-Lâminas do Caos, o combate de Sons of Sparta aposta na lança (Dory) e no escudo (Aspis), criando uma dinâmica mais tática e menos explosiva do que os jogos principais da série. A movimentação lateral é ágil, e os combos são fáceis de aprender, o que torna o sistema acessível sem abrir mão de desafio.
A árvore de habilidades e o uso dos Presentes do Olímpo adicionam camadas interessantes à progressão. Essas habilidades não servem apenas para fortalecer Kratos em batalha, mas também para destravar novos caminhos no mapa, reforçando o DNA metroidvania da experiência.
O resultado é um sistema de combate que não reinventa a roda, mas cumpre seu papel com eficiência. Os confrontos contra chefes são o grande destaque, trazendo momentos de tensão e exigindo leitura de padrões, algo que agrada especialmente quem sente saudade da brutalidade da fase grega.
Não se trata de um jogo competitivo ou técnico, ficando dentro do esperado para o gênero metroidvania. Ainda assim, há desafio suficiente para manter o jogador atento, especialmente nos níveis mais altos de dificuldade.
Multiplayer existe, mas precisa ser desbloqueado
O modo multiplayer local, estruturado como um desafio em arenas com elementos roguelite, surge como um complemento curioso. A ideia de enfrentar ondas de inimigos em partidas rápidas pode ser divertida em sessões presenciais, especialmente para quem gosta de cooperação no sofá.
No entanto, a decisão de desbloquear o modo apenas após a conclusão da campanha causa estranhamento. Em um jogo cuja espinha dorsal é a progressão individual e a exploração contínua, inserir um modo separado que depende do término da história parece desconectado da proposta principal.
Além disso, o multiplayer não é essencial para a identidade do jogo. Ele funciona como extra, mas dificilmente será o motivo que levará alguém a comprar Sons of Sparta, principalmente com o bloqueio do modo. Com isso em mente, fica a dica para futuros jogos no estilo: se forem adicionar um muliplayer local extra, deixem desbloqueado desde o início da experiência.
Visual 2D é muito lindo
Outro ponto envolvendo o game que gera debate são os gráficos. Existe um preconceito recorrente quando franquias AAA adotam o 2D, como se isso representasse uma limitação técnica. Sons of Sparta mostra que essa ideia não se sustenta quando há direção de arte competente e atenção aos detalhes.
A pixel art é rica, os cenários apresentam profundidade e a ambientação da Grécia Antiga transmite peso e atmosfera. A trilha sonora também mantém o tom épico característico da franquia, enquanto a dublagem ajuda a reforçar o drama e a juventude impulsiva de Kratos.
Tecnicamente, o desempenho no PS5 é estável, algo esperado para um jogo mais contido. Ainda assim, fica a sensação de que o game poderia alcançar um público ainda maior se estivesse disponível em mais plataformas desde o lançamento.
Por aqui, eu tive a chance de testar Sons of Sparta no Steam Deck usando o streaming do PS5, e a experiência parece feita sob medida para o portátil da Valve. Vamos torcer para que o título chegue futuramente ao PC, garantindo que mais gamers tenham acesso ao jogo.
Vale a pena jogar God of War Sons of Sparta?
No fim das contas, Sons of Sparta é um bom jogo dentro do que se propõe. O tíutulo entrega exploração consistente, combate funcional e uma expansão narrativa interessante para o passado de Kratos.
O que o limita não é a falta de qualidade, mas o peso da expectativa. Quando se carrega um nome tão grande, cada escolha criativa é comparada aos momentos mais grandiosos da franquia. Quando você está no topo do Monte Olímpo, é mais fácil decepcionar do que agradar.
Sons of Sparta não é um retrocesso, mas também não busca ser o próximo salto revolucionário da série. Ele funciona melhor quando entendido como um capítulo complementar, que expande o universo sem a ambição de redefini-lo. Ainda assim, o próprio formato limita a experiência para fãs.
Enquanto o gênero metroidvania está em alta e tem uma grande parcela de fãs, a interseção com os games de ação 3D de God of War não é grande, como mostra a recepção inicial de Sons of Sparta. Com isso em mente, o jogo serve mais para expandir a franquia para um novo estilo que simplesmente agradar fãs.
God of War: Sons of Sparta vale a pena para quem aprecia o gênero metroidvania e deseja revisitar a fase grega da franquia sob uma nova perspectiva. O jogo é competente, visualmente marcante dentro do seu escopo e oferece uma narrativa que adiciona camadas interessantes ao passado do protagonista.
Por outro lado, jogadores que esperam uma experiência cinematográfica em 3D, nos moldes dos capítulos mais recentes da série, podem sentir falta da grandiosidade habitual. Nesse caso, talvez seja melhor ajustar as expectativas ou aguardar uma eventual promoção.
Entre erros e acertos, God of War Sons of Sparta não redefine a franquia, mas cumpre bem o papel de expandi-la. E, para alguns jogadores, isso já pode ser o suficiente.









